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Um volume nas mãos

Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga

O quarto que ela ainda não desocupou

酷无极 · Criação com IA · 10797 caracteres · Cerca de 12 minutos

No dia em que Du Yin voltou para a cidade, A-Sui tentava mudar a cama de lugar. A madeira guardada embaixo travava os pés da cama. Ela fez força por um bom tempo e só conseguiu deslocar a cabeceira meio chi para o lado. A esteira de Huangdou ficou espremida contra a parede. Ele quis ir lamber a tigela, mas não conseguiu se virar e soltou um ganido de cortar o coração. Du Yin pousou a trouxa de pano, ajudou a segurar a borda da cama e perguntou se ela ainda pensava em voltar para a montanha.

A-Sui não respondeu e perguntou primeiro onde estava Xu Shen. Quando soube que ele tinha ficado na barraca de chá, arregalou os olhos e perguntou se a porta ainda não estava pronta. Du Yin contou da chuva da noite anterior e, quando chegou à parte em que serraram a travessa comprida, não olhou para ela. Sem pensar, A-Sui começou a contar com o dedo as cabeças dos pregos na beirada da cama. Ao chegar ao sétimo, esqueceu de repente onde ficava o sexto. Seus seiscentos wen eram para socorrer o filho. Agora estavam serrados em pedaços, debaixo dos pés dos outros.

“Na montanha tem tábua velha de sobra”, disse ela. Du Yin respondeu que na noite anterior aquelas tábuas não estavam ali. A Sui deixou o assunto e foi buscar água para limpar a trouxa. Sentada na beira da cama torta, viu Du Yin abrir o pano da trouxa e estendê-lo para secar. O tecido cor de raiz de lótus que estava dentro continuava macio, como se nem tivesse passado por uma chuva. Teve vontade de xingar Xu Shen por desperdiçar as coisas, mas temia que Du Yin concordasse. Quando Xu Shen voltou, já no escuro, ela só perguntou se ele estava com frio.

Os sapatos dele já estavam quase secos, mas o atrito tinha esfolado o peito do pé. A-Sui pôs a água quente ao lado dos pés dele e, ao vê-lo se encolher um pouco quando tirou as meias, pôs-se a procurar remédio. Só depois de procurar por um bom tempo se lembrou de que em casa só havia as ervas que aplicava no joelho, e que não podia pôr qualquer coisa numa ferida. Fechou a cesta de costura, pegou um pano velho limpo e esperou que ele mesmo lavasse os pés para deixá-lo ao alcance de sua mão.

Xu Shen disse que já tinham desimpedido o pavilhão e que, quando a madeira secasse ao sol, faria uma plataforma baixa com o que ainda servia. Asui perguntou quanto tinham perdido, mas ele não soube dizer. Desde o começo, a porta nem sequer tinha comprador certo para pagar pelo trabalho. Agora, contar só a madeira seria como tratar os cuidados de um inverno inteiro como se não valessem nada. Por fim, disse que ainda não tinha feito as contas. Asui ficou um bom tempo em silêncio e não voltou a tirar a bolsa de dinheiro.

No terceiro dia, o tempo abriu, e A-Sui pegou a primeira carroça para a barraca de chá, sem contar ao filho. Tirou os dezesseis wen da ida e da volta dos seus duzentos e trinta. Levou um pouco de nabo seco, mas deixou os sapatos de palha. Quando a carroça chegou à ponte de pedra, o joelho começou a doer. Uma mulher sentada na frente se afastou um pouco para que ela pudesse esticar a perna. A-Sui achou feio ficar assim e aguentou a dor por um tempo, até que enfim esticou a perna.

Ela desceu diante da casa de chá, e o carroceiro perguntou se devia guardar um lugar para a volta. Dessa vez, ela disse que sim. Logo lembrou que antes nunca respondia assim ao sair. Sempre temia que aparecesse mais alguma coisa para fazer em casa, que alguém chegasse para uma visita ou que, se voltasse tarde, não houvesse água para pôr no fogo. O carroceiro fez um risco no varal da carroça e disse que ela voltasse na hora wei, entre uma e três da tarde. O risco era bem curto, mas ela sentiu que aquele pedaço do dia tinha sido, enfim, reservado primeiro para si.

