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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

Uma porta aberta no balcão das lanternas

酷无极 · Criação com IA · 10972 caracteres · Cerca de 11 minutos

A primeira lanterna quadrada feita por Aqiao mal chegou ao balcão e a senhora Qin já a virou de lado. Achava que o nó do bambu chamava atenção demais naquela face e ficaria melhor escondido atrás. Aqiao desvirou a lanterna e disse que o freguês tinha encomendado justamente o modelo que deixava o nó à vista. Já tinham até mostrado a ele o desenho ao lado. A senhora Qin continuou segurando a alça, com vontade de perguntar o que o freguês entendia daquilo, quando alguém do lado de fora perguntou se aquela era a lanterna com calombo que tinha pedido.

O freguês ergueu a lanterna à luz do sol, elogiou-a mais de uma vez, pagou tudo e foi embora. Aqiao ficou calada e só limpou o espaço vazio no balcão. A vovó Qin separou daquele punhadinho de moedas o pagamento dela, mais devagar que de costume. Desde que voltara, em julho, tinha combinado que Aqiao viria ajudar meio dia em dias alternados, mas ainda fazia questão de conferir tudo pessoalmente. Quando Aqiao não vinha, ela pensava como era bom ter ajuda na loja. Quando vinha, a velha logo desconfiava que aquelas mãos não seguiriam o jeito que ela tinha ensinado.

A velha Qin também já havia sofrido por não deixar os outros decidir. No fim de julho, desmontara mais uma vez uma lanterna que A-Qiao consertara pelo novo preço e, no dia seguinte, levara meio dia para encontrar o fecho antigo do cliente. Depois disso, A-Qiao dissera claramente: se só pudesse tomar conta da loja, receberia apenas por isso e não ficaria levando bronca de clientes com pressa no lugar dela. Agora, ao ouvir falar da lanterna de nós, a velha Qin sentiu o rosto esquentar. Só lhe restou perguntar quantas daquelas lanternas quadradas era possível fazer numa noite, querendo de verdade ouvir o método dela.

A-Qiao disse que não dava para fazer depressa. As dobras dos quatro cantos levavam tempo, e, como poucos clientes queriam aquele modelo por enquanto, era melhor não preparar dezenas de uma vez. Vovó Qin achava que os jovens sempre tinham impaciência com a demora dos modelos antigos. Para sua surpresa, foi A-Qiao quem primeiro conteve a produção. Ela tinha outros fregueses para seus trabalhos em papel e não podia passar o dia inteiro na loja de lanternas. Vovó Qin perguntou se estaria disposta a vir todos os dias e logo acrescentou, “Mais adiante, alguém vai ter de tocar esta loja.” A-Qiao ergueu os olhos e, com todo o cuidado, deixou aquele «mais adiante» sem resposta.

Ela tinha vinte e três anos, queria abrir a própria banca de flores de papel, ainda nem tinha decidido se ia se casar e não queria que desde já lhe reservassem o lugar de sucessora da família Qin. Quando a velha Qin a ouviu até o fim, já tinha curvado demais a tira de bambu que segurava. Ao soltá-la, levou uma vergastada no dorso do dedo. Ela começava falando de tantas vantagens para o futuro, mas aos ouvidos da outra pessoa era como se já hoje quisesse tomá-la por inteiro. Como é que antes nunca conseguira ouvir isso?

À tarde, tia Xu veio devolver o dinheiro do óleo e trouxe um peixe bem fino. Brincou que agora, com uma aprendiz, a vovó Qin até podia descansar um pouco. Aqiao estava saindo com um embrulho de papel e logo disse que só vinha fazer alguns serviços, que não era aprendiz. Tia Xu soltou um “ah” e deixou o assunto quieto. Só quando a cortina da porta baixou comentou que os jovens de hoje tinham o gênio forte. A vovó Qin também quis dizer alguma coisa, mas acabou respondendo apenas que a moça já conhecia o ofício havia tempo e nunca a tinha tomado por mestra. Não podia aceitar de antemão, em nome dela, todas as vantagens que isso supostamente lhe traria.

O peixe era tão fino que, depois de raspar as escamas, quase não sobrava carne. A tia Xu disse que aquele era barato, só para ela provar algo fresco, não para oferecer um banquete a um grupo inteiro. A avó Qin pousou o peixe e de repente se lembrou da sopa naquela noite em Lanting: quando a filha a servira, também fora apenas uma tigela, sem outros doze pratos para provar que era bem-vinda. Ainda se ressentia de Xiaoman não querer que ficasse mais tempo, mas também se lembrava de que, quando dissera que seria fácil se hospedar ali, nem olhara como arrumariam as duas camas do quarto.

