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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

Os pontos que fazem alguém ficar

酷无极 · Criação com IA · 11301 caracteres · Cerca de 12 minutos

A roupa nova de A-Heng começou com uma camada só. A-Zhao emendou as sobras de tecido numa tira comprida e pediu que Lu Heniang vestisse a peça e andasse com ela. Sem os enfeites de contas na barra, parecia muito simples. Lu Heniang se olhou no espelho e, de saída, disse que, só porque o espetáculo no rio de trás não ia acontecer, não era para transformá-la numa vizinha da roça que viera pedir um banco emprestado. A-Zhao sentiu o rosto esquentar e se apressou a dizer que aquilo era o forro, que a parte de fora ainda não estava pronta e que ninguém esperava que ela entrasse em cena daquele jeito.

Mesmo depois de ouvir a explicação, Lu Heniang não quis simplesmente erguer o braço como A-Zhao pedia. Precisava contornar a lateral do palco, subir na tábua do barco, virar até o ângulo menos favorável e só então trocar a vara de mão. A-Zhao acompanhou cada movimento. As marcas no papel já eram mais numerosas que as das medidas do tecido. Por fim, largou o papel e estendeu frouxamente um pedaço de linha onde iam prender os enfeites pesados. Quando a mulher girou, o cotovelo levantou a linha primeiro, revelando o ponto que A-Zhao supunha que não ia atrapalhar.

Dessa vez, Azhao esperou antes de cortar. Pediu que Lu Heniang repetisse o percurso e observou do outro lado. Na terceira vez, Lu Heniang perdeu a paciência e disse que, se Azhao passasse o dia só olhando, ainda assim ela teria de vestir o figurino no dia seguinte. Azhao admitiu que talvez não terminasse tudo naquele dia. Queria ver direito primeiro aquele trecho, para não esperar até Lu Heniang entrar por trás da cortina e só então pedir que tirasse a roupa mais devagar. Lu Heniang olhou para ela e não voltou a fazer graça com o robe azul da outra vez. Mesmo assim, só aceitou repetir o percurso mais duas vezes, porque ainda precisava ensaiar o canto.

Xiaoman, observando ao lado, pediu que ela deixasse por enquanto os enfeites pesados na camada externa, prendendo cada um com uma tira, sem costurá-los de vez. Azhao seguiu a sugestão, mas percebeu que, se escondesse demais todas as amarras, ainda seria preciso tateá-las ao tirar a roupa. Então as mudou para pontos que pudessem ser alcançados naturalmente pela abertura da manga. Diante do espelho, aparecia um nó a mais. Lu Heniang achou que o acabamento não estava limpo o bastante, mas também não queria voltar à dificuldade anterior para se despir. As três foram mudando o nó de lugar até deixá-lo numa dobra da roupa que já precisaria ser franzida.

O método novo não tinha nada de mágico. As soluções estavam todas nas coisas antigas. O difícil era acertar o lugar de cada uma naquele traje, para aquela pessoa e naquele passo. De pouco adiantava dizer que todo figurino de teatro devia ser assim. Azhao já o testara com as próprias mãos, mas ainda precisava repetir o teste depois que Lu Heniang suasse. Com o tecido seco, o movimento saía fácil. Molhado, talvez o pano não obedecesse. Quando Gao Man veio apressá-la, ela não prometeu de novo que entregaria naquele dia. Só explicou o que ainda faltava testar.

Gao Man ficou contrariada e disse que as apresentações menores também tinham data marcada. A falta de um palco grande não queria dizer que pudessem se arrastar com o trabalho. A-Zhao quase se comprometeu de novo a trabalhar todas as noites que restavam. Antes disso, Xiaoman apertou a base de um dedo, perdeu a firmeza com que segurava a agulha e a deixou rolar sobre o tecido. A-Zhao viu o rosto dela empalidecer por um instante e perguntou se tinha voltado a doer. A mulher disse que não era nada sério, que dava para continuar com outro dedo. Falava com tanta familiaridade que era evidente que já tinha feito isso muitas vezes.

A-Zhao pegou aquela metade e disse que ela mesma faria o trabalho naquela noite. No começo, queria de verdade deixar Xiaoman descansar um pouco. Mas, ao tomar todo o tecido nos braços, sentiu também a empolgação de enfim poder cuidar de um figurino inteiro. Se desse certo, todos saberiam que ela era capaz de mais que desmanchar costuras, e Lu Heniang não teria de recorrer sempre a Xiaoman. Esse pensamento não desaparecera de todo por causa do revés da outra vez. Ela chegou a trabalhar mais depressa, como se pudesse espantá-lo sem ter de admitir que o tivera.

