Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga
Dois trechos pelo rio
酷无极 · Criação com IA · 10913 caracteres · Cerca de 12 minutos
A travessia da manhã do dia onze ainda nem tinha começado, e A-Zhao já esperava na margem. Quando Ding Quan chegou, ela primeiro pôs o baú de bambu no barco. A lanterna, porém, não quis entregar. Abraçou-a e atravessou ela mesma a prancha. Ding Quan segurou o canto do baú com o cabo do remo e disse que ela parasse de tentar olhar três coisas ao mesmo tempo. Só quando firmou os pés ela entendeu o que ele dissera. Ele já estava de mão estendida sobre o assoalho, dizendo que aquele era o primeiro bom negócio do dia.
A-Zhao lhe entregou o dinheiro e de repente perguntou se aquela sua travessia também não deveria ter uma taxa de bagagem. Ding Quan olhou a lamparina alta que ela segurava e disse que, se cobrasse mais, ela teria de atravessar a nado. Os dois deixaram a margem rindo. Ela olhou para os telhados de Liuwan, mas não conseguiu distinguir sua janela entre tantas telhas cinzentas. Em vez disso, viu primeiro o canto da loja de lamparinas da família Qin voltado para o rio. A janela estava fechada, e não havia ninguém ali.
O barco de passageiros chegou um quarto de hora depois do que Zheng Qin tinha dito. Rio acima, uma carga de lenha molhada quebrara o estrado de bambu ao lado da cabine, e tiveram de trocá-lo. Zheng Qin não se desculpou com cada pessoa. Só pediu a quem já estava perto que recuasse para descarregarem primeiro a lenha. A-Zhao achou que, por ter chegado cedo, ia sentar num lugar seco. Só depois de embarcar viu que chegar primeiro não dava direito a dois lugares bons. Pôs a lanterna ao lado e apertou o baú de bambu contra os joelhos. Uma velha com um cesto às costas precisou passar espremida, de lado.
A corda do cesto da velha enroscou no papel que envolvia a lanterna, e um canto se rasgou com um estalo. A-Zhao estendeu logo a mão para protegê-la e disse para não amassar. A velha perdeu o equilíbrio e só não caiu porque se segurou na cobertura do barco. Zheng Qin olhou para trás, viu de relance quem bloqueava a passagem e pediu a A-Zhao que primeiro levantasse a lanterna e deixasse o lugar livre para alguém se sentar. O rosto dela esquentou. Quis dizer que aquela lanterna velha era emprestada, mas, antes de abrir a boca, ela mesma percebeu que isso não vinha ao caso.
O barco saiu de Tongwei, e ela continuou com a lanterna nos braços. O baú teve de ficar junto à cobertura. Ao lado, estava sentado um vendedor de tigelas de cerâmica, com palha forrando os cestos de carga, que balançavam mais na água do que em terra firme. Ele perguntou quanto valia a lanterna. A-Zhao disse que não estava à venda. Ele riu e disse que não queria comprar, só reparara que ela a segurava como se fosse uma criança. A-Zhao não respondeu. Um pouco depois, viu o homem tirar de baixo uma tigela de borda lascada e pô-la do lado de fora, para amortecer as batidas. Só então não resistiu e perguntou por que ele não usava um pano macio.
“O pano tem de ficar para as boas”, disse o homem. “Para as que quebraram e ainda servem, também é preciso achar um uso.”
Ele não falou aquilo como quem estivesse ensinando uma lição. Logo se recostou na carga e fechou os olhos. Ouvindo o remo, A-Zhao também sentiu sono de repente. Na véspera, com medo de perder o barco, acordara até quando um gato passou à porta. Agora que enfim navegava, mal conseguia se manter desperta. A cabeça tombou, a alça da lanterna bateu na testa, e ela abriu os olhos de dor bem a tempo de ver Zheng Qin sorrindo de boca fechada na popa. Resolveu pôr a lanterna entre os pés e enfim pôde soltar as duas mãos por um tempo.
No caminho, atracaram num pequeno cais para recolher dois sacos de feijão e um fardo de tecido de cânhamo. O jovem dono da carga tinha medo de que se molhasse e perguntou várias vezes se a costura da cobertura deixava entrar água. Zheng Qin mandou que ficasse ali e visse por si mesmo. A-Zhao viu uma ponta do tecido à mostra, de cor bem viva, e quis tocá-la para sentir a espessura. Já tinha estendido um pouco a mão quando a recolheu. O rapaz, porém, já tinha visto e empurrou o pano para dentro, como se temesse que ela o levasse. Só lhe restou virar de costas e fingir que ajeitava a correia do baú.
