Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga
Aquele quarto voltado para o sul
酷无极 · Criação com IA · 11066 caracteres · Cerca de 12 minutos
Só depois de medir aquela janela Xu Shen percebeu que ainda não havia perguntado o aluguel. Fang Guiniang, com uma peneira de arroz quebrado nos braços, observava-o encostada à porta. Esperou que ele recolhesse a régua de bambu e sorriu antes de falar: três pessoas tinham vindo; a primeira levantara a cama, a segunda examinara o fogão, e só ele perguntara primeiro em qual tijolo o sol do inverno batia.
“Minha mãe não enxerga bem”, disse Xu Shen. Assim que falou, pareceu que já havia alugado aquele quarto para ela. Saiu outra vez e olhou para o muro do pátio. O sol do décimo primeiro mês lunar era baixo; duas esteiras desbotadas de tanto lavar pendiam do muro, e suas pontas dividiam uma faixa de luz morna em vários pedaços. Para pôr a cesta de costura debaixo da janela, seria preciso deslocar a cama meio chi para dentro; depois disso, o grande armário da casa antiga já não caberia junto à entrada.
Fang Guiniang anunciou cento e vinte wen por mês, mais um mês de caução. Os dedos de Xu Shen pararam sobre a régua, e ele não pechinchou de imediato. Naquela região havia quartos de oitenta wen, voltados para o poço, onde era preciso acender a lamparina até ao meio-dia. Em quase vinte anos, fizera muitas janelas voltadas para o sul: algumas com treliças ornamentadas, outras até com duas camadas de papel. Agora que chegara a vez de sua mãe, ele precisava pensar tanto diante daquela janela sem enfeite algum.
“Até o início da hora shen, por volta das três da tarde, bate sol; depois disso, ele passa para lá do muro.” Fang Guiniang pôs a peneira na mesinha. “Se você quer sol o dia inteiro, não tenho um quarto assim.”
A franqueza dela acabou aliviando Xu Shen. Ele abriu o postigo; o eixo rangeu de leve, mas não estava estragado. Mesmo assim, pressionou-o por hábito, como se deixasse a alguém uma prova para vir lhe cobrar depois. Havia um pequeno fogão no canto do quarto, onde se podia aquecer sopa; para cozinhar uma panela grande de arroz, era preciso ir ao pátio. A água tinha de ser trazida do poço, não se podia empilhar lenha na varanda da frente, e à noite era preciso apagar o fogo forte que não estivesse em uso. Enquanto dizia isso, Fang Guiniang endireitou com o pé o banco quebrado atravessado à porta, revelando debaixo dele um par de sapatinhos bordados.
A sobrinha dela se encolhia atrás da cortina do cômodo da frente, apertando um pedaço de bolinho de arroz e olhando fixamente para a serra na cintura de Xu Shen. Ele virou a serra para trás e se abaixou para lhe mostrar uma maravalha enrolada. A menina não a pegou; só perguntou se dava para soprá-la e fazer som. Fang Guiniang mandou-a entrar para comer e foi buscar o papel do contrato, deixando Xu Shen examinar mais um pouco o quarto. Ele experimentou então o trajeto entre a cama e a boca do fogão: abrindo os dois braços, não chegava a tocar as paredes.
Na casa da montanha onde a mãe vivera a maior parte da vida, bastava um passo para chegar ao fogão e outro para sair ao quintal. A soleira era alta; no inverno, ela muitas vezes apoiava uma mão na porta e usava a outra para levantar a própria perna. Ele propusera várias vezes buscá-la, mas ela sempre dizia que esperasse a colheita dos feijões, a troca de pelo do cão amarelo, a hortaliça junto ao muro oeste dar sementes. Agora, enfim, mandara dizer que partiria no dia nove, e ele temia que, se demorasse um único passo, aquela frase voltasse a se transformar em tantos pedidos de espera.
Ele estava na metade da contagem das moedas enfiadas no cordão quando Fang Guiniang o deteve com a mão: “Primeiro diga quem vai morar aqui. Só sua mãe, ou você também vem?”
“Só ela. Eu fico na oficina da família Ren, no fim da rua Leste.”
Só então Fang Guiniang pegou o pincel. Ela não era alguém que apenas se sentava para receber aluguéis: ainda precisava pilar arroz no cômodo da frente, e as talhas de água, a lenha e os potes de conserva das três famílias do pátio viviam disputando um lugar seco. A cada vez que Xu Shen dizia que não havia problema, ela fazia um ponto no canto do papel e respondia que as questões importantes deviam ser ditas antes, para evitar aborrecimentos dos dois lados. Ele a achou um tanto faladeira, mas ainda assim memorizou a hora em que o portão do pátio se fechava à noite.
