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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

A passagem de barco do nono dia

酷无极 · Criação com IA · 10809 caracteres · Cerca de 11 minutos

No dia nove do terceiro mês, ao fim da temporada, deram pela falta de um dos grampos de cabelo de Lu Heniang. Reviraram metade dos bastidores até encontrá-lo na manga que Gu Ming tinha tirado. Na cena da despedida, os dois haviam girado perto demais, e a haste do grampo se prendera numa linha e fora embora com ele. Gu Ming ergueu a manga e disse que Liu Sheng não ganhara um wen sequer, mas já tinha recebido uma prenda de amor. Lu Heniang tomou o grampo de volta, endireitou a haste torta diante de todo o pátio e disse que, se voltasse a encostar, que já separasse também o dinheiro do conserto.

A-Zhao estava agachada ao lado, dobrando as roupas. Rindo, anotou na margem do papel onde o grampo pegara na linha. Com aquilo, terminou a rodada de apresentações. Gao Shoucheng ainda remoía o fato de as últimas sessões não terem lotado e disse ao pessoal que não sumisse de vista assim que se dispersasse. Xiaoman saiu do cômodo de dentro com os sapatos nos braços e mandou A-Sheng experimentá-los primeiro. O menino esticou os dois pés como se fosse andar de barco. Os sapatos enfim estavam prontos. O cabedal não brilhava como o dos que se vendiam na loja, mas na ponta havia o espacinho de que ele ainda precisaria para crescer.

“Você vai na frente amanhã?”, perguntou Xiaoman a A-Zhao.

A-Zhao assentiu e disse que sairia de barco no dia seguinte e chegaria a Liuwan no dia 11. Precisava ir na frente para pôr em ordem o barco da travessia. Xiaoman disse que sairia no dia 11, chegaria no dia 12 e, já na margem leste, atravessaria o rio. Depois de dizer as datas, ainda passou os dedos apertando a borda do sapato, como se quisesse achar mais algum ponto mal ajustado e ganhar um pretexto para ficar de cabeça baixa mais um pouco antes de encarar a decisão. A-Zhao não a apressou, e por fim ela calçou de novo o sapato no menino.

A-Sheng perguntou se a avó viria recebê-lo no cais. Em seguida, disse que, se a loja estivesse muito ocupada, ele sabia reconhecer os caracteres da tabuleta de quem vendia lamparinas. Xiaoman disse que havia mais de uma loja de lamparinas na rua e que ele nunca tinha andado por aquele caminho. O menino quis retrucar, mas, ao ver a expressão dela, virou-se para A-Zhao em busca de apoio. A-Zhao só disse que estaria esperando na margem leste. Depois perguntou se ele queria levar o qin pequeno da companhia na travessia. Mestre Mo esperava o instrumento para consertar a pestana, e o menino só teria de carregá-lo nas costas por um trechinho em terra.

O estojo passava da metade da altura dele. Assim que soube que podia carregá-lo, Asheng esqueceu que sabia o caminho e foi ver se os ombros davam conta. Xiaoman pensou em pegar o estojo para si, mas no fim só experimentou a alça para que ele não arrastasse no chão. Disse que o instrumento era da companhia e que ele não podia fazer dele um brinquedo. O menino respondeu que sabia, ainda mais alto do que quando falara em reconhecer os caracteres. Pelo jeito não tinha ouvido nem metade. Azhao olhou para ele e de repente achou que naquela viagem precisava haver ao menos uma alegria que não tivesse nada a ver com aqueles dezesseis anos.

Na véspera da partida, Xiaoman estendeu dois conjuntos de roupa na cama e perguntou a A-Zhao se o cinza estava velho demais. A-Zhao apalpou a altura do ombro. O tecido já amaciara de tanto lavar, mas a costura continuava firme. O outro conjunto era mais novo, com uma veste clara que Xiaoman só se permitia usar depois das apresentações. Olhou para ele várias vezes e tornou a guardá-lo. Perguntou se, ao vê-la de roupa velha, a mãe só ia querer saber o quanto ela tinha passado aperto. Em seguida, como se achasse que tinha falado demais, foi logo conferir o embrulho de A-Sheng.

A-Zhao não lhe garantiu que aquilo não aconteceria. Lembrou-se da sucessão de perguntas da velha Qin diante do armário das lamparinas. Se nem ela própria soubera como reagir, como poderia garantir à filha da velha um reencontro sem constrangimento? Só disse que, se estivesse cansada, se sentasse primeiro para comer alguma coisa, para não fazer o caminho todo com fome. Xiaoman murmurou que sim. De repente, disse que já ouvira aquilo antes, mas que naquela época sempre achava que, de barriga cheia, era ainda mais difícil ir embora.

