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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

O lugar vazio ao lado do tambor

酷无极 · Criação com IA · 11030 caracteres · Cerca de 11 minutos

Quando Gao Man entregou as doze moedas, A-Zhao contou com todo o cuidado. Ao olhar para aquelas mãos, Qin Xiaoman se lembrou de quando recebeu seu primeiro pagamento por uma apresentação. Também contara moeda por moeda. Depois achou a palma úmida, mas não quis enxugá-la na roupa, com medo de que os outros vissem. Agora só queria que, uma vez pago o dinheiro, Gao Man parasse de perguntar em nome de quem registrar cada um dos pequenos serviços, e que lhe sobrasse mais um instante para treinar a voz.

No pátio, A-Zhao e Gu Ming conversavam baixinho. Gu Ming fez um gesto com meia vara de barqueiro, e A-Zhao riu e se esquivou, como se fosse de outra coisa que ela estivesse desviando. Ao ouvir, Xiaoman primeiro pensou em como os jovens se alegravam com pouco. Depois se lembrou do forro que ainda faltava virar naquela tarde e sentiu um pouco de ressentimento. Sabia que A-Zhao já tinha feito o bastante naquele dia, mas mesmo assim teve vontade de mandar que saísse da corrente de ar. Antes de abrir a boca, já não sabia se temia que ela pegasse frio ou se o que a incomodava era A-Zhao ainda ter ânimo para rir.

À noite, ensaiaram a abertura de 《芦花渡》 (A travessia entre as flores de junco), em que a mãe tenta impedir a filha de descer do barco. Xiaoman avançou dois passos e estendeu a mão depressa demais. Lu Heniang nem tinha se virado e já estava presa pela manga. Gao Shoucheng bateu na mesa e mandou parar. Disse que aquela mãe parecia querer levar a moça para casa de verdade. Que deixasse um fôlego, pois a outra ainda tinha de cantar. Lu Heniang esfregou o pulso e concordou. Por um instante, quase acreditara que já não tinha por onde ir.

Os outros riram, e Xiaoman riu também, um pouco mais tarde. A letra daquela cena era difícil de cantar. Tinha de pôr a preocupação na voz sem fazer dela só choro. Antes, chegara a experimentar o papel principal, o da barqueira. Tinha os pés leves naquela época. Bastava um giro no gesto de tirar água para prender o olhar de quem estava à beira do palco. Agora, nos dias mais corridos da companhia, todo o seu tempo ia para os baús de figurino, e o aquecimento da voz ficava sempre para depois. Se lhe pedissem que voltasse a cantar o papel principal desde o começo, ela sabia que não tinha a segurança que Lu Heniang ganhara com os ensaios.

Saber e aceitar de bom grado eram duas coisas diferentes. Lu Heniang disse que queria mudar um pouco a última cena. A-Heng não precisava largar a vara de barqueira assim que recebesse a boa notícia. No fim das contas, todos aqueles passos de barqueira que ela tinha penado para aprender de ponta a ponta só serviam para trocar de roupa e vestir um traje de casamento. Gao Shoucheng respondeu que o pessoal de um banquete de casamento gostava mesmo era de ver a troca para roupas vistosas. Se no fim cada um ainda seguisse seu próprio caminho, quem daria uma gratificação de bom grado? Gu Ming se meteu na conversa e sugeriu acrescentar a dança de espada da volta de seu personagem. Depois da animação, podiam voltar a discutir a última cena.

“Você dá um jeito de enfiar um número em qualquer cena.” Lu Heniang olhou para ele.

“Se ficar bonito, eu ponho.”

“Primeiro treine bem aquela passagem sem mostrar a sola dos pés.”

Gu Ming ergueu a vara de impulsionar o barco como se fosse uma espada e fez questão de mostrar a sola do pé para todos, arrancando uma risada ainda maior. Xiaoman também queria dizer que havia mais de um jeito de cantar a última cena, mas, quando ele se meteu, perdeu o fio da fala. De repente, ficou irritada por ver que qualquer assunto sério naquele pátio podia parecer sem importância por um momento, bastava que ele resolvesse fazer graça. Mas sabia que o palco precisava desse talento e que nem todo mundo precisava fazer como ela, que quanto mais encargos tinha, menos abria a boca.

Mal terminou de discutir, Lu Heniang tirou da caixa um fio de contas novas e perguntou se Xiaoman podia costurá-lo na gola só para ver como ficava. As contas tinham certo peso. Xiaoman as ergueu e balançou um pouco, e Lu Heniang disse logo que era só para experimentar, se não ficasse bom, tiravam. Ela gostava daquele brilho, e até os cantos dos olhos se suavizavam quando o admirava. Xiaoman viu aquilo e lembrou que também já trabalhara duas noites a mais por causa de uma única conta vermelha. Não trouxe de volta a discussão de pouco antes sobre largar a vara do barco para vestir roupa vistosa.

