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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

Quem fecha a janela à noite

酷无极 · Criação com IA · 10546 caracteres · Cerca de 11 minutos

À noite, Vovó Qin estava apagando as lamparinas no cômodo da frente quando ouviu A-Sheng gritar de dor no quarto dos fundos. Largou logo a armação de bambu que tinha nas mãos e entrou. Xiaoman tentava desembaraçar o cabelo do menino, segurando-lhe a cabeça com uma mão e o pente com a outra. O cabelo estava molhado, algumas mechas bem enroscadas, e quanto mais ele gritava, mais se mexia. Vovó Qin pegou um banquinho de madeira, mandou o neto se sentar direito e disse que deixasse com ela.

Xiaoman não lhe passou o pente. Disse que, se ele se mexesse, ia puxar o cabelo; era melhor esperar um pouco. A mão estendida da velha Qin parou no ar. De repente, ela se irritou. Afinal, também tinha criado uma criança; pentear cabelo ainda sabia. Mas, ao baixar os olhos, viu A-Sheng agarrado à barra da roupa da mãe, os dedos já torcendo o tecido num bolo. Acabou firmando com o pé uma perna do banquinho, para que Xiaoman pudesse usar as duas mãos.

Assim que desembaraçaram o cabelo, a cabeça de A-Sheng pendeu de sono. Passara o dia se esforçando para não dormir no barco e falara um bocado no lugar novo. Por fim, o corpo cedeu ao cansaço. A velha Qin quis lhe dar um pedaço de bolinho antes de dormir, mas Xiaoman disse que ele já tinha comido o suficiente e que não era para dar mais comida quando estivesse sonolento. Vendo um grão de arroz ainda grudado no canto da boca do menino, ela pensou que um pedaço de bolinho não era nada demais. No fim, pegou um pano úmido e tirou de leve o grão de arroz.

Era a antiga cama de Xiaoman. Ao lado, tinham apoiado uma tábua estreita para mãe e filho dormirem sem aperto. A velha Qin já tinha testado o arranjo várias vezes e escolhido calços de madeira da mesma altura. Ainda assim, ao ver a filha pôr o peso sobre a tábua, não resistiu a perguntar se estava firme. Xiaoman se sentou para testar e respondeu que sim. Aquela única palavra pareceu à velha mais concreta que todo o relato que ouvira durante o dia sobre a vida lá fora. Ela se apressou a levar sua roupa de cama para o cômodo da frente.

Xiaoman a chamou e disse que ela não precisava ceder o quarto inteiro. A velha Qin respondeu que também podia dormir do lado de fora e que, como sempre se levantava cedo, assim não acordaria ninguém. Na verdade, nunca tinha improvisado uma cama junto ao balcão. O frio subia do chão, e até virar de lado no meio da noite seria difícil. Ela não quis que a filha percebesse e sacudiu primeiro a coberta, como se já estivesse acostumada àquele lugar. Xiaoman se levantou na hora e ajudou a levar a tábua para um canto mais afastado da porta.

As duas fizeram força, cada uma de um lado da tábua, e pela primeira vez pareciam duas pessoas ocupadas com uma tarefa comum. Logo no fim, porém, a senhora Qin pediu à filha que levantasse mais as mãos, mas Xiaoman primeiro virou a tábua para o seu lado e bateu com a quina no armário. As duas pararam ao mesmo tempo. A senhora Qin disse que desde antigamente mandava a filha esperar ouvir o aviso antes de se mexer. O rosto de Xiaoman se fechou na hora. A mãe soube que tinha falado mal e pensou em dizer que a tábua estava inteira, mas já tinham passado do ponto em que bastava achar mais uma frase para retomar a conversa.

Depois de ajeitarem a cama, a filha ficou sob a cortina da porta. Vovó Qin pensou que talvez ela ainda quisesse conversar e perguntou de onde era o pai de A-Sheng e se ainda havia parentes dele. Xiaoman respondeu que era da região de Danxi, que tinha um irmão mais velho e que nas festas também levava o menino para cumprimentá-lo. A mãe perguntou se o irmão ajudava a cuidar deles. Xiaoman disse que cada família tinha a própria vida e que já era muito bom poderem se cumprimentar. Para Vovó Qin, aquelas palavras soaram como se a filha já tivesse fechado por inteiro uma porta pela qual ela poderia puxar conversa.

“Se eu soubesse, naquela época, como era difícil para você cuidar de um doente, eu ainda podia...” Antes que terminasse, Xiaoman já tinha se virado para ela.

“Como você sabe que só faltava um pouco de dinheiro para ele?”