Dentro do galpão havia cheiro de madeira úmida posta para secar. O estrado baixo recém-feito estava montado só pela metade; vários cortes de serra já tinham sido arredondados com a plaina. Embaixo, pedras redondas haviam dado lugar a pequenos blocos quadrados de madeira, e ele não se movia ao ser empurrado. Liu Lan escolhia folhas de mostarda ao lado, com pólen amarelo no dorso das mãos. Ao ver A-Sui, não se levantou; mandou que procurasse um banco e se sentasse. A voz não era ríspida, mas também já não era como antes, quando, sem esperar que ela falasse, perguntava se queria algo quente.

A-Sui passou os olhos pelo fogão. A panela era pequena e a boca do fogão estava livre. Disse que, já que Daxiu tinha ido embora, ela podia voltar por um tempo, ferver água de manhã para Liu Lan e ir para casa ao meio-dia, sem precisar ficar de vigia à noite. Falou com toda a facilidade, como se os quatro li da bifurcação fossem logo ali e o joelho nunca tivesse doído. Liu Lan perguntou o que faria com o quarto na cidade. A-Sui disse que podia entregá-lo, economizar dinheiro e voltar a morar na montanha como antes.

“O que você quer consertar pelo seu filho?” Liu Lan juntou as raízes das verduras num montinho. A-Sui se apressou em dizer que não era só por ele. Ela também gostava de ficar naquele quiosque. Antes não eram as duas que cuidavam de tudo juntas? Por que tinham de chamar justamente Da Xiu? Liu Lan parou o que fazia e ergueu a cabeça para encará-la. “Ela tem lugar aqui. Fui eu que fiz questão de ir chamá-la.”

A-Sui baixou a cabeça e cutucou os resíduos de remédio entre os dedos. Antes de vir, preparara muitas coisas para dizer. Faltava gente à família Liu; a ela faltava uma maneira digna de voltar. Se estivesse disposta a se esforçar, certamente poderia recuperar alguma coisa. Só agora, com Liu Lan olhando para ela daquele jeito, entendeu que mais uma vez organizara as dificuldades alheias como um caminho pelo qual pretendia voltar.

Junto ao fogão havia uma velha concha de cabaça que ela dera de presente muitos anos antes. Um pedaço do cabo havia quebrado, e Liu Lan o amarrara com fio de cânhamo e ainda usava a concha. Asui a pegou para olhar. Pensou em dizer que era hora de comprar outra, mas lembrou que naquela época era ela quem sempre dizia a Liu Lan que não se importasse por ser velha. Depois de adoecer, Xu Bo mal conseguia comer. As duas sentavam diante do fogão para cozinhar um mingau ralo, acrescentando uma concha de água em três vezes. Liu Lan aquecia junto ao fogo as mãos rachadas de frio e, mesmo sentindo dor, não dizia nada. Tinham vivido bons momentos juntas, mas aquele pouco de bem não podia continuar servindo de ingrediente para a panela de hoje.

Do lado de fora apareceu uma velha de bengala. Liu Lan reconheceu a senhora da família Sun, que morava ali perto, e a convidou a sentar. Ao ouvir que A-Sui morava na cidade, a velha primeiro disse que ela tinha sorte. Depois comentou que agora não havia quem cuidasse da barraca de chá e que nada era mais adequado para uma pessoa idosa que ficar sentada tomando conta do fogo. O filho ficaria tranquilo, e a amiga economizaria o dinheiro de contratar alguém. A-Sui já tinha dito quase a mesma coisa, mas, dessa vez, ao ouvir aquilo da boca de outra pessoa, a dor no joelho de repente ficou aguda.

