Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga
Aquela janela da loja de lanternas
酷无极 · Criação com IA · 10706 caracteres · Cerca de 11 minutos
A porta da loja de lanternas da família Qin era mais estreita do que Azhao lembrava. Antes, ela sempre vinha atrás do pai e via as lanternas balançando acima dos ombros dele. Dessa vez, chegando sozinha com o livro de contas, percebeu que à direita da porta havia três armações de lanternas ainda sem papel e, à esquerda, um banco alto. Se não entrasse de lado, a ponta da saia se prenderia nas tiras de bambu.
Ninguém respondeu atrás do balcão. Dos fundos vinha um ruído leve de raspagem. A vovó Qin aparava a ponta de uma tira de bambu com uma faquinha, com um pano velho sobre as pernas e grude seco entre os dedos. Ao ouvir a voz de Azhao, primeiro pousou a faca com cuidado e só então saiu, apoiando-se no balcão. Azhao quis afastar as coisas junto à porta para ajudá-la, mas a vovó Qin pediu que não mexesse. As armações estavam em ordem de tamanho, e, se as misturasse, à tarde teria de procurar tudo outra vez.
A Zhao empurrou o livro-caixa para diante dela. Não falou em cobrar dívida, disse só que, na última página, seu pai tinha deixado uma lamparina sem anotar para onde fora. A velha Qin não pegou o livro de imediato. Primeiro passou a mão na capa e perguntou se era aquele que ele ainda deixava junto ao travesseiro quando adoeceu no inverno. A Zhao assentiu. Vendo que ela continuava de cabeça baixa, abriu na página da anotação para que não precisasse procurar desde o começo.
A velha Qin terminou de ler e disse: “Ele me emprestou.”
Ela falou muito baixo, como se já tivesse ensaiado a frase, mas, quando enfim alguém veio perguntar, mal tivesse força para pronunciá-la. A-Zhao olhou em volta por instinto. Mais de dez lanternas de tamanhos diferentes pendiam da viga, algumas com cúpulas lisas recém-coladas, outras pintadas com flores claras. Perto da porta ainda havia uma pilha de papel por cortar. Como alguém que fazia lanternas podia pedir uma emprestada à travessia ano após ano? Ela não chegou a perguntar, mas não conseguiu disfarçar o olhar a tempo.
A velha Qin tirou debaixo do balcão uma lanterna velha de bambu. O bambu da alça era bem mais escuro que o das armações novas. O fecho de latão estava bem polido, e uma rachadura na borda da cúpula fora remendada com tiras finas de bambu. Vista contra a luz, a parte remendada parecia um nó mais denso. A-Zhao reconheceu o modelo alto que o pai usara. Mais tarde, ele passara a pendurar uma lanterna mais leve no barco, e a antiga pouco se via. Ela estendeu a mão para pegá-la, mas a velha Qin ainda segurava a alça. Disse primeiro que, no ano anterior, tinha pensado em consertar a cúpula e devolvê-la, mas o pai de A-Zhao dissera que tinha outra e que não precisava de pressa. E assim a devolução foi ficando para depois.
“Vou levar de volta para o barco”, disse A-Zhao. Achou que soava como se estivesse apressando a velha a largar a alça e acrescentou depressa, “Não tenho pressa de usar.”
Só então a velha Qin pôs a lanterna sobre o balcão, sem entregá-la nas mãos de A-Zhao. Disse que a cúpula era alta e que, posta junto à janela que dava para o rio, dava para vê-la da outra margem. As lanternas da loja também iluminavam bem, mas ela se acostumara àquela na época. Quanto mais perto da primavera, mais sentia que aquela ainda era a mais adequada. Virou o avental e bateu as mãos para tirar os flocos secos de cola. Uma poeira fina caiu sobre as mangas, e ela nem a sacudiu.
Azhao sabia que os Qin tinham tido uma filha chamada Xiaoman, como o período do calendário solar chinês. Na infância ouvira falar dela só algumas vezes. Uns diziam que Xiaoman fora embora para aprender teatro, outros que fugira com alguém. As versões variavam, mas no fim todos baixavam a voz, como se criança não pudesse perguntar mais. Aos vinte e dois anos, ouvir aquelas palavras ainda lhe trazia à memória a mesa de jantar que de repente emudecia. Ela já não lembrava, porém, de ninguém que tivesse visto a moça de verdade.
“No ano em que ela foi embora, você só tinha essa altura.” Vovó Qin levou a mão à altura do canto do balcão e logo a abaixou. “Na minha lembrança, ela nunca foi muito mais velha que você.”
