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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

Um ato inteiro visto da plateia

酷无极 · Criação com IA · 10674 caracteres · Cerca de 11 minutos

A-Zhao pagou dez moedas por um assento lateral no Salão Sul. Gao Shoucheng a reconheceu e primeiro perguntou se ela tinha se enganado de lugar. Quando soube que ela queria assistir a uma cena inteira desde o começo, perguntou se não dava para ver lá de dentro e para que ocupar aquele lugar. Ela pousou o dinheiro com firmeza e respondeu que lá dentro sempre alguém a chamava e que, na melhor parte, provavelmente estaria revirando um baú de figurinos. O chefe da companhia a olhou por um instante e aceitou o dinheiro, mas ainda advertiu que, se faltasse mesmo quem ajudasse, ela não podia fingir que não conhecia ninguém.

Ela se sentou e percebeu que a boca de cena parecia mais estreita dali que dos bastidores. Bastava a pessoa à frente mexer a cabeça para sumir metade do corpo de Liu Sheng. Lu Heniang, porém, veio de outra direção. A barra do figurino cruzou primeiro a corda de cânhamo, e só então pareceu haver ali uma margem de verdade. Azhao achava que o público via tudo o que ela já tinha visto lá dentro. Agora, do outro lado, até o lugar da manga em que a luz batia era diferente.

Ao lado dela, uma vendedora de feijão estava com a filha pequena. A menina não parava de perguntar quando iam entrar na água. A mãe apontou a fresta entre as tábuas e disse que era ali. A menina não acreditou, pois claramente não havia água nenhuma. Gu Ming subiu bem naquela hora nas duas tábuas. Quando A-Heng fincou a vara, ele se desequilibrou de um jeito exagerado, e junto ao palco todos riram. A menina, porém, agarrou logo a mãe, com medo de que ele caísse. A-Zhao riu também. Só depois percebeu que ela e aquela criança, que até um instante antes só via uma fresta entre tábuas, tinham visto o mesmo rio.

Dessa vez, ela reparou em mais coisas além de quem fazia o giro mais bonito. Antes de Gu Ming entrar em cena, já tinham passado o cordão do traje para o lado em que era mais fácil pegá-lo. Na saída, havia quem viesse recebê-lo e quem pegasse primeiro a vara de bambu, cada qual a seu tempo. Quando Lu Heniang chegava a um verso longo, aproveitava um passo para firmar a respiração. Se os enfeites de contas puxavam a lapela, seu ombro se movia um pouco mais devagar que de costume. A-Zhao, ansiosa, quis tatear à procura de papel, mas conteve a mão no meio do gesto e assistiu à passagem inteira primeiro.

Na troca de botas entre cenas, ouviu-se de repente a risada de uma criança junto ao palco. Ela disse que os dois pés do estudante olhavam para dentro. A-Zhao reparou que de fato tinham pegado as botas erradas. Gu Ming estava com duas botas esquerdas de pares diferentes. Atrás da cortina, Gao Man estendeu a mão, aflita. Lu Heniang atravessou a vara no caminho do estudante Liu e perguntou ao cavalheiro se, antes de sair, até os pés tinha tomado emprestados errado. Gu Ming baixou os olhos e riu também. Aproveitou para se agachar e arrastou uma fala que devia dizer depressa. Quando trouxeram lá de dentro a bota direita, escondeu a troca com a barra da roupa. A criança se divertiu ainda mais, e a mãe se apressou em fazê-la sentar direito. A-Zhao achou que aquilo ia esfriar a cena, mas foi como se palco e plateia dessem juntos mais um passo. De algum modo, todos continuavam à beira daquele rio que não existia.

No desfecho antigo, o letrado ainda voltava coberto de honras. O estudante Liu dizia que levaria a barqueira para terra firme, onde ela nunca mais precisaria enfrentar o vento da noite. Ali perto, a vendedora de feijão bateu palmas com força e disse que assim é que era bom, depois de ver alguém sofrer tanto, tinha de haver alguma recompensa. A filha perguntou para quem ia ficar o barco, e a mulher respondeu que criança não tinha de se meter em tanta coisa. A-Zhao ouviu sem logo concluir que a mulher não entendia a peça. Lembrou-se de que, quando a velha Qin vira a filha naquela roupa cinzenta, também pensara primeiro em poupá-la de mais vento.

Uma peça talvez não pudesse dar a todos a mesma recompensa. Mas, se ninguém chegasse a ver o que as personagens esperavam, de pouco adiantava arrematar o final com esperteza. Os dez wéns pagos na plateia não voltariam a brotar por conta própria. A-Zhao guardou essa impressão para si, sem usá-la como prova de que entendia a peça. Viu Gu Ming estender a mão a A-Heng, e Lu Heniang pousar a sua como sempre fazia. As vozes na plateia se animaram de uma vez, mas no rosto dos atores passou por um instante um cansaço que não se confundia de todo com alegria.