A senhora Qin ficou atônita e disse que não quisera dizer aquilo. Ao saber que a filha perdera o marido, só tinha lembrado que, quando o seu adoecera, também temia abrir a porta e encontrar alguém cobrando os remédios. Imaginou que a filha talvez sentisse o mesmo. Mas o que acabou dizendo soou como se bastasse ter voltado mais cedo para poupar-se daquele sofrimento. Xiaoman enrolou no dedo um fio solto da cortina e perguntou, sem levantar a voz, se a mãe também achava que ela tinha escolhido o caminho errado e por isso acabara vivendo daquele jeito.

A velha Qin respondeu que não. O não saiu tão depressa que nem ela acreditou de todo. Claro que não queria ver a filha sofrer, mas desde que soubera que Xiaoman tinha se casado, tivera um filho e perdera o marido, carregava um pensamento que não queria encarar de frente: se a filha a tivesse ouvido na época, ao menos não teria penado no barco da companhia. Só agora, diante da pergunta tão direta, percebeu que o pensamento não virara cinza junto com o papel vermelho do noivado que ela queimara.

Quis falar também do que lhe custara. De como mantivera a loja aberta sozinha à noite, dos três anos que levara para restituir os presentes, dos comentários alheios. Mas, se desfilasse tudo aquilo, a filha teria de ouvir até o fim e ainda dizer que para a mãe também não tinha sido fácil. Viu que Xiaoman já apertava a borda da cortina enrolada na mão e de repente se lembrou de que, no fim da discussão de tantos anos antes, a filha fizera aquele mesmo gesto. Sem ter onde pôr as duas mãos, acabou abrindo a porta num empurrão.

“Por que você não quis esperar mais uns dias naquela época?”, perguntou a vovó Qin.

Xiaoman olhou para ela e, depois de um tempo, disse que tinha esperado. Esperara até ficar sabendo pela boca dos vizinhos até mesmo o dia em que teria de conhecer aquele homem. A mãe sempre dizia que ainda iam conversar, mas, quando uma conversa não dava em nada, na vez seguinte já tinham mandado mais alguma coisa para dentro de casa. A mãe nunca aceitava discutir quem devia decidir primeiro o rumo da vida da filha. No fim, só sobrou a Xiaoman uma coisa que podia fazer por conta própria: sair por aquela porta.

Ao ouvir, a senhora Qin primeiro protestou em pensamento: quando é que se recusara a escutar? Só não podia assistir sem fazer nada enquanto alguém seguia para uma vida insegura. Abriu a boca, mas, ao ver a roupa cinza amaciada de tantas lavagens no corpo de Xiaoman, só então pensou que a outra já caminhava ali havia dezesseis anos, quer ela aceitasse ou não chamar aquela vida de segura naquele dia. Já não podia responder à mulher diante dela, que havia sido mãe e se despedido do marido morto, como se ainda fosse a moça que nem sequer se casara.

Ela baixou a cabeça e disse que na época tivera medo. Xiaoman disse que também tivera medo, sem acrescentar um «eu sei». As duas ficaram assim, como se cada uma segurasse um lado de uma porta e, ao menor movimento de uma delas, os dedos da outra pudessem ficar presos. Lá fora, o vento fazia o papel da lanterna farfalhar sem parar. A-Sheng se virou na cama, e Xiaoman logo ficou à escuta. Só tornou a olhar para a mãe quando tudo ficou quieto.

Vovó Qin não perguntou de novo por que os dois recados não tinham sido confiados a mais gente. Também não perguntou por que, se moravam tão perto, a filha não tinha vindo em dezesseis anos. Sabia que ela própria também não tinha ido até lá. Mas, se tivesse de dizer com todas as letras «naquele tempo eu não devia ter acertado seu casamento por você», a frase ainda lhe travava no peito, como se dissesse que nunca tinha tentado de tudo para abrir um caminho para a família. Viu que a filha também parecia esperar alguma coisa. No fim, desviou os olhos.

Xiaoman disse que sairia cedo no dia catorze. Se o instrumento estivesse consertado, iria buscá-lo. Se ainda não estivesse, teria de voltar primeiro para a companhia. A velha Qin já tinha ouvido isso de A-Zhao, mas mesmo assim perguntou se ela não podia ficar mais dois dias. Perguntou baixinho, quase como se fosse um comentário de passagem, mas o rosto de Xiaoman voltou a se fechar. A filha respondeu que não podia largar de vez o trabalho que tinha em mãos. Havia gente precisando dos trajes, e ela também precisava receber. A velha Qin assentiu, mas cravou a unha num ponto da costura do punho.

