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Um volume nas mãos

Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga

Pôr a porta nova na chuva

酷无极 · Criação com IA · 10463 caracteres · Cerca de 11 minutos

Na tarde do segundo dia do terceiro mês, o primeiro ruído veio da vala diante do abrigo de chá. Os pingos bateram na terra seca de um inverno inteiro. De início veio um sopro perfumado, que logo virou cheiro forte de terra molhada. Liu Lan puxou para dentro a mesa de chá que ficava à entrada. Um dos pés ficou preso num tufo de capim encharcado, e ela não conseguiu arrastá-la. Quando baixou a cabeça, viu que a esteira de palha que servia de base para a madeira escorregara para dentro da vala rasa e barrava metade da água.

Xu Shen estava na casa de chá, abrindo encaixes no batente com o formão. Como naqueles dias não conseguia pegar serviços de um dia inteiro, passou a sair cedo e voltar tarde para adiantar aquela porta. Pensava que, antes que os Chang viessem cobrar uma resposta sobre a casa velha, pelo menos conseguiria desocupar o espaço de tia Liu. Os dois lados do batente já estavam unidos, mas faltava um rasgo comprido na travessa superior. Ele afiara a broca bem cedo e varrera as aparas para um monte ali perto, que pretendia queimar ao anoitecer.

Liu Lan chamou Xu Shen duas vezes até ele ouvir. Os dois arrastaram a esteira de palha para fora da água, espalhando por todo o chão as lascas de madeira que ela guardava. A água da vala voltou a correr, mas o chão junto ao pé do abrigo era mais baixo do que a vala, e a água foi se infiltrando devagar rente ao solo. Ele se apressou em erguer a madeira com calços. Primeiro achou a pedra mais plana e a pôs sob o batente. Com o batente mais alto sobre a pedra, a travessa passou a avançar diante da porta da cozinha interna.

Chen Sheng se adiantara para a feira de primavera e naquele mês saíra alguns dias antes do costume. Ao chegar ao quiosque de chá, o pano oleado que envolvia a caixa de agulhas estava encharcado, mas por dentro tudo seguia seco. Atrás dele vinham duas pessoas com cestos de verduras na vara de carga. De um dos cestos escorria água à altura do ombro, e as folhas caíam uma a uma pelo caminho. Chen Sheng quis pedir a Xu Shen que abrisse espaço. Xu Shen continuou de cabeça baixa, movendo a madeira, e não respondeu. Liu Lan os chamou logo para dentro, dizendo que o chá ainda estava quente.

Na parte externa da casa de chá, só cabiam quatro pessoas sentadas bem juntas ao lado da pilha de madeira. Chen Sheng desatou as duas cordas novas e pendurou a caixa de agulhas e o pacote de sal em travessas diferentes, sem pôr o cesto molhado dos outros sobre a mercadoria. A princípio, quis apoiar tudo na porta nova de Xu Shen. Estendeu a mão até a borda da porta, viu os encaixes que ainda não tinham sido acertados e recuou.

Du Yin chegou em seguida. Tinha ido a Shikou só para entregar amostras a um comprador de tecidos. À tarde, na entrada da feira, encontrou Zhou Tong e o ajudante, que tinham acabado de recolher um saquinho de ervas medicinais e também voltavam à cidade. Seguiram juntos. Como Zhou Tong não conseguia apertar bem o cabo do guarda-chuva, deixou o ajudante carregar o saco e foi com o velho guarda-chuva de papel oleado na mão esquerda. O vento ergueu a cobertura e a chuva molhou metade de uma de suas mangas.

Ao entrar na barraca, ela viu primeiro Xu Shen e sentiu um breve alívio. Logo viu a madeira espalhada pelo chão e ergueu a trouxa de pano contra o peito. Xu Shen estendeu a mão para pegá-la. Ela não se esquivou, só avisou primeiro que ali dentro havia amostras de tecido e que não podiam sujar de lama. Ele não achou nenhuma superfície livre e alta o bastante. Por fim, tirou de lá a própria bolsa de ferramentas e liberou a estreita prateleira comprida junto à parede.

Zhou Tong sentou no banco com a mão direita envolta num pano fino. A ferida era antiga e só tinha inchado um pouco mais com o tempo chuvoso. Sem olhar para Xu Shen, pôs o guarda-chuva de pé junto aos pés. Xu Shen não se atreveu a perguntar muito. Serviu uma tigela de chá e deixou-a à esquerda dele. Zhou Tong se afastou um pouco para dar lugar a outro carregador de verduras, e algumas gotas de chá quente respingaram. Xu Shen correu para enxugá-las, como se também tivesse culpa por aquelas gotas.

