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Um volume nas mãos

Romance de viagens e relações humanas em ambientação chinesa antiga

A peça nova de Nantang

酷无极 · Criação com IA · 10949 caracteres · Cerca de 11 minutos

Ao chegar a Lanting no dia vinte e quatro do segundo mês, A-Zhao foi primeiro ver se tinham mudado o cartaz do lado de fora do Salão Sul. Ao lado dos caracteres vermelhos antigos, havia duas folhas novas anunciando a apresentação experimental de um trecho de A Travessia das Flores de Junco. Embaixo, uma linha de caracteres pequenos pedia que, em dia de chuva, o público entrasse pela porta lateral. Ela lia devagar e ficou um bom tempo diante da porta. Só quando alguém que carregava um banco pediu passagem é que recuou para junto da parede, abraçada ao baú.

Gao Man a reconheceu e perguntou quantos dias ia ficar daquela vez. A-Zhao disse que, se houvesse trabalho, queria ficar até o fim daquela temporada. Gao Man não disse se aceitava. Só apontou para o pátio dos fundos e disse que Xiaoman estava estendendo as roupas de baixo. O varal estava mais baixo que da última vez, e um pano molhado pendia à altura da testa de A-Zhao. Ela quase esbarrou nele e ergueu a mão a tempo de afastá-lo. Já não achava que precisava esperar à porta só porque ninguém tinha vindo recebê-la. Contornou os panos e foi direto procurar aquelas mãos conhecidas.

Ao vê-la, Qin Xiaoman perguntou primeiro se o barco tinha sido vendido. A-Zhao disse que ainda estava lá e que Ding Quan cuidava dele. Queria contar tudo o que acontecera em casa naqueles dias, mas Xiaoman apontou para um monte de laços de roupa dentro do balde e pediu que a ajudasse a tirá-los, porque não podiam ficar muito tempo de molho. A-Zhao arregaçou as mangas e meteu as mãos na água, mais fria do que imaginava. Mal puxou os laços, um deles se enrolou no seu pulso. As duas falavam enquanto torciam o tecido. A notícia de que o antigo noivado já não existia e a de que o papel fora queimado acabaram caindo juntas no barulho da água de meio balde.

Xiaoman ouviu até o fim, sem agradecer nem sorrir. Azhao pensou que ela não tivesse ouvido direito e repetiu que a senhora Qin não pretendia usar o papel para reivindicar parentesco com ninguém. Xiaoman torceu a tira até tirar a última água e respondeu que sua pergunta nunca fora a quem aquele papel podia vinculá-la, mas se a mãe estava disposta a largar de vez aquela ideia. Azhao lembrou dos dias em que a senhora Qin hesitara junto ao fogão, mas não disse por ela que já tinha deixado tudo para trás. Disse só que era aquilo que ouvira. O resto caberia à própria Xiaoman perguntar.

“Também não pedi que ela queimasse o papel para eu ver”, disse Xiaoman.

A-Zhao sentiu de repente um frio por dentro. Durante a viagem, em nenhum momento tratara a notícia como um mérito seu. Só ao chegar ali percebeu que ainda esperava, em segredo, ouvir que dessa vez estava bom. Mas a fala de Xiaoman não era dirigida a ela. A mulher sacudiu a roupa molhada, aparou o vento com os ombros e as costas e a estendeu com cuidado sobre a vara de bambu. A-Zhao correu para segurar a outra ponta, e só juntas impediram que a barra varresse de novo o chão enlameado. Por um momento, aquele gesto afastou o frio que ela acabara de sentir.

À tarde, Gao Shoucheng mostrou a ela dois trajes curtos e perguntou em quantos dias ficariam prontos. A-Zhao quis saber primeiro quem os vestiria. Gao Shoucheng apontou para o pátio: um dos atores acabara de acordar, e o outro engolia meia tigela de comida. Ela teria de esperar que os dois tivessem tempo de provar as peças. Não dava para simplesmente dobrá-las sobre a mesa e dar um prazo. Um tanto impaciente, o diretor perguntou por que tanto trabalho para mudar uma faixa de lugar e pôr um remendo. Xiaoman não falou por A-Zhao nem a apressou em nome de Gao Shoucheng. Pegou uma das peças, comparou de dois jeitos e só então disse que era mesmo preciso provar.