Na segunda noite, os dedos dela também doíam, e o polegar perdia a sensibilidade de tempos em tempos ao pressionar o dedal. Lá fora, todos já dormiam. Diante dela ainda havia dois trechos por arrematar, e o forro para a prova da manhã seguinte continuava sem lavar e secar. Só então percebeu que assumir um figurino inteiro trazia, além do título de responsável, aquele monte de miudezas de que a outra pessoa nunca falava, dia após dia. Se apenas ocupasse o lugar de Xiaoman, talvez o figurino ficasse pronto, mas alguém continuaria a se acabar de trabalhar do mesmo jeito.

Ela deixou Xiaoman dormir, sem acordá-la à espera de que reconhecesse seu esforço. Primeiro separou o que seria indispensável no dia seguinte do que podia esperar. De manhã foi ao mercado procurar Ye Zhen e perguntou se ela podia fazer só dois forros e descosturar e lavar aquelas peças, com entrega em três dias e sem cobranças à noite. Ye Zhen examinou o serviço e pediu trinta e seis wen. Faria tudo no seu próprio ritmo, avisaria de antemão sobre as bordas estragadas e deixaria a cargo de Azhao o trabalho extra que a companhia acrescentasse de última hora.

Os trinta e seis wen sairiam do pagamento de Azhao por aquele traje, e, feitas as contas, deu-lhe um pouco de pena. O preço de Ye Zhen era justo. Era ela que antes achava que, quanto mais fizesse, mais inteiro chegaria às suas mãos o pagamento. Agora precisava primeiro repassar uma parte a outra pessoa para dormir o suficiente, observar o suficiente e dar conta do que lhe cabia fazer. Assentiu e acertou quando viria buscar o trabalho, sem pedir desconto por serem todos da mesma companhia.

Xiaoman viu bem quando Ye Zhen pegou a cesta e a levou. Perguntou se tinha deixado de fazer a sua metade. A-Zhao disse que não, que ninguém conseguia fazer três coisas ao mesmo tempo com uma só mão. Parecia que estava tentando poupar Xiaoman, mas, depois de falar, percebeu que também estava defendendo uma necessidade sua. Acrescentou que, dessa vez, queria testar por inteiro a parte que cabia a quem vestia o figurino, sem voltar a passar todo o tempo enterrada junto ao balde de água. Xiaoman olhou para ela por um instante. Acabou deixando o material ir e foi só abrir o libreto.

O calor de meados do sexto mês já entrava no quarto. O tecido secava depressa, e todo mundo suava mais. Lu Heniang vestiu a roupa nova e ensaiou uma cena inteira, desde o começo. Ao entrar pela cortina, pediu que A-Zhao a recebesse como numa apresentação de verdade, sem esperar que ela se firmasse para só então desatar os laços. As mãos de A-Zhao ainda não eram muito rápidas. Uma das pontas estava escondida no lugar errado, e elas tiveram de parar de novo. Não deram tudo por perdido por causa daquela pausa. Só puseram a ponta no lugar certo e repetiram a cena.

Tirados os enfeites pesados, ainda dava para girar com a roupa de baixo. Gu Ming olhava de lado e perguntou se, no próximo figurino, dava para poupar a Liu Sheng também meio tempo de embaraço. A-Zhao respondeu que primeiro entregaria aquele conjunto e que ele começasse por dizer tudo o que precisava na troca. Gu Ming ergueu a mão em sinal de que sim e fez questão de pôr a espada de madeira diante dela, para mostrar que já arrancara do adorno do punho as duas pontas que mais enganchavam. Ela não resistiu a passar os dedos ali, ainda um pouco contente por ele ter se lembrado. A alegria não a fez sair em busca de outra peça de tecido.

Por fora, o figurino novo ainda brilhava. Um pequeno cordão de contas que Lu Heniang escolhera ficara na frente, de um lado, e balançava quando ela girava. Não tinham tirado todos os enfeites para deixar só o que era útil, nem posto todo o peso da beleza no mesmo par de ombros. A mulher se olhou no espelho por um tempo e disse que gostava daquele detalhe, mas que a manga direita ainda estava um pouco comprida. A-Zhao dobrou a manga ali mesmo e pediu que ela pegasse outra vez a vara. Só quando ela baixou a mão sem que a manga de fato encostasse na vara foi que A-Zhao anotou quanto precisava encurtar.

Gao Man conferiu as sobras do tecido da companhia e perguntou a A-Zhao quanto ainda dava para aproveitar da amostra que ela comprara no começo. A-Zhao achava que aquele gasto tinha sido todo por conta dos seus exercícios e ficou surpresa ao ouvir que o tecido entraria na conta do figurino. Gao Man disse que anotaria o que de fato fora usado na peça, sem pôr na conta da companhia tudo o que não tinham usado. Era para ela não ficar remoendo que todo mundo se aproveitava dela e, assim que alguém pegava o material, só saber dizer que não precisava pagar. A-Zhao corou, mas lhe entregou o retalhinho.