O vento virou entre as três e as cinco da tarde. Um canto da cobertura de palha contra a chuva, do lado sul, se ergueu, e a água entrou de lado. O cesto de verduras do lado de fora escureceu pela metade num instante. Liu Lan foi puxar a corda da cobertura, e Xu Shen tentou arrastar o batente de lado para abrir espaço para ela. A parte de baixo já tinha absorvido água e pesava mais do que se podia imaginar. Ele ergueu um canto, e o outro deslizou na direção dos pés das pessoas. Chen Sheng foi ajudar, mas os dois acabaram tendo de pôr o batente no chão outra vez.

Liu Lan alimentara o fogo do fogão à tarde, pensando em ferver uma segunda panela de água. O vento empurrou a fumaça de volta, e os materiais da porta também bloqueavam a entrada da cozinha interna; a fumaça passou pela fresta da porta entreaberta para o abrigo externo, fazendo tossir ao mesmo tempo os dois carregadores de verduras. Alguém disse que era preciso atiçar o fogo; outro sugeriu tapar a janela externa. Liu Lan, porém, primeiro cobriu as chamas com lenha úmida, afastou a panela e mandou todos desobstruírem a boca do fogão.

Já não havia chá quente. No vento, restava só um cheiro de fumaça úmida. Xu Shen viu Zhou Tong com a mão direita sobre o joelho, abrindo-a e fechando-a devagar. Quis fazê-lo passar para o cômodo de dentro, mas a longa travessa estava bem no meio da entrada. Passou a mão pelo veio. Era a boa madeira que a mãe comprara por seiscentos wen, ainda seca ao toque, e seu peito se apertou de repente.

“Levante por esta ponta”, disse ele. Chen Sheng tentou acompanhar o movimento, mas o topo do batente bateu na viga. Por mais que girassem a peça, ela não passava. O anexo do quiosque mal tinha espaço para fazer a porta. Nunca tivera espaço para girar a porta pronta e fazê-la passar ao redor das pessoas. Xu Shen tentou puxar a cavilha de madeira do encaixe. Tinha batido na ponta para firmá-la na montagem de teste, e agora ela não saía. O martelo estava na bolsa de ferramentas que ele havia trazido, presa debaixo da esteira de palha molhada.

Du Yin tirou o embrulho de tecido da prateleira e o abraçou. Disse a Xu Shen que procurasse primeiro as ferramentas e deixasse as coisas dela por sua conta. Ele se abaixou. A água já passara da borda dos sapatos. Encontrou pelo tato o serrote e também a broca comprida que acabara de comprar. Primeiro enxugou a broca e a enfiou de volta na bolsa. Só então percebeu que ainda estava escolhendo o que proteger primeiro da água, e suas mãos pararam.

Chegou mais um homem do lado de fora do abrigo, um velho vendedor de tofu que empurrava um carrinho de mão. A roda atolou à beira da vala. Ele não se atreveu a entrar, com medo de esbarrar nas mercadorias alheias. Ficou só agachado na chuva, vigiando um pedaço de pano. Liu Lan o viu e saiu pisando na água para segurar o carrinho. Dentro do abrigo, todos se levantaram, mas ninguém tinha um pedaço de chão seco para ceder. Xu Shen olhou para a porta pela metade e, de repente, encostou os dentes da serra no meio da travessa nova e comprida.

Na primeira passada, a serra nem entrou. Para aquele trecho, ele havia escolhido a parte de veio mais regular, pensando em reservá-la para onde as pessoas sempre poriam a mão. Agora, os dentes da serra estavam bem sobre a marca que ele tinha feito a carvão. O corte saiu torto. Ele abriu outro sulco, e Chen Sheng estendeu a mão para segurar a outra ponta. Os dois estavam com as mãos molhadas. Chen Sheng tirou do ombro uma corda nova, amarrou bem a peça à coluna e se afastou para dar espaço a Xu Shen para fazer força.

A serragem grudava na frente da roupa como uma camada finíssima de arroz molhado. Quando Xu Shen chegou à metade do corte, o batente perdeu o apoio e começou a ceder. Ele parou de serrar, pediu à pessoa que carregava as verduras que não chegasse com o pé ali e procurou firmar primeiro o batente com um calço curto de madeira. A pessoa pôs o cesto no chão, agachou-se e o ajudou a enfiar o calço. Ninguém mandou que se apressasse nem elogiou sua disposição de sacrificar madeira boa. A chuva fazia tanto barulho que cortava qualquer palavra.

Quando a travessa comprida se partiu, a ponta que bateu no chão estremeceu. Por instinto, Zhou Tong foi segurá-la, mas recolheu a mão direita assim que a ergueu. O ajudante correu para aparar a peça por ele. Xu Shen viu com os próprios olhos aquele gesto de recolher a mão e sentiu abrir-se um vazio dentro de si. Arrastou a travessa cortada para o lado de fora, desmontou uma por uma as tábuas da porta, que ainda não estavam bem unidas, e as apoiou nos bancos baixos que antes sustentavam a madeira. Juntou-as num tampo acima do chão molhado.