Depois de pagar a caução, ele separou mais algumas moedas do cordão para comprar papel de revestir a janela. Fang Guiniang viu e disse que, embora velho, o papel ainda barrava o vento, e que ele não precisava ter pressa. Xu Shen parou por um instante, devolveu o papel ao lugar e comprou apenas um pedacinho para remendar as bordas e os cantos. Antes mesmo de a mãe entrar no quarto, ele já substituía muitas coisas por ela, sem ter percebido isso.
Ele só voltou quando o almoço na marcenaria da família Ren estava terminando. Wei Ce estava agachado à porta, desbastando uma tira de madeira até deixá-la com uma borda fina. Ao ouvir os passos, escondeu-a atrás dos joelhos. Xu Shen estendeu a mão, e o rapaz hesitou antes de entregá-la. Era um pequeno pente de prender o cabelo, ainda sem os dentes serrados, mas com meia flor já trabalhada no dorso.
“O serviço das folhas da porta já terminou?”
Wei Ce apontou para debaixo do telheiro. As duas tábuas já estavam unidas, mas os encaixes ainda não tinham sido acabados; a régua comprida de Ren Quan estava apoiada ao lado. Ele se apressou em dizer que só fizera o pente depois de comer, quando não havia serviço, mas logo se corrigiu e admitiu que começara um pouco antes. Xu Shen ia repreendê-lo, porém, ao ver aquela flor no dorso do pente que mal parecia uma flor, lembrou-se de que, em seu primeiro ano na oficina, também pegara escondido um pedaço de madeira boa, só para entalhar um estojo de costura para a mãe. No fim, não conseguira deixá-lo redondo, e o mestre o serrara em duas partes para calçar os pés da mesa.
Ele não confiscou o pente; apenas mandou Wei Ce varrer primeiro as maravalhas. Ren Quan saiu do cômodo dos fundos com uma tigela de sopa que sobrara e disse que Xu Shen alugava um quarto como se fechasse um grande negócio: passara a manhã inteira sem voltar. Xu Shen disse que precisaria subir à montanha nos dias oito e nove para buscar alguém. As pálpebras de Ren Quan baixaram, e ele parou de tomar a sopa.
Duas encomendas estavam lado a lado na oficina: a porta nova da botica Ji'an e as grades de janela de uma casa na rua Norte. A botica precisava da instalação antes do solstício de inverno; o cliente já dissera isso duas vezes. Na ausência de Xu Shen, Wei Ce só se atrevia a unir tábuas, sem tocar nas duas peças longas de madeira. Ren Quan pousou a tigela na bancada, deixando um círculo com os respingos de gordura da borda. Não disse que ele não podia ir; apenas perguntou se receberia normalmente o pagamento por aqueles dois dias.
“Esses dois dias não contam”, disse Xu Shen. “Quando voltar, compenso trabalhando nas folhas da porta.”
Ele achou que o assunto estava encerrado, mas Ren Quan continuou: depois da mudança ainda seria preciso montar a cama, acrescentar um fogão, e a velha senhora talvez não se acostumasse a dormir na primeira noite; quantos outros períodos de dois dias viriam depois? Wei Ce baixou a cabeça e varreu o mesmo pedaço de chão pela terceira vez. Ao ouvir a vassoura raspar o piso, Xu Shen compreendeu que as palavras do mestre talvez não fossem pura aspereza. Depois de tantos anos trabalhando para a oficina, ele também temia, acima de tudo, quem prometia uma data e, chegada a hora, não tinha o que entregar.
Por fim, combinaram que ele voltaria no dia dez. Ren Quan permitiu que levasse sua própria plaina, seus formões e o serrote pequeno; a broca longa da oficina ficaria, e mandou Wei Ce distinguir bem quais ferramentas eram de uso comum. Xu Shen embrulhou cada ferramenta e só então percebeu que seus pertences não eram muito maiores que aquele pente pequeno cujos dentes ainda não tinham sido serrados. Imaginava que, depois de consertar tantas portas para os outros, sua própria vida já tivesse uma moldura firme; agora que a mãe realmente viria para a cidade, porém, era preciso medir essa moldura de novo, de ponta a ponta.
À tarde, ao levar a madeira à botica, ele fez questão de dar uma volta pela entrada da viela Nanhuai. Na botica Ji'an, alguém peneirava raízes secas. O cheiro dos remédios lhe trouxe à lembrança o pano velho que cobria os joelhos da mãe, encardido de tantos anos que já não ficava limpo. Zhou Tong estava junto à porta, orientando um pedreiro a deslocar uma pedra de apoio. Dizia que a água se acumulava diante dos degraus e que, quando o tempo abrisse, ainda seria preciso elevar mais uma camada. Pediu a Xu Shen que levasse primeiro a madeira da porta para o quintal dos fundos, sem deixá-la à beira da rua. Xu Shen olhou para o monte de pedras e quis perguntar quanto exatamente o piso seria elevado, mas um cliente lá de dentro já havia chamado Zhou Tong.