Cai Heng, o novo percussionista, estava sentado junto à cortina e esperou que todos acabassem de rir para dar a primeira batida. O ritmo era diferente do que Lu Zheng usava. Xiaoman entrou cedo demais e, na pressa de se conter, deixou a nota final falhar um pouco. Cai Heng perguntou se queria tentar de novo. Por instinto, ela disse que antes aquele trecho não era assim. Assim que falou, viu a mão dele parar junto ao tambor e se lembrou de que aquele antes só existia em seus ouvidos. O homem que viera substituir Lu Zheng nunca o ouvira tocar e não lhe devia a velha marcação.

Ela pediu para recomeçar e primeiro ouviu a batida até o fim. A segunda vez saiu bem, mas aquele incômodo no peito continuava, sobretudo porque A-Sheng, ali do lado, também balançava a cabeça imitando o ritmo, sem se lembrar de como o pai costumava tocar. Por um lado, Xiaoman achava bom que o menino tivesse coisas novas. Por outro, se perguntava como ele podia não ter feito nem uma pergunta. Ao cantar o último verso, quase olhou para o filho e, à força, trouxe os olhos de volta ao ombro de Lu Heniang.

Depois do ensaio, Gao Shoucheng mandou que ela fosse ver o quarto dos fundos do salão sul. Duas arcas de roupas se espremiam contra a velha armação do tambor, e não havia onde pôr o tecido recém-chegado. A armação estava vazia no meio e a madeira continuava boa; desmontá-la para fazer duas prateleiras baixas seria perfeito. Ao ouvir, Xiaoman disse primeiro que aquilo não estava sobrando. Gao Shoucheng não insistiu; apenas perguntou quem secaria o tecido no dia seguinte, caso pegasse umidade naquela noite. Não falou com dureza, mas causou mais constrangimento do que uma cobrança.

Lu Zheng vendera seu velho tambor quando ainda estava doente. Houve quem dissesse que o preço era baixo, mas ele insistiu em receber à vista para que Xiaoman não acumulasse mais dívidas com o tratamento. O tambor se foi e o suporte ficou. A princípio, ele pensava em montar outro tambor, com pele nova, quando melhorasse. Depois que morreu, o suporte era mais leve que o tambor, mas quem arrumava o quarto sempre começava por contorná-lo. Com o tempo, aquele se tornou um espaço vazio sobre o qual ninguém queria ser o primeiro a perguntar.

Xiaoman limpou a travessa empoeirada do suporte e sentiu com os dedos uma marca entalhada, já rasa de tão gasta. Lu Zheng a fizera para indicar a tensão do couro na hora de amarrá-lo. Quando criança, A-Sheng cutucava a marca com a unha, dizendo que parecia um bichinho. Por causa daquela marquinha, ela não podia ocupar o espaço de toda a trupe. Tampouco podia deixar que desmontassem o suporte até ficar irreconhecível só porque no dia seguinte precisavam de espaço para pôr os tecidos. Dobrou e redobrou o pano de limpeza e ouviu A-Zhao perguntar, do lado de fora, qual lanterna era de uso comum.

A-Zhao veio buscar a velha lanterna de bambu. Disse que a levaria de volta de manhã e a embrulharia bem naquela noite. Xiaoman pediu que a trouxesse para perto da mesa e remendou um canto rachado do papel. A lanterna estava apagada, mas o fecho de bronze refletia a luz de outra lamparina de cerâmica no quarto e aparecia com mais nitidez do que se estivesse acesa. De repente, Xiaoman perguntou quanto durara a doença de He Huaizhou no fim. A-Zhao respondeu que ele piorara depressa no último mês do ano lunar. Antes disso, vivia dizendo que era só o frio e que ficaria bem depois de uns dias de descanso.

Xiaoman assentiu, sem dizer que aquilo se parecia muito com o que acontecera a Lu Zheng. No fim de uma doença, as pessoas sempre diziam umas poucas coisas parecidas, e quem ficava continuava sem saber muito bem o que fazer. Quis perguntar se Azhao ia mesmo deixar de conduzir o barco dali em diante, mas sentiu que a ausência do mestre He não lhe dava o direito de prender a filha dele à embarcação. Só perguntou se ela voltaria mesmo que o trabalho de costura daqueles dias saísse aquém do que imaginara.

A Zhao não respondeu de imediato. Passou a mão pelo fecho da caixa e disse que viria, mas não tornaria a costurar de antemão as partes que ninguém lhe explicara. Xiaoman ouviu um resto de inconformismo naquela resposta e não conseguiu evitar um sorriso. Disse que ela também não precisava se tornar alguém que só se mexesse depois de perguntar a cada passo; quando estivesse ocupada, talvez não conseguisse explicar todos os detalhes. Se algo não estivesse claro, parasse um pouco e perguntasse primeiro quem iria vestir a roupa, em vez de olhar apenas para os próprios pontos.