À tarde, o vento entrou pela lateral da cobertura, e os respingos vieram de viés até as tábuas do barco. A-Zhao primeiro segurou o papel que embrulhava a lanterna. Quando pensou no baú de bambu, um canto do fundo já estava molhado. Apressou-se a calçá-lo com a velha esteira de bambu e, ao abrir o baú, apalpou a borda da roupa de cima. O tecido estava frio e grudava na mão. Não entrara água no porta-agulhas, mas o pacotinho dos bolinhos de feijão amolecera de um lado. Ela ficou olhando para a mancha úmida, irritada por só ter pensado na lanterna e esquecido por completo o que Zheng Qin lhe dissera no dia anterior.
Zheng Qin lhe deu um pedaço de madeira que estava sobrando e mandou elevar mais o baú. Azhao pegou a madeira, sem voltar a se escorar na desculpa de que eram só coisas velhas e não tinha problema. Primeiro tirou a roupa de fora e a pôs sobre os ombros, prendendo-a para o vento não levar. Só depois alisou o papel da lanterna. O passageiro da tigela de cerâmica acordou, viu que ela estava com um ombro molhado e o outro seco e perguntou se era a primeira vez que viajava para longe. Ela disse que não era a primeira vez que atravessava um rio. Ele riu e respondeu que havia uma boa diferença.
Quando chegaram a Sangqiao, ainda era dia, mas o barco de passageiros não seguiria adiante. Do outro lado da água, A-Zhao viu um barco menor se preparando para soltar as amarras e perguntou se podia pegar carona naquele trecho. Zheng Qin disse que ele ia a Dongcha buscar carga e, depois de escurecer, não voltaria a Lanting. Se A-Zhao fosse com ele, seria ainda mais difícil achar onde dormir do que em Sangqiao. A-Zhao hesitou um instante, mas acabou descendo com a lanterna nos braços. Sabia para que lado virar o remo, mas não sabia onde o barco dos outros encerraria a jornada naquela noite.
Uma noite na hospedaria custava oito wen, e a tábua de cama menor ainda estava livre no cômodo de dentro. Ao ver a caixa, o dono perguntou o que havia nela. A-Zhao disse que eram agulhas, linhas e roupas. Ele deixou que a pusesse debaixo da cama, contanto que não atrapalhasse quem precisasse subir ou descer da cama ao lado. Ela pensou em levar também a lanterna, mas havia duas crianças correndo e se atirando uma sobre a outra no quarto. Acabou pedindo ao dono um canto atrás do balcão onde ninguém esbarrasse nela. Quando deixou a lanterna do lado de fora, sentiu um vazio por um instante. Depois se virou para estender as roupas úmidas e fez isso bem mais depressa do que se tivesse continuado com a lanterna nas mãos, olhando para todos os lados.
Na hospedaria, o jantar foi uma tigela de mingau e dois pedacinhos de conserva salgada. A-Zhao ainda sentia o estômago vazio. Pensou em comprar um bolinho, mas lembrou que o bolinho de feijão que trouxera também servia e tirou o que tinha molhado num canto. Um rapaz na mesa ao lado olhava para o embrulho e perguntou se era de Liuwan. Ela levantou os olhos. Ele vestia um traje azul velho, com a barra enlameada. Os olhos, porém, eram vivos, e no canto da boca ainda havia um restinho de mingau.
“Você quer comprar?”, perguntou A-Zhao.
O homem riu e disse que só tinha sentido um cheiro conhecido e imaginado que ela viesse daquele lado. Apresentou-se como Gu Ming. Tinha ido cantar uns versos de aniversário na casa de um anfitrião em Sangqiao. Só depois de cantar percebeu que pensavam que ele já tinha almoçado. À tarde não serviram refeição, e ele ficou sem jeito de pedir. A-Zhao viu que a tigela dele já estava vazia e não resistiu a perguntar se quem cantava versos precisava arranjar um jeito bonito de falar até para pedir comida.
Gu Ming ficou um instante sem reação. Depois empurrou a tigela e disse que então ia perguntar sem enfeitar. Ela podia dividir meio bolinho com ele? Falou tão abertamente que A-Zhao já não se sentiu à vontade para ficar apertando o bolinho na mão. Partiu-o ao meio sem nem reservar para si o lado seco. Gu Ming aceitou, olhou primeiro a beirada por onde ela tinha partido e perguntou se sabia cortar roupa. A-Zhao voltou a desconfiar e perguntou o que isso tinha a ver com o bolinho. Ele disse que o corte saíra certinho, como se ela tivesse medo de deixar um dos lados menor.
“Talvez eu só não quisesse dar demais”, disse ela.
Gu Ming assentiu com o bolinho entre os dentes. Disse que ela tinha razão e que antes ele enfeitara demais a história. A-Zhao baixou a cabeça para tomar o mingau, mas não conseguiu esconder de todo o sorriso. Imaginara que um ator, até sentado, pareceria um personagem de ópera. Depois de algumas frases, ele lhe pareceu mais com aqueles passageiros da barca de Liuwan que tentavam arrancar um pouco mais, só que fazia isso de um jeito menos irritante.