Depois de guardar a madeira da porta no telheiro, ele acrescentou um traço ao lado da marca antiga, para perguntar quando voltasse. Zhou Tong saiu atrás dele e pediu que levasse um recado à marcenaria no caminho: o homem de Gaopu que traria os potes vazios ainda não chegara; se demorasse mais alguns dias, não deveriam fechar completamente as caixas de madeira empilhadas junto à porta dos fundos. Xu Shen concordou, sem perguntar quem era. Tantos carregadores entravam e saíam de Qinglan todos os dias; antes, ele só se lembrava de qual carga atrapalhava a porta que precisava instalar, nunca do rosto de quem a carregava.
Do outro lado da rua havia um vendedor de pães que conhecia o pessoal da oficina Ren. Ao vê-lo sem pressa de partir, perguntou se era ele quem faria sozinho a porta nova. Xu Shen poderia ter dito que ainda estavam acertando, mas sua boca já havia confirmado. O vendedor ergueu a voz: ótimo, de agora em diante também chamaria o mestre Xu. A palavra mestre pareceu firmar seus pés no chão. Ele pegou um pão rachado pelo forno e fez questão de não pedir desconto. Só depois de passar por duas lojas lembrou-se de que nunca gostara de ver alguém gastar mais por causa de um título.
Ele partiu o pão, e o vapor quente lhe subiu até os cílios. Quando a mãe o levava à feira, bastava uma mulher mais velha que ela elogiar a habilidade de suas mãos para que, durante a tarde inteira, ela não tivesse coragem de lhe pedir que carregasse a cesta pesada. Mais tarde, quando faltou dinheiro em casa, a mãe usou aquele elogio para convencê-lo a ir aprender marcenaria na cidade. Ele dizia que já não se lembrava, mas ainda recordava até o lugar onde faltava um botão na manga daquela mulher. Se o tratamento de mestre Xu chegasse hoje à montanha, sua mãe provavelmente o repetiria várias vezes à tia Liu.
Ao sair da oficina, viu a carroça de bois de Shi Yan descarregando juncos. O carroceiro enrolava as rédeas no pulso; tinha uma cicatriz antiga nas costas da mão. O boi mexia o focinho, tentando alcançar restos de verduras junto à porta. Xu Shen acertou com ele o frete do dia nove: oitenta wen, vinte adiantados. Shi Yan não quis prometer sem ressalvas: se a passagem da montanha estivesse fechada, a carroça não subiria; um caminho por onde uma pessoa passava nem sempre permitia a passagem de uma carroça. Tocando o varal, disse que, com uma senhora idosa a bordo, não faria o boi correr, por maior que fosse a pressa.
Xu Shen ainda perguntou se seria possível pôr mais uma camada de palha. Shi Yan disse que havia palha e corda; se levassem potes e jarros, seria preciso separá-los com roupas velhas, para não chegarem à cidade com uma carroça cheia apenas de tilintares de cacos. Ao tirar o dinheiro, Xu Shen sorriu de repente: afinal, o pote de sal rachado que a mãe dizia ainda servir também era uma coisa que precisava de lugar na carroça. Ele pensara em buscar apenas uma pessoa; agora, porém, teria de trazer montanha abaixo também as coisas que ela alcançara com a mão durante tantos anos.
Ao entardecer, quando guardaram as serras da oficina, Wei Ce levou o pente à beira do poço para enxaguá-lo. Faltava uma pétala na flor do dorso, que agora parecia mais um passarinho de pé torto. Xu Shen passou um cordão de cânhamo por um pequeno furo e disse que ele não devia presentear alguém com um pente recém-untado de óleo. Wei Ce corou e disse que era para a irmã mais nova, não para outra pessoa. Repetiu isso duas vezes, e Xu Shen não perguntou mais nada.
Wei Ce perguntou se o quarto na cidade comportaria o grande armário da casa antiga. Xu Shen indicou a largura com as mãos; o rapaz o imitou até não conseguir abrir mais os braços e disse, rindo, que bastava cortar uma ponta. Xu Shen o repreendeu por só pensar em estragar as coisas, mas depois também riu. Ele próprio passara metade do dia pensando debaixo da janela e ainda nem havia perguntado à mãe se ela queria levar aquele armário ou apenas algum pequeno objeto guardado dentro dele.
Ao anoitecer, Ren Quan fechou a porta da oficina, e Xu Shen se deitou no catre curto do depósito de madeira. A bolsa de ferramentas ficou aos seus pés; a colcha acolchoada que a mãe usaria estava enrolada atrás da porta. Ele se virou, e a madeira do catre rangeu. De repente, quis muito saber se, quando chegasse em casa no dia seguinte, o cão amarelo ouviria primeiro seus passos ou sentiria antes, na colcha, o cheiro do arroz da cidade. O vento entrou pela fresta da porta e remexeu uma ponta de papel fino que saía da bolsa. Era uma sobra do papel usado junto à janela do quarto do sul. A neve ainda não havia caído, e ele já não queria que aquele papel pegasse umidade.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.
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