A velha foi embora assim que acabou de falar, sem ter carregado para ela sequer uma chaleira de água. A-Sui acompanhou-a com os olhos e se lembrou da banquinha de Gu Qin à beira do rio, na cidade. Quando Gu Qin se ocupava e não tinha tempo de conversar, A-Sui podia andar sozinha um trecho pela ponte, ver um barco com o porão cheio de alho verde e sentir o cheiro de comida sendo feita na popa. Aquilo não servia para ninguém, mas, pela primeira vez, ela podia ver essas coisas sem ter de esperar alguém voltar para casa.

Asui estendeu a mão para pegar as verduras, e Liu Lan lhe passou outro maço sem tentar impedi-la de novo. Ficaram um tempo lado a lado escolhendo as folhas. Asui quebrou dois talos por engano, e Liu Lan disse para pôr os mais duros do outro lado, que não precisava jogar tudo fora. Enfim falaram de plantar verduras, de por que na cidade sempre cortavam as folhas da cebolinha rente à raiz, e de como a bengala da senhora Sun assustava mais que ela própria, erguida tão alto ao cruzar a ponte que parecia querer afugentar até os peixes do rio. Asui soltou uma risada. Quando acabou de rir, seus olhos estavam úmidos.

Ela tirou de dentro da roupa a chave reserva e a pôs no cesto de bambu aos pés de Liu Lan. Tinha pegado a chave emprestada para descansar quando voltasse à terra natal. Já não tentou explicar como ela acabara servindo para guardar madeira. Liu Lan a pegou, limpou um pouco de sumo das verduras, tornou a pendurá-la na cintura e continuou a escolher as folhas. Ouviu-se ali um novo tilintar, de dois dentes de metal batendo um no outro, e as duas ouviram.

«No dia em que você abriu, deixei gente entrar sem perguntar», disse Asui. «Também não perguntei à Daxiu como ela cobrava pela sopa.» Liu Lan fez um «hum» e, depois de um instante, disse que o que mais a irritava nem eram aqueles poucos wen da sopa. Era ter ouvido Asui dizer em nome de Xu Shen que levaria quatro ou cinco dias e ter acreditado também. Daí em diante, toda vez que perguntava, parecia que estava pressionando, e ela acabara no papel de quem se recusava a ajudar.

A-Sui quis dizer em defesa do filho que para ele também era difícil. Já tinha mexido os lábios quando viu a marca recente de serra na borda da plataforma baixa. Engoliu as palavras e disse que, dali a uns dias, iria ver Daxiu. Não ia tentar convencê-la a voltar, só perguntar se a panela estava bem assentada. Liu Lan não disse se estava ou não. Levantou-se para lavar as verduras e perguntou se ela queria arroz com verduras no almoço. Eram cinco wen a tigela, com pedacinhos da carne que comprara na véspera.

Asui ia dizer que tinha trazido comida para a viagem, mas acabou tirando cinco moedas e pondo-as no canto do balcão. Liu Lan recolheu o dinheiro e serviu o arroz como servia aos outros, sem catar pedaços de carne para pôr na tigela dela. A primeira bocada desceu meio áspera. Na segunda, sentiu o doce das folhas de mostarda e, quando deu por si, tinha raspado até os grãos grudados na borda da tigela.

Na carroça de volta, ela encontrou de novo a mulher que tinha dado espaço para suas pernas, e as duas se ajeitaram para dar lugar uma à outra. A mulher perguntou se o que A Sui tinha ido fazer na montanha tinha dado certo. A Sui pensou um pouco e disse que tinha comido uma tigela de arroz. A mulher riu por ela ter ido tão longe só para comer, e A Sui riu também. Era mesmo um pouco longe. A luz do sol entrou por uma fresta da cobertura da carroça e caiu nos joelhos das duas. Dessa vez, ela primeiro esticou as pernas e depois cedeu metade do pano que servia de almofada a outra pessoa.

Antes de voltar ao beco, ela deu uma volta até o portão da cidade para olhar as mudas recém-chegadas. O vendedor envolvera as pequenas raízes das hortaliças em barro úmido. As folhas verdes se apertavam umas contra as outras, como se a terra do campo tivesse encolhido até caber em dois cestos. Ela perguntou o preço, mas não comprou. Ainda não encontrara em casa um lugar para os vasos, e tampouco podia ocupar toda a luz junto à janela, reservada para Huangdou tomar sol. Apenas apanhou uma folha de cebolinha caída no chão, esfregou-a entre os dedos e cheirou. Lembrou que, na manhã seguinte, poderia ir devagar até o rio, sem precisar tratar nem uma folha de cebolinha como algo que tivesse de agarrar a qualquer custo.