Na verdade, eram doze anos de diferença. A-Zhao fez a conta de cabeça e não corrigiu. Vovó Qin contou que, dezesseis anos antes, Xiaoman quisera partir com uma companhia de teatro itinerante de barco. Ela já tinha escolhido uma família para a filha. O rapaz tocava um pequeno comércio e tinha uma parte nas terras de cultivo, de modo que ela ao menos não precisaria viver à deriva num barco. O marido acabara de morrer, e a loja ainda devia pelo papel. Mas, quando a filha abriu a boca, só falou que queria cantar. A mãe se enfureceu, como se a filha também tivesse feito pouco dos dias que lhe restavam.
“Eu disse que, se ela saísse por aquela porta, não considerasse mais isto aqui a casa dela.” Vovó Qin apertou o fecho da lanterna com o dedo. “Naquele tempo, achei que, se eu dissesse isso, ela ia ficar com medo.”
A-Zhao não respondeu por Xiaoman, nem sabia se devia sentir medo por ela. Naquele momento, uma mulher com uma carga ao ombro passava pela porta. Ao ver as duas de pé junto ao balcão, perguntou em voz alta a que horas podia buscar a cúpula nova. Vovó Qin mudou de tom na hora e disse que seria à tarde, porque o papel ainda não tinha secado. A mulher não acreditou. Enfiou meio corpo para dentro e só foi embora depois de ver a cúpula mesmo posta para secar. Assim que saiu, aquela conversa antiga pareceu apertar de novo o espaço da loja. A-Zhao quis procurar um banco para sentar, mas temeu que, se sentasse, parecesse disposta a ouvir tudo até o fim.
A senhora Qin arrastou para Azhao o banco alto que ficava perto da porta e ela própria continuou em pé. Contou que, depois que Xiaoman foi embora, desmanchara a roupa que a filha deixara em casa e a transformara na cortina do quarto dos fundos. Só no fim dos cortes percebeu que as mangas eram curtas e que não davam para compor um pano inteiro. Azhao seguiu seu olhar. Num canto da porta de dentro, duas faixas de outras cores emendavam-se ao tecido azul, tão envelhecido que já não dava para saber se um dia fora uma roupa. Ela não perguntou se doera desmanchá-la, e a senhora Qin também não continuou.
Foi nessa hora que tia Xu chegou, trazendo um jarro de óleo já meio vazio e querendo levar óleo de lamparina fiado por três dias. Ao ver A-Zhao, perguntou primeiro se o barco tinha sido vendido. A-Zhao fez que não com a cabeça. Tia Xu disse então que ainda contava com ela para atravessar o rio. Se o barco fosse vendido, tinha medo de que o novo barqueiro não quisesse levar seu cesto de peixe. A velha Qin pegou o jarro para pesar o óleo e disse que ela ainda não acertara a conta da última vez, que parasse de esticar três dias para duas semanas. Tia Xu respondeu que, se bastasse dizer aos peixes que crescessem em três dias para eles obedecerem, ela bem que pagaria mais cedo.
A-Zhao esboçou um sorriso e ajudou a velha Qin a firmar o gargalo da vasilha, por onde o óleo desceu num fio fino. Para salvar as aparências, tia Xu pôs no balcão metade do que devia da última vez. Depois olhou de novo para a velha lanterna e disse que, nas mãos de A-Zhao, até parecia leve. O pai dela vivia com medo de que houvesse pó na lanterna e andava todo sem jeito com ela debaixo do braço. Dito isso, saiu com a vasilha e, voltando a cabeça, pediu à velha Qin que no dia seguinte não ficasse acordada até tão tarde. Do outro lado da parede, mesmo picando peixe, dava para ouvir que ela estava tossindo de novo.
Quando a loja ficou quieta, A-Zhao soube que o pai tinha pegado emprestada e devolvido aquela lanterna mais de uma vez, além da ocasião anotada no livro. Vovó Qin limpou o óleo que restara na borda da vasilha e disse que todo ano, por volta da festa de Shangsi, passava mais gente pelo rio. Se Xiaoman ainda andasse com a companhia de barco, talvez um dia aparecesse por ali. Nunca pedira a He Huaizhou que largasse o trabalho para procurá-la. Só pedira que ficasse atento e, se desse mesmo com ela, dissesse que voltasse para comer em casa, sem tocar no passado.
“Se não falar do passado, ela pode voltar?” perguntou A-Zhao.
Assim que a pergunta saiu, as duas ficaram imóveis. A-Zhao não pretendia perguntar de modo tão direto. Só se lembrara de que o pai, quando estava doente, também gostava de dizer que conversariam quando ele melhorasse, como se, enquanto não conversassem, ainda tivessem dias sem fim pela frente. A velha Qin baixou a cabeça e apertou o avental entre os dedos. Depois de um bom tempo, respondeu que não sabia. Não chamou a filha de insensível nem falou de quanto sofrera naqueles anos. Só tocou mais uma vez no fecho de cobre e perguntou se A-Zhao pretendia ir para a cidade.