A-Zhao pediu dois dias, a doze wen por peça pequena. Gao Man virou a tabuinha de madeira e respondeu que uma das roupas só precisava de um remendo, e que não dava para cobrar como se fosse uma reforma inteira. As duas foram apontando na roupa o que queriam dizer, e por um instante A-Zhao sentiu que voltavam a tratá-la como novata a quem podiam mandar fazer qualquer coisa. O rosto esquentou. Depois que esclareceram os valores, doze por uma peça, oito pela outra, mais dois para lavar as tiras, ela enfim assentiu devagar. Havia ali mais que a boa vontade de dizer «se você quiser ficar, eu aceito». Quando o trabalho chegava às mãos de alguém, até cada trecho de costura tinha seu preço.

Assim que Gao Man se afastou, Xiaoman perguntou se o dinheiro que A-Zhao trouxera para a viagem ainda dava. A-Zhao ia dizer que sim, mas se lembrou dos oito wéns por noite na hospedaria e admitiu que, se continuasse fazendo só aquele pouco da última vez, não poderia ficar muito tempo. Xiaoman disse que da outra vez ela passara a maior parte do tempo observando os outros e só podia receber por aqueles pequenos serviços. Se desse conta do trabalho, haveria mais, naturalmente, mas ela não podia contar de antemão com bons ganhos por um serviço ainda por fazer. Dito isso, empurrou para perto dela um saco de linhas soltas e pediu que aproveitasse para desembaraçá-las, pois ia usá-las dali a pouco.

A-Zhao olhou para o saco e, de repente, não quis pegá-lo de imediato. Xiaoman esperou, como se não se desse conta do que acabara de dizer. A-Zhao acabou pegando o saco, mas só separou as cores de que precisariam naquela noite e deixou o resto onde estava. Xiaoman mexeu de leve a sobrancelha e ficou calada. Esperou que A-Zhao fosse provar as roupas curtas e só então desembaraçou ela mesma os fios restantes, um por um, depressa e de muito mau humor.

Foi então que Gu Ming entrou e perguntou se a senhorita He tinha trazido para ele meio bolinho seco daquela vez. A-Zhao apertou o embrulho dos bolinhos de feijão e disse que dessa vez não, que ele parasse de tirar vantagem de histórias antigas. Ao lado dela, A-Sheng logo estendeu a mão para proteger o embrulho da mãe e disse que tudo aquilo era da família deles. Gu Ming olhou para o rosto de cada um, riu e se deu por vencido. Depois tirou da manga uma pequena matraca recém-comprada e fez questão de só mostrá-la ao menino, sem deixar que ele a pegasse. A-Sheng saiu correndo atrás dele, e em instantes já tinham alvoroçado metade do pátio.

A-Zhao ficou olhando, e a fita métrica afrouxou um trecho na sua mão. Xiaoman passou ao lado dela e disse baixinho que terminasse primeiro de tirar as medidas. Quem ia vestir a roupa ainda esperava para comer a segunda tigela de arroz. Quando A-Zhao olhou para trás, o ator já estava mesmo impaciente, e ela continuava parada, segurando a ponta da fita. Tratou de admitir o erro, embora por dentro achasse injusto. Até um instante antes, todo mundo estava olhando para o menino. Por que só ela tinha sido chamada de volta ao trabalho?

À noite, no ensaio de um ato, Azhao sentou-se pela primeira vez nos bastidores para ver como a companhia inteira transformava metade do pátio num rio. O barco eram só duas tábuas, a margem era uma corda de cânhamo estendida de lado. Gu Ming podia cruzá-la com uma passada, mas no palco tinha de atravessar aquela água invisível. Asheng quis correr por trás, mas Xiaoman o agarrou pela gola e o fez ficar junto ao baú de figurinos. O menino disse que não tinha feito barulho. A mãe apontou para os pés dele. Por mais leve que pisasse, as tábuas falariam por ele.