Quando a plateia se dispersou, ela voltou aos bastidores. Gao Man lhe entregou um maço de tiras para conferir. Como era de esperar, ter comprado ingresso não a dispensava do trabalho pelo resto do dia. A-Zhao pegou as tiras e foi primeiro olhar o avesso da roupa que acabara de entrar em cena. Havia suor no forro, mas os punhos estavam secos. Só de apalpar percebeu que, onde antes imaginava que a roupa inteira esquentava por igual, cada parte pesava de um jeito. Forrar tudo para que o figurino parecesse bem armado à primeira vista só embrulharia quem o vestisse em mais uma camada de incômodo.

Ao vê-la apalpar a roupa de cabeça baixa, Lu Heniang perguntou se todas as pessoas na plateia a tinham achado bonita naquele dia. A-Zhao não esperava a pergunta. Primeiro disse que sim; só depois respondeu que havia notado um movimento de ombro mais lento que antes. A mulher perdeu o sorriso imediatamente, ergueu a mão e tirou o colar de contas da gola, dizendo que ela sabia escolher justamente a coisa menos agradável de ouvir. Embora aborrecida, ainda deixou A-Zhao segurá-lo e perguntou se, afinal, era pesado ou não.

Pesava. A-Zhao, porém, não disse logo que era melhor tirar o colar. Lu Heniang olhava aquele brilho como quem via ali mais que um estorvo. A-Zhao disse que, se as contas fossem presas a uma gola que aparecesse só de um lado e o conjunto não se movesse todo quando ela erguesse o braço, talvez puxasse menos. Ainda não sabia como fazer. Só tinha visto, sentada na plateia, que as contas tremiam o tempo todo. Lu Heniang soltou um muxoxo e disse que é claro que sabia que tremiam, e que o público gostava de vê-las tremer.

Foi nessa hora que chegou o comerciante Du, trazendo uma caixa decorada em laca. Queria convidá-los a apresentar dois atos no aniversário da mãe e tinha escolhido especialmente a Aheng de Lu Heniang. Achava o figurino original simples demais e trouxera emprestados dois enfeites brilhantes, mais pesados. Disse que o salão teria muitas luzes e que, sob elas, os enfeites dariam um ar de festa. Ao ouvir que era uma apresentação particular, Gao Shoucheng logo o convidou a sentar. Lu Heniang, que estava massageando o ombro, ajeitou de novo os cabelos junto à testa e ficou ali, apesar de ter acabado de dizer que estava cansada.

No último terço do mês, ela precisava completar cento e oitenta moedas de aluguel. Se a apresentação rendesse a parte combinada, receberia noventa e não teria de tirar todo o resto das economias. A-Zhao sabia que aquele dinheiro tinha peso. Sabia também que o quarto tinha uma porta que Lu Heniang podia fechar para si, sem precisar disputar toda noite um canto seco com mais de dez pessoas. Lu Heniang gostava de coisas bonitas e gostava daquela porta. O que havia no estojo diante dela era mais do que uma forma de pressioná-la.

Mal penduraram os enfeites brilhantes emprestados para o teste, a gola cedeu para trás. O comerciante Du olhou de longe e disse que estava bom, com ar de quem tinha recebido uma bênção. Lu Heniang sorriu e deu uma volta. Primeiro olhou para o espelho, depois pegou a vara e fez os passos de sempre. Na primeira vez deu para fazer. Na segunda, ao trocar de ombro, uma placa de contas pressionou a borda da lapela, e ela precisou afrouxar um pouco a gola. A última nota já não saiu tão longa quanto antes.

A-Zhao estendeu a mão para ajudar, mas Lu Heniang disse logo que não mexesse, que ela ia tentar de novo. Não queria que, só de falar no peso, achassem que ela não aguentava esforço. Menos ainda queria que a nova costureira descartasse algo que o senhor Du já tinha aprovado, antes mesmo de ela cantar para valer. Na terceira tentativa, parou no meio do canto e devolveu um dos enfeites à caixa. O senhor Du perguntou por que havia um a menos. Ela disse que com ele não conseguia cantar direito e que aquele ficaria de fora.

“Então cante parada”, disse o senhor Du. “Meu salão também não é largo.”

Lu Heniang não respondeu de imediato. Podia, é claro, cantar parada, mas, se passasse o ato inteiro imóvel, A-Heng viraria mesmo um objeto para o público admirar pelo brilho, e todos aqueles passos de barqueira que ela sabia fazer se perderiam. Além disso, cantando quieta no lugar, ficava muito mais fácil ouvir aquele cansaço na voz. Havia também esse motivo para ela insistir. Por fim, disse que não dava para cortar todos os passos de barqueira. Se fosse indispensável pôr todos os enfeites, que escolhessem um ato que outra pessoa pudesse assumir.