Só depois de falar percebeu que mais uma vez estava ensinando alguém. A-Zhao pegou a lanterna e perguntou baixinho se era para levar algum recado na volta. Xiaoman olhou para ela e ouviu Cai Heng guardar o tambor no pátio, com A-Sheng atrás dele perguntando por que não podia bater no suporte vazio. De repente, já não queria mandar aquela moça de volta com a lanterna sem sequer lhe dar uma palavra concreta para levar.

“Quando terminarmos esta temporada”, disse ela, “quero levar A-Sheng para atravessar o rio uma vez.”

A-Zhao ergueu a cabeça. Seus olhos brilharam por um instante, mas ela logo se conteve. Perguntou quando, e Xiaoman disse que ainda não tinha decidido. A temporada em Lanting estava prevista para ir até a primeira dezena do terceiro mês. Se mudassem as apresentações depois, ela teria primeiro de acertar a entrega dos trabalhos de costura que estavam em suas mãos. Tinha dito que queria ir. Certeza ainda não havia. A-Zhao assentiu, sem insistir em saber se seria em Shangsi nem dizer que Vovó Qin com certeza ficaria feliz ao ouvir. Xiaoman acabou relaxando um pouco.

À noite, ela lavou os pés do filho. Dos sapatos novos, só um estava pronto, embora a sola do outro já estivesse prensada. A Sheng perguntou se no dia seguinte podia andar no barquinho de dentro da lanterna. Ao saber que ela queria levá-lo de volta a Liuwan, logo quis saber se a avó tinha barco, se tinha quintal e se ele podia levar o cachorrinho de barro. Xiaoman respondeu a algumas perguntas e então pediu que ele parasse de perguntar tanta coisa por enquanto, pois ela ainda nem sabia em que dia iriam. Quando o menino fez bico, ela reconheceu de imediato a impaciência que sua própria mãe teria sentido.

Ela não ficou subitamente mais meiga por causa disso. Continuou segurando o tornozelo do filho para que ele não chutasse água na cama. Só depois de secar os pés dele disse que lá havia uma loja cheia de lanternas e que ele não podia usá-las para brincar de barquinho giratório. A-Sheng disse que já não era pequeno e perguntou por que nunca tinham ido lá antes. Xiaoman pôs o outro sapato junto à cama e respondeu que havia caminhos que nem os adultos tinham conseguido percorrer direito. O menino não entendeu. Baixou a cabeça e se concentrou em comparar qual dos dois sapatos era mais largo.

Depois que A-Zhao saiu, Gao Man veio buscar as pecinhas de madeira para o tecido das golas. Viu que o suporte do tambor ainda estava ali e não tornou a perguntar se iam desmontá-lo. Ela mesma achou duas varas de bambu e as apoiou sobre o baú. Na saída, porém, teve de passar de lado pelo batente, e a peça de tecido em seu ombro ficou com uma faixa de poeira. Ao ver aquilo, Xiaoman ficou ainda mais irritada. Esperou Gao Man sair para apanhar uma ripinha que sobrara da plaina. Queria calçar o suporte velho para deixá-lo mais alto, de modo que ao menos os pés de madeira parassem de raspar no chão.

Enquanto ela segurava a armação, A Sheng espiou da beira da cama e perguntou se ia guardar o tambor para ele. Xiao Man ia dizer que sim, mas, ao abrir a boca, disse apenas que o deixariam ali por enquanto. O menino disse então que também queria pôr a flauta de bambu em cima; a armação era tão grande que cabiam muitas lado a lado. Olhando para ela, Xiao Man de repente sentiu que, aos olhos do filho, não era tão estreita quanto ela imaginava.

Alguém cozinhava macarrão na casa ao lado, e o cheiro de óleo de cebolinha passou pelas frestas da parede. Só então ela se lembrou de que à noite comera só meio bolinho de feijão. Seu estômago estava tão vazio que já sentia frio por dentro. Quando Lu Zheng era vivo, também vivia esquecendo de comer. Ao vê-la tão ocupada, ralhava: se aquele baú de figurinos fosse mesmo comer gente, que comesse primeiro alguém que tivesse carne nos ossos. Ela lembrou da cara dele e soltou um risinho, mas teve medo de o menino ouvir e perguntar por quê. Virou-se para pegar uma tigela e foi comprar uma porção de macarrão quente na casa ao lado.

O vendedor de macarrão perguntou se ela queria cebolinha. Ela disse que sim, fez uma pausa e pediu que pusesse pouca. A-Sheng puxou a barra de sua roupa por trás. Quando ela se virou, o menino disse que também queria umas garfadas, mas sem cebolinha. Xiaoman começou a catar a cebolinha com os pauzinhos. No meio, lembrou-se de que já nem sabia se a panela de Liuwan ainda estava lá. Dividiu o macarrão numa tigela pequena, entregou primeiro a parte do filho e então se sentou ao lado do suporte vazio do tambor. Por fim, comeu toda a meia tigela que sobrara.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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