Tinham combinado de antemão duzentos wéns pelo trabalho no traje. Cem seriam pagos primeiro, e os outros cem, assim que entrasse a receita da rodada seguinte de apresentações menores. Anotaram a data no verso da tabuleta de retirada e devolução de material, para dali a alguns dias não se lembrarem apenas de quem tinha dado a palavra naquele dia. A-Zhao confirmou a data. Quando chegara, aceitava tudo por medo de criar constrangimento. Dessa vez, também pôs os trinta e seis wéns às claras, em vez de guardá-los como um sacrifício que ninguém conhecia. Separou a parte de Ye Zhen e ficou com o restante. Pela primeira vez, conseguiu falar da colaboração como algo que o serviço exigia, sem tratá-la como uma noite extra que dava a alguém por boa vontade.

Ao ver que dava para trocar de figurino, Gao Shoucheng quis marcar mais uma apresentação. Se já havia roupa e ainda sobravam lugares, podiam convidar o público outra vez. Lu Heniang foi a primeira a balançar a cabeça: depois de duas noites seguidas, já sentia a garganta apertada. A-Zhao acrescentou que o forro talvez não secasse até a noite seguinte e que o de reserva ainda não estava todo ajustado. Se acrescentassem uma sessão de última hora, teriam de usar o modelo antigo. O diretor se irritou e perguntou como, mal acabavam de fazer uma coisa, ela já não servia. A-Zhao pôs ao alcance da mão dele um pedaço seco e um molhado e deixou que tocasse os dois, sem lhe dar um sermão.

Depois de tocar os dois pedaços, ele ainda ficou contrariado, mas não mandou ninguém vestir roupa molhada como se estivesse seca. No fim, deixaram a apresentação extra fora da programação por enquanto, até ver quanto entraria de fato naquela rodada. A-Zhao sabia que, se vendessem ainda menos ingressos, ele voltaria a perguntar, e ela não poderia responder sempre que não dava. Anotou o forro de reserva como um serviço separado, para calcular o trabalho quando houvesse mesmo necessidade, sem costurar naquele dia todas as noites que ainda estavam por vir.

No dia em que começaram as apresentações menores, A-Zhao ficou ao lado da porta do vestiário, longe do lugar mais iluminado. Havia menos espectadores do que se esperava para o palco grande, e o som da cobrança à entrada logo cessou. Ela ouviu alguém dizer que o figurino ainda era da cor de antes e perguntar se faltara dinheiro para trocar. Sentiu um aperto e quase levantou a cortina para explicar onde estavam as partes novas. Mas Lu Heniang entrou naquele instante. Com um gesto da mão, pôs a ponta da tira nova na palma de A-Zhao. O fôlego da atriz e a batida do tambor esperavam juntos.

Ela já não tinha tempo de explicar. Recebeu os enfeites pesados e pôs um forro seco no lugar do outro. Ao voltar ao palco, Lu Heniang só fez um aceno para ela. O ombro direito já não travava antes do movimento. Azhao enfim entendeu que, naquele instante, bastava que soubesse da utilidade daquilo quem precisava usá-lo. Não precisava correr atrás do comentário vindo da plateia para contestá-lo. Quando Gu Ming passou pela cortina no ato seguinte, abriram caminho como tinham combinado. Até Asheng sabia que não podia ficar sentado ali com suas lascas de bambu, bloqueando a passagem.

Ao fim da apresentação, Lu Heniang devolveu o figurino, apontou dois pontos para mexer no dia seguinte e disse que podia se movimentar tranquila com a roupa daquele dia. Não elogiou um suposto dom de Azhao nem disse que de agora em diante todos os figurinos ficariam a cargo dela. Só perguntou como pendurar as tiras para que não se misturassem. Azhao mostrou as pequenas marcas que tinha feito e separou com Gao Man as peças retiradas, de modo que as próximas mãos pudessem assumir o trabalho sem esperar que ela estivesse sempre ali.

Quando Ye Zhen veio receber, A-Zhao lhe entregou as trinta e seis moedas combinadas. Ela contou, guardou e disse que, se da próxima vez fossem lavar do mesmo jeito, aquela costura de dentro podia ser fechada mais tarde, o que lhe pouparia descosturá-la duas vezes. A-Zhao anotou, sem sentir que a sugestão lhe tirava parte do trabalho. Depois que Ye Zhen saiu, guardou o que sobrara na própria bolsinha. Já não precisava, só porque o figurino inteiro levava seu nome, imaginar que o trabalho só seria um sucesso se também ficasse com aquela parte do pagamento.

À noite já não vinha barulho debaixo da cama, mas A-Zhao demorou a dormir de tão animada. Xiaoman já dormia profundamente, com a mão aberta fora da coberta. Naquele dia, não tinha deixado para procurar uma agulha na hora de apagar a luz. A-Zhao empurrou para um lugar seco o estojo de agulhas que rolara até o canto da mesa, deitou-se também e ouviu que, no pátio, Gu Ming ainda contava baixinho os passos da espada. Talvez aqueles passos não ficassem para sempre no mesmo palco. Ela virou de lado, sem se levantar de novo para preparar um traje que ninguém tinha pedido.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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