No décimo dia, antes de partir, A-Zhao devolveu a Gao Man tudo o que devia entregar naquela rodada e explicou a Xiaoman o que ainda faltava. Não contou com a ideia de que passar uns dias em casa a dispensaria de alguma parte do trabalho. Gao Man conferiu o material devolvido e apontou para a marca em forma de gancho na folha, perguntando o que era. Depois de ouvir a explicação, chegou a fazer uma anotação à parte e disse que, se precisassem descosturar aquele punho no futuro, era por ali que deviam começar. A-Zhao já tinha pegado suas coisas, mas, ao ouvir isso, sentou-se de novo para desenhar a marca com mais clareza.

No dia onze, quando voltou a Liuwan, Azhao encontrou Ding Quan conversando com gente do Cais Oeste. Sem interromper, foi primeiro à popa apalpar a junta remendada. Havia um pouco de água, mas não mais que antes de sair. Lavou a cuia de tirar água, liberou o espaço de que precisariam no dia seguinte e só então foi buscar a chave de casa. Ding Quan sabia que Xiaoman e o filho viriam e perguntou se enfeitavam o barco com umas fitas coloridas. Azhao disse que não precisava, fariam a travessia como sempre. Ele riu e respondeu que só tinha perguntado por perguntar. Onde ia arranjar tempo para enfeitar de festa o barco de cada passageiro?

A cortina da loja de lanternas já tinha sido lavada e estava estendida no pátio dos fundos, ainda úmida na costura do pano azul. Assim que viu A-Zhao, Vovó Qin perguntou se o barco tinha atrasado. Ao ouvir que Xiaoman só chegaria no dia seguinte, tornou a perguntar por que não vinha naquele dia. A-Zhao repetiu as datas das duas viagens, e só então a velha guardou a informação. Apontou para as cobertas que secavam no pátio e disse que não estava com pressa. Só temia que, se chovesse por ali, quando chegassem não houvesse nem onde se sentar sem se molhar.

A-Zhao pensou no que Xiaoman dissera, que ficaria só duas noites, e devia ter mencionado isso; mas, vendo a senhora Qin sacudir pela segunda vez o mesmo canto da coberta, segurou a outra ponta para ajudá-la a pendurá-la mais alto. Só depois de firmarem a roupa de cama ela explicou as datas com clareza. A senhora Qin não respondeu de imediato; após algum tempo, perguntou se duas noites bastavam para descansar. A-Zhao disse que Xiaoman mesma decidira e que no dia quatorze precisava voltar a Lanting para entregar o trabalho. A velha assentiu, mas ainda assim trouxe a segunda coberta, sem deixar de fazer uma coisa por serem apenas duas noites.

Na manhã do dia doze, a avó Qin abriu a porta antes de clarear. Quando foi acompanhar a primeira travessia, Azhao a viu comprando peixe na esquina. Ela escolhia com tanto cuidado que até o peixeiro disse que entre um e outro só havia meia bocada de carne de diferença. Mesmo assim, ela perguntou se a criança comeria peixe de espinha fina, e o homem teve de perguntar primeiro a idade da criança. Quando ouviu que tinha oito anos, tia Xu riu ao lado e disse que ela era capaz de esquecer até o apelido de infância do menino e ainda querer escolher por ele que espinha comer.

De volta com o peixe, a senhora Qin esqueceu de raspar primeiro as escamas e já tinha cortado um pedaço. Tia Xu veio bem na hora buscar a vasilha que deixara na véspera. Viu o estado da mesa, pegou-lhe a faca e disse que, se a senhora Qin usasse daquele jeito as mãos de fazer lanternas, acabaria quebrando três armações naquele dia. A senhora Qin se irritou com a língua solta da vizinha, mas abriu espaço. Tia Xu avisou que só ia limpar aquele peixe, que ainda precisava voltar à banca. Não ia passar o dia fazendo tudo por ela. E que parasse de olhar só para a janela.

A-Zhao ouvia à porta. Primeiro conteve o riso, depois reparou que a velha Qin realmente não estava de vigília à janela. Ela lavava verduras, procurava tigelas, punha três na mesa e recolhia uma, ocupada com tudo, embora o que mais importava ainda estivesse por se confirmar. A-Zhao disse que, quando chegassem à margem leste, voltaria para avisá-la. Então pegou o remo e voltou ao embarcadouro. Não disse à velha que fosse com calma. O barco esperava, e ela também tinha seu trabalho a fazer primeiro.

À tarde, o barco de passageiros enfim atracou em Tongxu. Por entre os fardos dos outros passageiros, A-Zhao viu Xiaoman com A-Sheng pela mão e uma bolsa pequena na outra. O ombro da roupa cinza estava ainda mais amassado que na noite anterior, como se no barco ela não tivesse achado onde se encostar com sossego. A mãe carregara a bolsa do instrumento durante a viagem. Assim que desceram, o menino quis a bolsa de volta no próprio ombro. A alça ficou enviesada, e o fundo da bolsa batia na perna dele a cada passo.