Ao lado, Gao Shoucheng estava de cara fechada. A-Zhao achou que ele fosse tentar convencê-la, mas ele primeiro perguntou ao comerciante Du de que fala a mãe dele mais gostava. O homem disse que ela gostava de ver a nomeação para um cargo e a volta para casa, sem fazer questão de um passo em particular. Experimentaram duas vezes, entre ajustes, e reduziram à metade os enfeites brilhantes. O comerciante Du, porém, disse que, como não tinham feito o que fora pedido inicialmente, também não podia pagar a gratificação combinada. A parte de Lu Heniang caiu trinta wen. Seu olhar esfriou na hora, mas ela não voltou a pendurar o adorno.

Depois que o freguês foi embora, ninguém no pátio a elogiou por ter firmeza. Gao Shoucheng só disse que, como os trinta wéns eram da parte dela, ficaria como ela decidira, e o pagamento dos outros pela apresentação continuaria o mesmo. Lu Heniang assentiu e logo perguntou, com raiva, se A-Zhao tinha visto. Que não pensasse que, toda vez que fizesse algo mais vistoso, a plateia ia querer pagar mais. A-Zhao ia dizer que nunca pensara assim, mas, a essa altura, ainda não tinha conseguido fazer nem uma túnica nova e não sabia por onde começar a se defender. Só guardou com cuidado a caixa com o restante dos enfeites.

A mulher de repente riu e disse que A-Zhao não tinha vindo para ouvir suas queixas e que podia voltar ao trabalho. A-Zhao ergueu a cabeça e viu uma marca vermelha clara debaixo do grampo de cabelo. Perguntou se doía muito. Lu Heniang tocou a marca e primeiro disse que não doía. Depois de um instante, admitiu que doía um pouco. Se Gu Ming perguntasse no dia seguinte, era para dizer que ela tinha ensaiado demais, para ele não inventar mais uma piada às suas custas sobre um grampo perdido. Ela mesma riu primeiro. A-Zhao riu junto, e as duas já riam de outra coisa que não era quem menos errava no palco.

Naquela noite, Azhao esperou que todos se dispersassem e pegou um forro velho emprestado para testar as dobras. Sem mexer no tecido novo, dobrou o mesmo pedaço em três camadas e o pôs sobre o ombro. Depois desdobrou até sobrar uma só camada, esticou o braço e repetiu o movimento algumas vezes. A diferença não dava para avaliar só de pousar o pano no ombro. O tecido era velho, e ela se movia de outro jeito que uma atriz. Só podia anotar onde sentira diferença e perguntar a Xiaoman no dia seguinte. Pela primeira vez, aceitou deixar uma ideia ainda por realizar, sem pressa de recortá-la na forma de um mérito seu.

Xiaoman voltou ao quarto e, ao ver que ela fazia testes, pegou o tecido e apontou uma parte mais grossa no ombro de Azhao. Disse que ali não era preciso deixar a mesma folga que do outro lado. Azhao perguntou onde esconder o nó para uma troca rápida durante a apresentação. Xiaoman não deu logo a resposta. Mandou que ela vestisse e desamarrasse sozinha. Dessa vez, Azhao levou a mão esquerda às costas e tateou um tempão, sem achar nada além de tecido, até que acabou rindo de raiva. Xiaoman também riu. Só depois disse que, na primeira vez que tentara, tinha acabado amarrada do mesmo jeito.

As duas experimentaram três tipos de nó. Só um dava para achar pelo tato logo de saída, na pressa, sem ficar muito à mostra no palco. A-Zhao ainda não ousava dizer que aquele servia. Xiaoman pediu que, no dia seguinte, chamasse Lu Heniang para experimentar a roupa e não se guiasse só pelas próprias mãos. Era parecido com o que já tinha dito antes, mas dessa vez A-Zhao não ouviu aquilo só como crítica. Acabara mesmo de passar a mão por um pedaço de pano onde, por mais que procurasse, não achava nada.

A-Sheng já dormia. O suporte vazio do tambor continuava debaixo da cama e tornou a fazer um ruído baixo quando A-Zhao se virou. Dessa vez, ela estendeu a mão e firmou o calço de pano enrolado antes que Xiaoman acordasse. Feito isso, percebeu que o objeto velho ainda a incomodava. Agora sabia onde ele estava e em que parte podia mexer primeiro, sem tomar cada baque como uma advertência de que precisava pisar em ovos. Sob a janela, secava o forro de uma só camada. Na manhã seguinte ainda teria de levá-lo a quem de fato o vestiria.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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