Ao anoitecer, ela foi à casa da família He dar uma olhada na porta. A-Zhao pedira à família Ding que abrisse as janelas de tempos em tempos. Luo Yan saía do pátio com os cobertores já secos nos braços. A velha Qin ficou junto à porta e viu a alta lanterna de bambu no suporte de madeira. Na armação estava o papel novo que ela remendara no terceiro mês, mas a lanterna já não pertencia a uma janela que alguém iluminasse todas as noites. Perguntou quando A-Zhao voltaria. Luo Yan disse que, na carta, ela falava em conferir primeiro as tábuas no nono mês e discutir a renovação quando o prazo chegasse; não havia pressa de resolver tudo numa só viagem.

Luo Yan contou que Ding Sui tinha aceitado algumas encomendas novas de pingentes. Todo dia reclamava que a mãe escolhia combinações de cores antiquadas e, assim que acabava de reclamar, elogiava a rapidez das mãos dela. Vovó Qin riu ao ouvir e, de volta à loja, tirou de dentro do balcão dois cabos de lanternas velhas que ninguém tinha vindo buscar, abrindo espaço para as flores de papel que A-Qiao andava experimentando fazer. Depois ficou pensando se não tinha cedido espaço demais, com medo de que, no dia seguinte, A-Qiao quisesse transformar até todas as lanternas redondas em quadradas. Guardou à parte o molde redondo que mais usava, sem tratar de uma vez toda a sua velha técnica como um empecilho.

No dia seguinte, ela combinou com A-Qiao que dali em diante viria meio período por dia, por cento e oitenta wen ao mês. As flores de papel seriam pagas à parte, por unidade, e, se uma encomenda urgente a fizesse ficar até mais tarde, acertariam o valor na hora. Nos consertos das lanternas comuns, A-Qiao poderia decidir sozinha quais mudanças pedidas pelo freguês fazer. Para material caro ou lotes inteiros de lanternas novas, consultaria Vovó Qin. Ao ouvir tudo, A-Qiao perguntou primeiro se, quando um freguês já tivesse uma dívida antiga, poderia dizer que naquele dia não vendiam fiado. Vovó Qin se lembrou de alguns fregueses de muitos anos e teve de fazer força para falar. Ainda assim, disse que, acumuladas duas compras fiadas, primeiro se cobrava o que já era devido. A regra valia até para os conhecidos dela.

Acertado o pagamento, a senhora Qin adiantou meio mês pelo novo valor. Aqiao guardou o dinheiro, comprou primeiro papel e depois foi levar um pacotinho de sal à família. Ao vê-la separar tudo com clareza, a senhora Qin percebeu que aqueles cento e oitenta wen também abriam caminho para a vida de outra pessoa. Não podia continuar dizendo que era só uma ajudinha porque ela era jovem e morava perto.

Ela entregou uma chave do balcão. A-Qiao a amarrou à cintura com um cordão. Isso não fez com que de repente trabalhasse mais como uma filha nem que chamasse Vovó Qin de mãe. Na hora de se despedir, só avisou que chegaria um pouco mais tarde na manhã seguinte, porque precisava primeiro entregar papel a outro freguês. Vovó Qin sentiu um pequeno vazio e logo pensou que, se alguém viesse todos os dias preenchê-lo para ela, talvez nem com todo aquele esforço conseguisse. Prendeu a página do livro de contas sob um peso e, pela primeira vez, pediu a A-Qiao que cuidasse da loja por meio dia, enquanto ia se sentar um pouco à beira do rio.

Passava pelo rio um barco cheio de cestos de feijão. O jovem barqueiro discutia por cima da água com alguém na margem, mas, depois de umas poucas palavras, os dois já riam. A vovó Qin terminou de comer um bolinho quente e, com as mãos vazias, a princípio ficou muito inquieta. Várias vezes teve vontade de voltar para ver se o papel das lanternas não tinha sido colado torto. Mais tarde, viu ao longe um carpinteiro consertando uma janela. Ficou um tempo observando e comentou que a travessa devia ser mais estreita. Os outros deram pouca atenção e serraram do mesmo jeito. Para sua surpresa, ela não ficou aborrecida com isso o dia inteiro.

De volta a casa, ela pegou papel para escrever a Xiaoman. Nas duas primeiras linhas só falou das novidades da loja. Ao chegar a Aqiao, escreveu primeiro que a moça era obediente, parou um instante, riscou e pôs que trabalhava com capricho e fazia belas lanternas quadradas. Se Aqiao estava disposta a trabalhar ali, não cabia julgá-la primeiro pela obediência. A letra era desajeitada e o trecho riscado parecia uma bolinha de cinzas. Pensou em trocar de folha, mas lembrou que Asheng também deixava no próprio papel os caracteres que errava, e continuou a escrever.