A-Zhao se aproximou para ajudar a sustentar o fundo da bolsa. A-Sheng logo disse que aguentava carregá-la sozinho. Falou com firmeza, mas não fez menção de afastar a mão dela. Xiaoman perguntou se a mãe estava na loja. A-Zhao respondeu que estava nos fundos cortando verduras e não contou a história engraçada das escamas do peixe. Temia que, se dissesse que a velha estava tão nervosa que nem conseguia manejar a faca, Xiaoman tivesse de se comover por obrigação antes mesmo de vê-la.

Ao embarcar, Xiaoman primeiro guiou o menino até o meio do barco e o fez sentar. Depois tirou a bolsa do instrumento do ombro e a colocou num ponto alto, fora do alcance da água. A-Sheng agarrou a borda com as duas mãos e, olhando para a pequena barca sem cobertura, perguntou se ela andava mais devagar que a embarcação grande em que viera. A-Zhao disse que não precisavam correr naquele trecho. Podiam ir mais devagar que o instrumento não ia saltar no rio por conta própria. O menino recolheu as mãos na mesma hora e protegeu o nó da bolsa, como se o instrumento pudesse mesmo ter ouvido e ficado ofendido.

No meio do rio, ele perguntou ainda se qualquer pessoa podia andar naquele barco. A-Zhao disse que bastava pagar a passagem, a menos que a água estivesse alta demais para navegar. A-Sheng perguntou se contava como adulto ou criança. Xiao Man já procurava o dinheiro na manga e disse que não tentasse ocupar um assento a mais só porque conheciam a barqueira. A-Zhao deu primeiro uma remada e esperou o barco se firmar na corrente antes de dizer que ele pagaria três wen e a mãe, cinco.

Xiaoman abriu na palma as oito moedas, e A-Zhao as recebeu como de costume. Nenhuma das duas disse que não precisava pagar, como se dispensar aquele pouco pudesse tornar a viagem inteira mais leve. As moedas caíram no tubo de bambu. A-Sheng olhou para trás, para os telhados da margem oeste, e disse que então a avó materna também morava num lugar assim. A-Zhao olhou para ele, sem saber que tipo de lugar imaginara pelo caminho, e respondeu apenas que naquela casa também era preciso acender a luz e fazer comida.

Perto da margem, o vento levantou a ponta da manga de Xiaoman. Ela ergueu a mão para baixá-la, deixando ver uma marca vermelha junto à base do dedo, onde a linha tinha roçado ao descosturar. A-Zhao de repente teve vontade de pegar também a bolsa dela. Lembrou-se, porém, de como poucos dias antes abraçara a lanterna sem deixar espaço para ninguém ajudar. Acabou apenas firmando a prancha de desembarque, para que Xiaoman pudesse levar o menino pela mão até a margem. Xiaoman atravessou, hesitou um instante no passo e olhou para trás, para a placa de bronze da travessia da família He, sem perguntar nada.

A oficina do mestre Mo ficava na esquina, logo na entrada da rua. A-Zhao mostrou o caminho aos dois. O menino continuava querendo carregar o instrumento pequeno nas costas e andava como se empunhasse uma bandeira. Dessa vez, Xiaoman não o acusou logo de se exibir. Só estendeu a mão por trás uma vez para proteger o canto da bolsa. Combinaram que, depois de entregar o instrumento, seguiriam para a loja de lanternas. A-Zhao não foi com eles até o fim. Ainda tinha de buscar na margem leste a carga de verduras que a esperava.

Na segunda vez em que passou diante da casa dos Qin, tia Xu já tinha voltado à banca de peixes. Nos fundos, só se ouvia o ruído leve da tampa da panela. Vovó Qin passava um pano na mesma tigela e se levantou assim que viu A-Zhao de mãos vazias. A-Zhao disse que já tinham chegado, que tinham ido entregar o instrumento e viriam dali a pouco. A velha perguntou se devia ir ao encontro deles. Mal acabou de falar, a água subiu de repente na panela. Ela se virou às pressas para tirar a tampa, sem conseguir levar a pergunta adiante.

Azhao deixou que ela decidisse se iria ou não recebê-los. Empurrou de volta um graveto torto ao lado do fogão e saiu. Ao chegar à boca do beco, viu Xiaoman dobrar a esquina de mãos dadas com A Sheng. O menino ainda perguntava por que não podia tocar no instrumento grande da loja. Xiaoman respondeu baixinho, mas, quando ergueu a cabeça e viu a porta da loja da família, desacelerou o passo. Azhao se afastou para o lado e passou o remo para trás do ombro, deixando no caminho estreito espaço para duas pessoas andarem lado a lado.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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