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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

A placa de cobre e a travessia vazia

酷无极 · Criação com IA · 10814 caracteres · Cerca de 11 minutos

Mal amanheceu no sétimo dia do segundo mês lunar, Ding Quan chegou com a plaina. Na véspera à noite, A-Zhao tinha secado a tábua úmida da popa, mas naquela manhã havia de novo um fio de água, cortando na diagonal o remendo velho do tamanho da palma da mão. Ding Quan largou a plaina, entrou primeiro no barco e fez pressão com o pé de um lado e do outro, pedindo que ela visse se a junção se abria junto.

A-Zhao não queria que soubessem que na noite anterior voltara a apalpar a tábua. Respondeu um pouco depressa demais: “É só esse pouquinho.”

Ding Quan também não a desmentiu. Só disse que aquele pouquinho era o que dava para ver de fora. Para saber como estava a madeira por baixo, teriam de retirar a camada velha de massa de vedação. A-Zhao foi buscar a espátula de ferro, mas ele pediu que primeiro fizesse a travessia da manhã. O barco podia passar o dia na água sem problema, e não valia deixar os passageiros daquele dia esperando para examinar um fio de água. Dito isso, sentou-se debaixo do salgueiro com o remo no colo e levou uma apara enrolada de madeira ao nariz, como se tivesse vindo até ali só por causa do remo novo.

Na primeira travessia havia só dois passageiros. Tao Laoliu, o vendedor de verduras, pôs a carga na proa como de costume, sentou-se no meio da embarcação e ainda quis abrir espaço para a mulher que veio depois. Antes Azhao nunca dera importância àquilo, mas naquele dia viu de imediato que a carga prendia a corda de amarração e pediu que ele a puxasse um chi para trás. Tao Laoliu brincou que, depois de virar dona do barco, ela ficara mais mandona. O pai dela nunca nem perguntava onde ele punha os cestos.

“É que ele lembrava que você mesmo mudaria o cesto de lugar”, disse A-Zhao.

Tao Laoliu baixou os olhos e puxou depressa a carga para o lado. Um talo de alho verde escapou pelo fundo. A mulher o apanhou e, com ele na mão, ficou com pena de devolvê-lo ao cesto enlameado. Quando chegaram ao meio do rio, os dois ainda discutiam se aquele talo contava como brinde. A-Zhao os ouvia enquanto remava e de repente lembrou que o pai, quando estava vivo, também ria sempre dessas coisas pequenas. O barco andava mais quieto, mas quem se sentava ali ainda tinha vida para além das lembranças dela.

Na hora de pagar, já na margem, Tao Laoliu ficou um tempão tateando dentro da manga. Disse que esquecera o cordão de moedas e que pagaria tudo na volta. A-Zhao recolheu a mão e ia anotar quando a mulher atrás dele estendeu na palma as cinco moedas dele também. Disse que, quando comprava verdura dele, também vivia devendo duas moedas; naquele dia dava para inverter a dívida. Tao Laoliu riu de novo, dizendo que ela fazia conta até demais. A mulher respondeu que, se não fizesse, como ia saber quando ele tinha esquecido as duas moedas? A-Zhao guardou o dinheiro no tubo de bambu, sem se pôr a explicar as regras antigas do pai.

Quando voltou à margem oeste, havia sete ou oito pessoas apertadas na rampa do embarque. Por pouco ela não achou que naquele dia teria mais passageiros. Só de perto viu que o vendedor de bolinhos lá da ponte nova tinha armado seu tabuleiro ali, à espera de uma carroça de passagem que levasse a carga. Ao verem o barco vazio, algumas pessoas disseram, com afeto, que a moça da família He ainda fazia a travessia, mas ninguém embarcou. A-Zhao passou por elas, sentiu o cheiro dos bolinhos quentes de arroz e teve uma vontade súbita de comprar dois. Enfiou a mão no tubo das moedas e tornou a tirá-la.

Ding Quan a viu de mãos vazias e perguntou se ela não tinha ido fazer a travessia. A-Zhao achou que ele também queria comentar a falta de passageiros e pôs o tubo de bambu no assoalho do barco para ele ver. Ele nem olhou para o dinheiro. Deu-lhe metade de um bolinho e disse que Tao Laoliu tinha comprado demais e deixado os bolinhos debaixo da árvore para pegar na volta. Ele já havia ajudado comendo um. A-Zhao mordeu o bolinho, lembrou-se de que Tao Laoliu acabara de dizer que não trouxera dinheiro e logo olhou para ele. Ding Quan riu a ponto de os ombros sacudirem. Disse que ela não precisava desmascará-lo tão depressa. A história de trocar as aparas do remo pelo bolinho era brincadeira. Tinha pagado mesmo.