Ela ia dizer que ali também havia trabalho, que toda primavera a loja ficava atarefada e sempre era preciso ter alguém para atender os fregueses. Mas, quando ia falar, veio-lhe de repente à cabeça a pergunta que fizera durante o dia, se Xiaoman ainda cantava, e as palavras ficaram presas. Se ela podia arranjar tudo pela filha, por que Xiaoman teria ido refazer a vida a dois dias de viagem dali? No fim, só disse que, no dia seguinte, era melhor ir cedo à oficina do mestre Mo. À tarde, ele iria ao cais rio acima ver um instrumento, e ela podia acabar dando com a porta fechada.

Os ombros de Xiaoman pareceram relaxar um pouco. Ela respondeu que entendeu e voltou à cama para cobrir o filho. A velha Qin foi atrás e dobrou a ponta que sobrava do cobertor para os pés da cama. Xiaoman viu e disse que não enfiasse tudo por baixo, porque ele mexia as pernas à noite. A velha Qin quase tornou a dizer quantas vezes já tinha coberto uma criança, mas soltou primeiro a mão e deixou a ponta livre. O menino deu mesmo um chute. O cobertor não caiu; só deixou os dedos dos pés à mostra.

A janela ainda estava aberta. A velha Qin a deixara assim ao anoitecer. Já se viam luzes esparsas do outro lado do rio. De tanto olhar dali, junto ao armário, ela tinha a impressão de que, se fechasse a janela, deixaria de ouvir até o último sinal de movimento ao longe. Xiaoman foi fechá-la, mas hesitou ao tocar o gancho de madeira e virou-se para perguntar se ainda entrava vento por ali. A velha Qin lembrou que o marido a consertara duas vezes quando era vivo e respondeu que a janela batia quando o vento norte soprava forte, mas hoje ele estava fraco.

A filha não acompanhou o olhar até o rio. Disse que A-Sheng dormia daquele lado e podia pegar vento à noite. A velha Qin murmurou que sim, mas continuou de pé, como se ainda não tivesse terminado aquela vigília que fazia por alguém. Lá fora, uma pessoa voltava tarde, com a carga na vara ao ombro. A luz balançou e sumiu junto à parede. Só então ela mesma estendeu a mão, fechou devagar a janela e prendeu o fecho de madeira, que ainda emperrava um pouco.

Ela soltou uma chave da cintura e a pôs na mesinha ao lado da cama. Disse que a porta dos fundos dava para o poço e que, se Xiaoman se levantasse à noite, podia usar aquela chave sem ir chamar ninguém no cômodo da frente. Xiaoman olhou para a chave, sem pegá-la de imediato nem devolvê-la. A velha Qin ia dizer que, se ela quisesse sair, também podia usá-la. Achou que soaria calculado demais, como se estivesse só esperando ouvir da filha que ela não iria embora de novo. Engoliu o resto da frase e apenas perguntou se ainda queria água morna.

Xiaoman respondeu que ainda tinha água e podia pegar sozinha. A senhora Qin voltou à sala da frente e só ao deitar descobriu como era dura a tábua que tinham acabado de arrumar. Por mais que virasse o ombro, não achava o vão a que estava acostumada. Temendo fazer barulho ao se virar e deixar que a filha percebesse o desconforto de ter cedido o quarto, ficou deitada, imóvel, escutando. De repente ouviu passos no quarto de dentro. Xiaoman saiu com uma roupa jogada sobre os ombros, olhou sob o ombro da mãe e disse que ela não costumava dormir naquela tábua. A senhora Qin ia dizer que sim, mas a filha já tinha posto um casaco velho dobrado junto ao cotovelo dela, para lhe dar apoio ao virar de lado. Por instinto, a mãe temeu estragar o tecido e disse que, apertado daquele jeito, ia amassar. Xiaoman respondeu que no dia seguinte ia lavar mesmo. Nenhuma das duas disse obrigada nem precisa. Xiaoman alisou a borda do casaco e voltou para dentro. A senhora Qin esperou a cortina cair e só então se virou devagar para aquele lado. Debaixo do cotovelo estava mesmo mais macio.

Passado um tempo, Xiaoman perguntou baixinho do quarto dos fundos: “Mãe, a fumaça mancha o papel das lanternas? Afaste um pouco essa lamparina daí.”

Aquele “mãe” saiu num tom tão simples que ela quase não o ouviu direito. Respondeu que o papel não sofreria com a fumaça e que já tinha afastado a lamparina. Mesmo assim, levantou-se e deslocou a pequena lamparina de cerâmica mais um palmo para o lado. Ao voltar, viu a velha lanterna de bambu embrulhada no armário, com o fecho de bronze sem reflexo. Estendeu a mão para tocá-la e a deixou onde estava. A presença da filha no quarto não a fez correr para buscar a lanterna como prova de que tinha feito bem em esperar todos aqueles anos. Lá fora, o gancho de madeira batia de leve, de vez em quando, contra o caixilho. Ela ouviu por um tempo e, por fim, não foi mais até a janela.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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