Na primeira cena, o letrado Liu viajava com pressa. Cantava que faria o percurso num barco leve em um dia, mas A-Heng o deteve para perguntar primeiro pela passagem. Gu Ming queria dar ares de rico ao letrado pobre e demorou um tempão apalpando a manga. Lu Heniang, impaciente de esperar, estendeu a mão e foi revistar logo a outra. Alguns ajudantes que assistiam ao ensaio caíram na risada. Gu Ming improvisou um verso, dizendo que seu dinheiro estava num sonho, e Lu Heniang respondeu que então pedisse ao barco do sonho que o levasse. Isso não estava no libreto antigo. Gao Shoucheng primeiro franziu a testa junto à cortina, mas ouviu as risadas e acabou deixando a cena seguir.

Azhao riu até se curvar, ainda com a agulha entre os dedos. Quando se deu conta do perigo, guardou-a depressa no estojo. De repente, entendeu um pouco por que Xiaoman, mesmo sabendo que longe de casa passaria fome e teria de costurar, não aceitava dizer que só estava ali por falta de opção. Diante do palco, as pessoas eram de carne e osso. Em cima dele, podiam ser outras. Até quando alguém cobrava o preço da travessia, a cobrança podia arrancar uma alegria diferente da que se conhecia no embarcadouro.

Mas, passada a alegria, assim que a personagem da mãe entrou, fez-se silêncio junto ao palco. Xiao Man cantava num tom mais baixo que de costume, e seu “não vá” não era feito só de raiva. A Zhao olhou a sombra atrás de seus ombros e de repente se lembrou das mãos da senhora Qin, caladas diante do balcão. Logo, porém, achou que não devia encaixar as duas uma na outra todas as vezes. A mãe da peça não era a vendedora de lanternas de Liuwan, e a mulher diante dela também não era apenas a filha que alguém perdera por dezesseis anos.

Na primeira apresentação do dia vinte e seis, vieram umas quarenta pessoas, algumas sentadas, outras de pé. As moedas de cobre caíam no tubo de dinheiro, e o som parecia mais animado que o movimento habitual do pátio. Gao Shoucheng reconhecia os clientes conhecidos na porta e logo se virava para carregar um banco que estava sem uma perna. A-Zhao pensara que, depois do início, poderia se sentar tranquilamente para costurar. Não imaginara que bastaria um chamado na frente do palco para alguém, nos bastidores, precisar entregar uma tira, guardar um adorno ou receber uma toalha molhada. Depois de apenas duas idas e vindas ajudando, o novelo já dera um nó dentro de sua manga.

Ao fim da apresentação, a gola de Lu Heniang estava encharcada, mais pesada até que roupa deixada de molho o dia inteiro. A-Zhao estendeu a mão para pendurar a peça, mas Lu Heniang primeiro pediu que não deixasse os enfeites pesados sobre a dobra. Depois foi beber água. Ainda estava na metade quando a chamaram para agradecer ao público, e ela passou a tigela de volta. A-Zhao a pegou, um tanto irritada, achando que todo mundo tinha as mãos mais livres que as suas. Quando pensou em retrucar, Lu Heniang já sorria e fazia uma reverência do outro lado da cortina, sem deixar transparecer no rosto o menor cansaço.

Na hora de contar o dinheiro, ficou ainda mais claro que casa cheia não era lucro líquido. O dono do espaço descontou primeiro o aluguel, os bancos emprestados tinham de ser devolvidos, e era preciso reservar dinheiro para esticar de novo a pele do tambor de Cai Heng. Gu Ming quis um adiantamento, dizendo que precisava mandar dinheiro ao irmão mais novo para comprar livros para a primavera. Gao Shoucheng pediu que esperasse mais duas apresentações. Gao Man anotava ali do lado. O número na tabuinha não crescia sozinho só porque alguém tinha uma urgência em casa. A Zhao ficou de pé, ouvindo, e aos poucos decidiu deixar para outra vez a pergunta que ia fazer sobre tecido novo.

Choveu dois dias no fim do mês, e a apresentação passou para o salão estreito. Com a boca de cena reduzida, a manga longa de A-Heng raspava na coluna lateral, e Lu Heniang teve de encurtar um dos giros, visivelmente contrariada. A-Zhao a viu aborrecida e de início pensou que ela temesse perder alguns aplausos. Só ao levar os figurinos descobriu que havia farpas na coluna e que, se ela fizesse o movimento de sempre, o punho da manga podia mesmo enganchar e rasgar. Enrolou um retalho no canto da coluna, sem decidir por ela como fazer cada movimento. Ao menos havia um problema a menos ali.