Só depois de acabar com a brincadeira ele levantou a camada velha de massa de vedação. A tábua por baixo era mais grossa do que A-Zhao imaginava. Só um pequeno trecho ao lado da junção tinha mesmo amolecido. Ding Quan disse que, trocada a tábua externa, o barco ainda serviria. Por enquanto, vedariam a fresta e, quando achassem um lugar seguro para pôr o barco, decidiriam sobre o conserto maior. Ao ouvir que ainda dava para usá-lo, A-Zhao perguntou, em vez disso, se teria de gastar mais uma fortuna. Já não ousava suspirar de alívio tão depressa pelo barco, como se, ao baixar a guarda, o dinheiro tivesse de lhe escapar das mãos.

“Enquanto o barco estiver nas suas mãos, você vai ter essa despesa”, disse Ding Quan. Apontou para o próprio remo novo. “Esse aqui também pode estragar depois de aplainado.”

Agachada ao lado dele, A-Zhao foi recolhendo num prato velho os pedaços úmidos que ele tirava e perguntou o que faria se estivesse no lugar dela. Ding Quan primeiro ficou calado. Passou duas vezes a lâmina da plaina na pedra e só então disse que não tinha um barco daquele tamanho, mas tinha velhos e crianças para alimentar. Se tivesse um barco, é claro que primeiro faria com que ele rendesse o dinheiro do próprio conserto, mesmo que, para isso, precisasse embarcar e desembarcar passageiros em outros lugares além dos degraus de pedra de sempre. Parou aí, para ver se A-Zhao ia contestar. Ela inclinou a cabeça e só perguntou de onde viriam os passageiros de outro ponto.

Ding Quan falou dos carregadores de lenha do cais oeste e do pessoal que ia à feira da manhã em Tongxu. Mudando um ponto de parada, eles poupariam dois trechos de caminhada. Mas era preciso ir lá e testar. Só falar não traria ninguém. Luo Yan trabalhava com tiras de bambu, e ele a ajudava a levar material de um lado para outro. Assim conhecia algumas famílias dispostas a pegar o barco. Ele não pintou aquele trecho de rio como um caminho de ouro prestes a voltar a prosperar. Chegou a dizer que, com sol aberto, o pessoal ainda preferia atravessar pela ponte, onde tinha chão firme sob os pés e não precisava esperar pelo barqueiro.

A-Zhao pensou um pouco e perguntou de repente: “Você quer alugar?”

A plaina parou nas mãos de Ding Quan. Ele não respondeu logo que queria, apenas pediu que ela primeiro decidisse por quanto tempo pretendia ficar com o barco: se dali a três dias aparecesse um bom comprador, os dois ficariam numa situação constrangedora. Ainda faltava uma peça de madeira na ponta de seu remo; ele não tinha vindo naquele dia apenas para esperar, sem fazer nada, que ela decidisse. O rosto de Azhao esquentou um pouco. Sua pergunta de instantes antes parecera colocar outra pessoa, assim sem mais, no lugar do pai, como se, depois de perguntar, pudesse ir tranquila à cidade.

Perto do meio-dia, faltou um feixe de cânhamo para vedar a junta, e ela foi procurá-lo no quarto dos fundos. Na prateleira de cima do armário velho do pai ficavam os apetrechos do barco. Embaixo, as roupas dele estavam dobradas com mais capricho que as dela. Depois que a mãe morreu, o pai não a deixava remexer no armário, dizendo que sabia onde guardava as coisas. Agora a porta estava aberta, e ninguém a impedia. Mesmo assim, ela levou um tempão para achar um feixe de cânhamo. Por fim, encontrou-o pelo tato sob um embrulho de remédio. No papel ainda estavam os dois caracteres que escrevera às pressas no inverno.

Ela tirou o que procurava e pegou também o livro de contas. Restavam ao todo cento e oitenta moedas a pagar à farmácia, à loja de óleo e à madeireira. Duas das anotações tinham sido feitas por ela, quando os dedos do pai doente tremiam. Pretendia esperar a venda do barco para quitar tudo de uma vez. Agora o barco não tinha sido vendido, as contas continuavam ali, e cada vez que abria o armário era como se alguém tivesse acabado de passar por lá. Contou o dinheiro de cada pagamento e fez três cordõezinhos, encurtando o cordão inteiro que tinha antes.

O dono da botica a reconheceu. Ao receber o dinheiro, perguntou primeiro se ela queria levar de volta a manta velha daquela noite fria. Azhao não lembrava de ter deixado manta alguma. Depois de muito pensar, entendeu que o pai, quando viera buscar remédio e temera que o bule esfriasse, pegara emprestado o pano grosso que a loja usava para embrulhar os potes. Quando o boticário o tirou, a costura já tinha se soltado numa ponta e o resto estava esbranquiçado de tanto lavar. Azhao olhou e de repente riu. Disse que o pano era deles. Como é que ela ia levar para casa?