Perguntou se, quando tivesse um tempo livre no nono mês, Xiaoman gostaria de vir passar duas noites. A filha escolheria os dias que lhe servissem, e ela poderia rearranjar o trabalho da loja. Não escreveu que já estava velha e talvez não houvesse muitas outras ocasiões, nem que, se não viesse, melhor deixar para lá. Conhecia tão bem aquelas frases que, antes mesmo de pegar o pincel, elas já se juntavam em sua cabeça. Depois de terminar, acrescentou: se A-Sheng tiver aula, não precisa trazê-lo. Se ele quiser vir, vou deixar uma mesa para ele. Os livros dele não vão ficar do lado de fora da loja.

A carta não teve resposta imediata. Nos dois primeiros dias, ela perguntava a quem chegava de barco. No terceiro, perguntou a Luo Yan, que disse que ir e voltar de lá também levava tempo e que as cartas de A-Zhao nunca vinham tão depressa. Meio sem graça, ela voltou à loja e afastou meio passo o banquinho de onde via o rio, para não se pôr a contar barcos assim que sentasse. O trabalho da loja não parara só porque a carta tinha partido. Um freguês antigo, que já levara duas vezes fiado, veio mesmo tentar pedir mais uma concessão.

A-Qiao já tinha falado, então o cliente se virou para Vovó Qin e disse que se conheciam havia tantos anos. Será que agora nem uma lanterna ela lhe deixava levar antes de pagar? Com o registro das dívidas entre os dedos, Vovó Qin quase assentiu para parecer mais generosa que a ajudante. A-Qiao ficou calada ao lado, de rosto tenso. Por fim, Vovó Qin pediu que ele acertasse primeiro as duas compras anteriores. A voz saiu mais dura que de costume, em parte por firmeza, em parte porque ela não estava acostumada a admitir diante de um conhecido que a regra tinha sido decisão dela.

O freguês saiu pouco satisfeito. Incomodada, a senhora Qin virou-se para Aqiao e perguntou se não tinha falado com aspereza demais. Assim que as palavras saíram, percebeu que de novo queria pôr aquele mal-estar na conta da moça. Aqiao disse que, se tivessem deixado o homem levar a lanterna, dali em diante ela não tocaria mais nas dívidas antigas. A senhora Qin ficou um momento em silêncio, anotou num papel a quantia recebida naquele dia e não foi procurar um errinho na colagem do papel para salvar as aparências. Só ao anoitecer admitiu que ficara meio sem jeito na hora, embora Aqiao tivesse falado certo.

Só sete dias depois o barco de Zheng Qin trouxe a resposta de Xiaoman. Ela propunha fazer a travessia a partir de Tongxu no dia doze do nono mês, partir de volta no dia catorze e chegar a Lanting no dia quinze, a tempo das apresentações seguintes da temporada de outono. A-Sheng queria ir e já tinha combinado com o professor como repor as duas aulas que perderia. Não era preciso preparar muita coisa. Se houvesse muito serviço na loja, ela também podia ajudar com uma refeição. Vovó Qin leu aquelas linhas duas vezes. O primeiro pensamento ainda foi que duas noites eram pouco. Só depois viu a flauta comprida que o menino desenhara na margem.

Ela mandou dizer que estava ciente. Não mencionou a roupa de cama já preparada para a terceira noite, nem a enrolou de imediato para jogá-la de volta no armário. Quando se espera muito por algo, as mãos sempre fazem um pouco mais do que a boca diz. Bastava não usar aquela coberta para cobrar de outra pessoa mais um dia. Aqiao perguntou se no dia doze devia vir o dia inteiro. Ela disse que não precisava, de manhã seria como de costume, o trabalho da tarde ficaria dividido de antemão e, se aparecesse algum conserto urgente, era só chamá-la pela porta dos fundos.

Mais tarde, tia Xu brincou que, depois de tanto tempo, a filha enfim vinha e nem assim ela fechava a loja. A senhora Qin disse que, enquanto houvesse trabalho, trabalharia. Todo mundo precisava comer. Só depois de falar lembrou que, dezesseis anos antes, usara a mesma frase para mandar Xiaoman desistir do teatro, como se só contasse como trabalho colar papel de lanterna no balcão dela. Dessa vez, não foi atrás de tia Xu para se explicar. À noite, limpou a mesa, empurrou para o fundo a tigela de cola, que era fácil de virar, e abriu um espaço onde o menino pudesse pôr papel e pincel.

Na janela estava pendurada a lanterna redonda que ela colara naquele ano. Bastava acendê-la um pouco para testar e já podia guardá-la. A velha Qin baixou o pavio e ouviu os passos na rua rarearem aos poucos, sem se levantar a cada remada que soava na água. Amanhã ainda precisava fazer duas lanternas quadradas. Os quatro cantos eram difíceis de dobrar, e ela tinha prometido a A-Qiao que primeiro tentaria acompanhando o jeito dela. Quando a filha viesse, haveria muita coisa de outros tempos dentro de casa, e também devia haver umas poucas novidades que ela ainda não conhecia.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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