“Assim que vender o barco, eu vou”, disse A-Zhao. Tinha acabado de recusar uma oferta pelo barco dois dias antes, mas ainda dizia aquilo como se a data já estivesse marcada.
A velha Qin disse que já tinha ouvido falar. Tia Xu comentara várias vezes na boca da viela que a moça dos He costurava com delicadeza. A-Zhao ficou sem graça sem saber bem por quê e logo disse que só fazia ajustes. A velha Qin pegou a beira da manga que ela remendara na noite anterior e perguntou se tinha sido ela mesma. A-Zhao assentiu. A velha disse que a linha estava bem escondida por dentro, diferente dos pontos dela: bastava sujá-los de cola para ficarem tão grosseiros que nem a sombra da lanterna os escondia.
A-Zhao viu um calo duro num dos dedos da velha Qin e de repente perguntou se Xiaoman ainda estava no sul. A velha disse que, no mês anterior, um freguês que viera comprar uma lanterna contara ter ouvido cantar, em Lanting, uma mulher de sobrenome Qin, que também cuidava dos baús de figurino. Ela não se atrevera a concluir que era a filha só pelo sobrenome, mas não resistira a perguntar a idade da mulher. O freguês disse que ela parecia ter uns trinta anos, e a velha não perguntou mais nada. Tinha medo de que fosse e medo de que não fosse. Quando chegou a esse ponto, já tinha até se confundido uma vez com o preço do papel da loja.
A-Zhao disse que Lanting ficava a dois dias pelo rio, que não era longe. A velha Qin se apressou em concordar, sim, não era longe. Mas, depois de dizer isso, as duas ficaram olhando para a lanterna, e nenhuma foi até a porta. Só então A-Zhao entendeu que, para ela, “não é longe” eram dois dias de viagem que podia pagar do próprio bolso. Na boca da velha, era como se primeiro fosse preciso achar um jeito de voltar a falar do que dissera dezesseis anos antes sem ferir ninguém.
Ela não prometeu ir procurá-la. A vovó Qin também não chegou a pedir isso. Só perguntou se, ao chegar a Lanting, caso de fato ficasse no caminho, ela podia perguntar por Qin Xiaoman. Azhao disse que podia perguntar, mas só a veria se ela quisesse. A velha assentiu e depois, como se não tivesse conseguido se conter, perguntou se Xiaoman reconheceria a lanterna caso Azhao a levasse consigo.
“Eu vim buscar a lanterna”, disse Azhao devagar. “Não posso usá-la para fazer alguém voltar.”
Vovó Qin ficou olhando para ela por um instante e enfim tirou a mão da alça. Puxou de dentro do balcão um programa velho, sacudiu os restos de cola do verso e embrulhou a cúpula alta. Num canto havia letras impressas num vermelho desbotado. A-Zhao achou que as conhecia, mas, antes que pudesse olhar de perto, Vovó Qin já tinha dobrado o outro lado por cima. Ela deixou o papel fechado. Só quando a velha lhe entregou a lanterna viu que havia um pedacinho de pano por baixo do embrulho, para que o atrito não voltasse a rachar o bambu velho.
Ela já ia sair quando entrou outro freguês, trazendo uma lanterninha que acabara de receber o papel. Ele dizia que o papel era fino e queria trocá-lo por um mais grosso. A velha Qin deu uns toques de leve na armação para mostrar por onde passava a luz e em que pontos a estrutura fazia força. Se cobrisse tudo com papel grosso, a lanterna daria só metade da luz. O homem não deu ouvidos e estendeu a mão para apertar o papel. A velha Qin tomou a lanterna de volta na hora, sem o menor traço da hesitação de antes.
“Se quiser testar, teste a armação. Não aperte o papel. Se estragar este lado, vou cobrar para colar outro.”
Ali ao lado, Azhao ouviu a vovó Qin discriminar com clareza o preço do papel e o da mão de obra, e de repente respirou mais aliviada. Aquela velha sabia deter uma mão que avançava sobre uma folha fina de papel e manter bem firme no balcão aquilo que julgava seu. A loja de lanternas era mais que uma janela à espera de alguém. No fim, o freguês ficou com a mesma lanterna. A vovó Qin embrulhou-a, cobrou o preço original e, ao acompanhá-lo até a porta, ainda apontou para a armação de bambu em que ele ia esbarrar.
Assim que saiu, o vento fez o papel da lanterna estalar. A-Zhao a carregava com uma mão e segurava o canto do papel com a outra. Ao chegar, achava que bastava encontrar quem estava com a lanterna para acertar a conta. Agora já a tinha nas mãos, mas ainda não podia riscar o lançamento. Parou um pouco na entrada da viela. Em vez de voltar logo ao embarcadouro, foi primeiro a um lugar seco, afrouxou um pouco o embrulho e tentou descobrir que nome era aquele que lhe parecia conhecido.
· Fim do capítulo ·
Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.
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