Só então o lojista bateu na testa. Ele também tinha se confundido. Disse que, com os dias daquele inverno todos embaralhados, já não dava para lembrar quem tinha emprestado o quê a quem. Sempre achara que o pai dela trouxera o pano de casa naquele dia. A-Zhao dobrou o pano para ele, sem aproveitar o engano para perguntar o que o pai dissera na ocasião. Empurrou seu cordãozinho de moedas para dentro do balcão e viu o lojista riscar o nome no livro. Abriu-se um vazio dentro dela que não era feito só de tristeza.

Quando terminou de passar pelas outras duas lojas, já aparecia uma nesga de sol da tarde. Azhao não foi até o portão da cidade nem perguntou pela condução para Ruancheng. Só comprou cânhamo para calafetar as emendas e voltou. Ding Quan já tinha preparado a linha de ajuste do remo. Ao vê-la chegar, chamou-a com um gesto para segurar uma das pontas. Ela firmou a peça como ele indicou, e os dois examinaram a junção da pá. Ding Quan disse que no dia seguinte ainda teria de deixá-la secar. Naquele dia, não dava para testá-la na água. Azhao se lembrou da saia que tinha ajustado. Mesmo com o arremate bonito, ainda era preciso vesti-la em alguém e ver se a pessoa conseguia se agachar. O canto da boca dela se mexeu sem que pudesse evitar.

Ao cair da tarde, o último passageiro foi um velho que levava um cesto com uma galinha. Como ela não parava quieta, ele cutucava a cabeça da ave com o dedo por entre as tiras de bambu, e quanto mais cutucava, mais ela cacarejava. Azhao mandou que parasse e baixou o pano velho que cobria o cesto. Só então a galinha foi parando de se debater. O velho disse que He Huaizhou também cobria o cesto daquele jeito e elogiou Azhao por se parecer com o pai. Por um instante, ela não soube se ficava contente ou contrariada. Virou-se para conferir se a prancha de desembarque estava firme na margem.

À noite, ao fazer as contas, ela primeiro pôs de lado as moedas recebidas ao longo do dia e voltou ao livro antigo. As três parcelas de cento e oitenta wen já estavam quitadas. Os círculos do dono da botica eram diferentes dos que o pai desenhava, redondos até demais. Virou até a última página, esperando encontrar algum saldo pequeno de madeira. Viu só uma linha, de traços mais soltos que os anteriores, com um pouco de cinza-claro misturado à tinta.

Uma lanterna emprestada, ainda sem devolução.

Ela aproximou a página da lamparina e leu de novo. A letra era do pai e a palavra era mesmo 灯, “lamparina”, não “sampana” nem “óleo de lamparina”. Embaixo não havia nome, e ao lado não havia valor em moedas. Ela folheou as páginas anteriores e as seguintes e chegou a apalpar as bordas do papel para ver se havia outro bilhete enfiado ali. O pai gostava de explicar até como registrar a ida e a volta de um galinheiro. Ali, porém, deixara uma única linha, como se a outra metade nunca precisasse ser escrita para ninguém ler.

A lamparina de cerâmica que usavam em casa estava bem ao lado de sua mão, e a lanterna da proa continuava pendurada no lugar. Ela mesma a limpara de manhã. Passou em revista todas as luzes da casa de que conseguia se lembrar e não deu pela falta de nenhuma. Se o pai tivesse tomado emprestada a lanterna de outra pessoa, caberia a ela devolvê-la. Mas ele escrevera claramente que a havia emprestado. Bateu de leve com os nós dos dedos na página do livro de contas. Lembrou-se daquele pano velho que haviam confundido na botica e de repente entendeu que nem tudo o que ficava sem nome no papel tinha tão pouca importância que se pudesse deixar para lá.

Do lado de fora da janela, Ding Quan guardava o remo novo, e a madeira bateu no chão. Azhao o chamou e perguntou se o pai tinha outra lanterna de bambu com uma armação alta. Ding Quan pensou por um momento. Parecia que a loja de lanternas levava uma toda primavera, mas ele nunca prestara atenção em que ano tinham levado ou devolvido cada uma. Ao ouvir falar da loja de lanternas, Azhao enfim viu diante de si as tiras de bambu no balcão e uma velha que sempre reconhecia os passos do pai por trás de mais de uma dezena de lanternas.

Ela fechou o livro de contas sem riscar aquela linha. De manhã, iria primeiro perguntar. A casa dos Qin ficava bem mais perto que a cidade de Ruan; não precisava vender o barco antes, nem prometer nada a Ding Quan. Pôs o cânhamo que acabara de comprar num canto seco do peitoril. O cordãozinho de moedas avulsas já estava frio na sua mão. Só quando devolveu uma a uma ao tubo é que a travessia vazia daquele dia pareceu enfim ficar do lado de fora.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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