Fang Guiniang estava mostrando o quartinho do lado norte a um novo interessado. Ao vê-la entrar, apressou-se em dizer que ainda não tinha alugado o quarto do sul. A-Sui guardou a bolsinha e disse que por enquanto ficaria com ele. Fang Guiniang disse que, se depois de amanhã ela quisesse sair de novo, teriam de conversar outra vez. A-Sui assentiu e esperou até que ela terminasse de negociar o preço do quarto do norte, para só então perguntar se o seu aluguel continuaria o mesmo depois do quarto mês.

Ao ouvir aquilo no fim da tarde, Xu Shen ergueu a cabeça de repente. A mãe dobrou o casaco velho que lavara durante o dia e disse que a cama devia voltar à posição de antes. Ela não ia mais se mudar. Ele largou as ferramentas, pronto para dizer que iria buscá-la onde quer que ela morasse, mas A-Sui se adiantou e pediu que tirasse toda a madeira de debaixo da cama. Até Huangdou tinha dificuldade para se virar ali.

Os dois puseram a cama de volta, com a luz da janela batendo bem na cabeceira. Asui pôs o cesto de costura na mesinha e deixou as sandálias de palha que lhe tinham devolvido junto à porta, sem escondê-las de novo sob a cama. Xu Shen perguntou o que ela queria jantar. Ela disse que queria a sopa quente de macarrão com ovo da outra vez e que não adiantava diluir o mingau frio de casa e dar a refeição por feita. Ele ficou um instante surpreso, saiu para comprar o macarrão e voltou trazendo também dois ovos.

A mãe comeu bem devagar. O filho não perguntou aonde ela tinha ido durante o dia. Ela também não contou o que se falara no quiosque de chá. Seria pôr nas mãos dele mais um fardo. Huangdou sentiu o cheiro de ovo e ergueu a cabeça. A-Sui separou um pedacinho de ovo cozido com a parte de trás dos pauzinhos e deu a ele. Esperou o cachorro engolir e só então terminou sua metade, uma mordida de cada vez. A lamparina junto à janela estava apagada. A luz do fim da tarde ainda bastava para ela ver uma florzinha azul no fundo da tigela.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Aquele quarto voltado para o sul
  2. A neve chega à soleira
  3. A terceira tigela
  4. Antes que a porta caísse
  5. Os caracteres pretos na encruzilhada
  6. O portão da cidade à tarde
  7. O fogo emprestado no pátio
  8. Uma porta de igual valor
  9. À porta, ninguém bateu ao meio-dia
  10. A placa de estrada virou de lado
  11. Um par de mãos junto à cesta de costura
  12. A água da neve se infiltra na parede sul
  13. Um lugar na viagem de volta à terra natal
  14. A divisão que passou despercebida na régua
  15. A mão sob a porta
  16. As palavras que a mãe disse por ele
  17. Madeira para portas empilhada no abrigo de chá
  18. O atalho por onde a carroça não passa
  19. De quem é o quintal?
  20. Uma carga no ombro, duas cordas
  21. Daxiu levou a panela embora
  22. O banco em que ninguém se sentou
  23. Quem deu a casa velha em promessa?
  24. Pôr a porta nova na chuva
  25. O quarto que ela ainda não desocupou
  26. O pente deixado na carpintaria
  27. Na placa não há nome de ninguém
  28. Um quarto aquecido não é remédio
  29. Aquele convite antes do Festival do Barco-Dragão
  30. O cesto de costura que não foi vendido
  31. O abrigo de chá ganhou seus próprios dias
  32. O acerto da madeira na montanha
  33. De quem receber a carga
  34. Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro
  35. Consertar a porta para quem vive ali
  36. Até onde o sol já baixou

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