Lu Heniang percebeu e ergueu o queixo na direção dela como agradecimento. O gesto foi mínimo, mas a alegria de A-Zhao não era algo que se pudesse acomodar de imediato, como receber duas moedas. Ela tampouco queria admitir que se parecia com Gu Ming e os outros que desejavam palcos maiores: todos esperavam que seu trabalho fosse visto, ainda que só um pouco. À noite, de volta à hospedaria, contou os vinte e dois wen que lhe cabiam pelos dois dias, sem usá-los para comprar algo chamativo para si.

No segundo dia do terceiro mês, Gao Shoucheng disse que aquela temporada iria até o dia nove. Se o tempo piorasse de novo, encerrariam sem prolongar. Assim que ouviu a data, A-Zhao foi perguntar pelo barco de volta. Já conseguia achar sozinha um lugar para se sentar no Salão Sul e sabia, quando chamavam A-Zhao, que era com ela. Na próxima vez que saísse, já não iria como na primeira, perguntando por um único nome. Mas, quando Xiaoman falou em cruzar o rio, ela ainda não deixou que ninguém marcasse a data por ela.

Naquela noite, A-Zhao abriu a folha de rascunho com as medidas. Ao lado das palavras “roupa azul-acinzentada”, havia três novas anotações curtas: quem veste, provar primeiro, perguntar antes de descosturar. Achou que sua letra parecia de criança e quis passar tudo a limpo. Pensou um pouco e resolveu ficar com o papel velho. Lá fora, Gu Ming ensaiava a fala de despedida de Liu Sheng. Devia prometer à barqueira que voltaria um dia, mas de repente travou e perguntou, por cima da parede, se alguém ouvira onde ele tinha parado de cantar. Lu Heniang respondeu do outro lado que ele parara na parte em que queria, mais uma vez, pagar menos pela travessia. A-Zhao baixou a cabeça e riu. O último pingo de tinta saiu torto, e ela deixou como estava.

· Fim do capítulo ·

Este livro foi escrito com auxílio de IA, desenvolvido a partir de 《春江花月夜》 (Rio, flores e lua numa noite de primavera), de Zhang Ruoxu, e do conto original 《借灯还舟》 (Pedir uma lamparina emprestada, devolver um barco). Personagens, geografia e acontecimentos são fictícios; a obra não é uma tradução ou adaptação do poema original, nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Três rodadas de negociação pelo barco
  2. A placa de cobre e a travessia vazia
  3. Aquela janela da loja de lanternas
  4. O caminho dentro da caixa de bambu
  5. Dois trechos pelo rio
  6. Quem desmancha as costuras
  7. A roupa no palco e a roupa no corpo
  8. O lugar vazio ao lado do tambor
  9. A lanterna volta ao balcão
  10. O nome de quem já formou família
  11. A peça nova de Nantang
  12. A passagem de barco do nono dia
  13. Um talo de cebolinha porta adentro
  14. Quem fecha a janela à noite
  15. Dois chi de pano ainda por desmanchar
  16. Os quinze dias do aluguel do barco
  17. O barulho de uma tábua da cama
  18. Abrir a cava mais uma vez
  19. A cheia do quarto mês
  20. Um ato inteiro visto da plateia
  21. A segunda refeição em Lanting
  22. O preço dos sapatinhos
  23. O vento passa por trás da cortina
  24. A feira do templo foi transferida para a beira do rio
  25. A peça retomada
  26. Os pontos que fazem alguém ficar
  27. Duas placas na proa
  28. O menino deve ir junto?
  29. Recusar aquela passagem de barco
  30. A velha peça reensaiada no calor
  31. Só responder depois de ver
  32. Entregar o traje em mãos
  33. Uma porta aberta no balcão das lanternas
  34. Atravessar o rio mais uma vez
  35. O último fio da temporada de outono
  36. A lanterna não precisa ficar acesa a noite inteira

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