Depois da refeição, uma criança da hospedaria fez de uma lasca de madeira uma tabuleta de audiência e, arrastando a voz, mandou que abrissem caminho. Gu Ming virou a tigela vazia de mingau sobre a mesa, equilibrou a lasca no fundo e fez de dois dedos os batentes de uma porta, para ensinar à criança o passo de atravessá-la. Ela enfiou primeiro o ombro, enganchou a manga na tigela e a derrubou. O dono ralhou lá do balcão. Gu Ming se apressou a firmar a tigela e disse que tinha ensinado mal, mas a criança apontou para ele, rindo, e pediu que fizesse outra vez.
Azhao o viu erguer o ombro e girar a cintura. A velha túnica azul, antes tão discreta, ganhou movimento, e as pregas nas costas pareciam seguir uma ordem própria. Ela não resistiu a espiar a junção sob a manga. Gu Ming percebeu e perguntou se havia algum rasgo. Ela negou com a cabeça e disse que os dois lados da roupa eram diferentes. Ele então ergueu a manga para mostrar e respondeu que os ombros também eram diferentes. Por causa de uma lesão antiga, o esquerdo não subia tanto quanto o direito. Se os dois lados fossem feitos iguais, a túnica abriria na costura depois de duas apresentações.
A-Zhao lembrou de Luo Yan provando a saia, embora também sentisse que não era bem a mesma coisa. Ia perguntar mais quando Gu Ming de repente baixou a manga com a mão e perguntou se ela ia a Lanting visitar parentes ou ir à feira. A-Zhao disse que procurava trabalho e também levava um recado. Ele assentiu e não fez mais perguntas. Só avisou que o barco do braço leste partiria na manhã seguinte conforme o embarque da carga, sem sair só porque o galo da hospedaria tinha cantado. Ele mesmo voltaria mais cedo num barco de percurso curto. Se ela visse alguém de túnica azul correndo todo desengonçado, era para fingir que não conhecia.
Ela quase perguntou de que companhia ele era, mas, com a pergunta na ponta da língua, receou que soasse como um pedido de indicação e perguntou onde podia pôr a roupa para secar. Gu Ming apontou para o pátio dos fundos e disse que, se o dono perguntasse, era só dizer que por oito wen a noite ele bem podia ceder uma vara de bambu. Azhao, claro, não falou assim. Pediu ao dono um pano velho, limpou a vara atravessada no pátio e só então estendeu a roupa de cima. Pagou mais um wen pela água quente para lavar o rosto.
À noite, a pessoa na cama ao lado roncava sem parar. Ao se virar, A-Zhao esbarrou no baú de bambu debaixo da cama, e o fecho tilintou de leve. Lembrou-se primeiro de que a lanterna ainda estava atrás do balcão, depois da metade do bolinho que dera. O bolinho fora comprado para a senhora Qin, mas, antes mesmo de chegar a Lanting, já estava faltando quase metade. Ela não se arrependeu. Só pensou que as coisas realmente se recusavam a seguir a ordem que ela lhes tinha dado em casa. Até um embrulhinho de papel podia mudar de sentido no meio do caminho.
Quando acordou no dia seguinte, Gu Ming já tinha partido. Na mesa havia uma moeda de cobre debaixo de um pedaço de papel em branco. O dono da hospedaria disse que era pela metade do bolinho que ela lhe dera. Comentou ainda que até o ator tinha se lembrado, embora nunca fosse tão pronto a pagar quando vinha lhe pedir água quente. Azhao guardou a moeda sem dizer que o bolinho tinha sido um presente nem achar que aquilo acertava de vez todas as contas entre os dois. Pôs a moedinha em outro bolso da manga para não esquecê-la ao contar o dinheiro da passagem.
Quando foi buscar a lanterna para partir, o menino atrás do balcão apontou para o embrulho e perguntou se lá dentro havia uma daquelas lanternas giratórias. A-Zhao respondeu que não girava, que era só uma lanterna velha. O menino ficou desapontado na hora, e, ao contrário do que costumava fazer, ela não disse nada em defesa da lanterna. Embrulhou de novo os bolinhos de feijão do pacote com o canto molhado, pegou primeiro o baú, que já tinha secado, e só então estendeu a mão para receber a lanterna. O dono da hospedaria abriu espaço para ela passar, e o canto do baú não bateu em ninguém.
À tarde, Lanting enfim apareceu na margem leste, para além da cobertura do barco. À beira do rio havia uma fileira de casas baixas. Atrás delas, roupas de várias cores secavam em varas de bambu. Uma manga comprida deu meia-volta ao vento, como se alguém levantasse a mão e de repente a recolhesse. A princípio, A-Zhao só olhou para as roupas. Quando o ajudante de Zheng Qin anunciou o cais, ela viu na parede externa do Salão Sul o cartaz conhecido. As letras vermelhas estavam um pouco desbotadas, mas ele continuava mesmo ali.
· Fim do capítulo ·
Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.
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