Agora a passagem enfim dava para uma pessoa passar de lado. Liu Lan abriu a porta da cozinha de dentro e deixou Zhou Tong e o velho entrarem primeiro. O fogo já se apagara e só puderam pegar um pano velho cada um para enxugar o rosto. Chen Sheng e o ajudante voltaram a amarrar as cordas da cobertura e arrastaram a carroça e os cestos para o anexo. Du Yin pôs as amostras de tecido sobre a plataforma de madeira recém-montada. Havia uma faixa úmida na parte de baixo do embrulho, mas, por sorte, a água não tinha chegado lá dentro.

Ao escurecer, Daxiu passou carregando uma panela vazia na vara. Tinha levado uma panela de sopa do sul da cidade à casa da família e pretendia passar direto pelo abrigo de chá. Só parou porque viu o carrinho de tofu torto lá fora. Liu Lan chamou-a para se abrigar da chuva. Daxiu primeiro apalpou a panela, cujo fundo ainda estava morno. Depois olhou para o fogão apagado e disse que era melhor deixá-lo assim pelo resto do dia. Não usou a própria panela para provar que dava para acender o fogo.

O velho ergueu o pano. Um canto do tofu havia se desfeito com a batida. Com pena de deixar os pedaços escorrerem para a lama, tirou uma tigela e serviu meia tigela para cada um. Daxiu tirou da bolsa um pouco de sal que carregava consigo para misturar ao tofu. Pegou-o entre os dedos e pôs um pouquinho na borda de cada tigela. O tofu já estava quase frio e o sal era grosso, mas todos comeram em silêncio.

À noite, a chuva amainou um pouco, e eles decidiram esperar o dia clarear para sair. Não havia roupa de cama no quiosque, que tampouco podia virar hospedaria. Liu Lan foi buscar em casa duas colchas velhas e as deu primeiro ao velho e à mulher dos cestos de verduras, que tremiam de frio. Xu Shen recolheu todas as aparas e se sentou junto à travessa cortada. Du Yin ficou na outra ponta, protegendo o embrulho de tecido com a manga. Entre os dois estava o corte recém-aberto pela serra.

Ela perguntou se ele machucara os dedos. Ele abriu a mão para mostrar: havia apenas um calo antigo avermelhado pela pressão da corda. Ela assentiu, apoiou os pés na travessa do banquinho e não disse mais nada. Ele pensou em mencionar o meio pacote de damascos secos, mas achou que falar nisso naquele momento pareceria uma tentativa de conseguir um pouco de calor naquela noite chuvosa e também se calou. Do lado de fora do abrigo, o coaxar esparso das rãs se misturava à água da vala; já havia ali um ar de primavera.

Depois que amanheceu, Zhou Tong foi o primeiro a sair. Xu Shen levou-lhe o guarda-chuva. Zhou Tong o recebeu com a mão esquerda, parou à porta e olhou para a porta nova, agora desmontada e transformada numa plataforma de madeira. Disse que, se no dia anterior não tivessem desimpedido a passagem, nem o cômodo de dentro teria servido. Xu Shen sentiu algo se mover por dentro e quase perguntou outra vez se devia levar à botica a madeira boa que sobrara. A pergunta já lhe chegava à boca quando Zhou Tong se virou para o ajudante, dizendo que fosse devagar e não encostasse o pacote de remédios na roupa molhada.

Chen Sheng desatou suas cordas, estendeu-as para secar e só depois as guardou. Uma estava impregnada de lama que não saía na lavagem. Ele não pôs a perda na conta de Xu Shen, nem disse que aquilo saldava algum favor. Perguntou se Xu Shen voltava à cidade. Xu Shen disse que ainda precisava limpar as aparas. Chen Sheng então ergueu a caixa de agulhas na vara de carga e foi na frente com Du Yin. Antes de sair, ela olhou para os sapatos dele. As laterais tinham esbranquiçado de tanto ficar molhadas, e ele recolheu os pés para a sombra do pavilhão.

Depois que todos se dispersaram, Liu Lan contou sozinha os bancos em que ainda dava para sentar. Xu Shen quis deixar a plataforma recém-montada. Ela fez força sobre a madeira e disse que primeiro era preciso firmá-la por baixo, depois arredondar as quinas com a plaina. Continuou sem perguntar quanto valia aquela porta. Ele tirou a plaina, baixou a cabeça para aparar a primeira farpa levantada e percebeu que enfim tinha um trabalho que ainda naquele dia saberia se dava para terminar.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Aquele quarto voltado para o sul
  2. A neve chega à soleira
  3. A terceira tigela
  4. Antes que a porta caísse
  5. Os caracteres pretos na encruzilhada
  6. O portão da cidade à tarde
  7. O fogo emprestado no pátio
  8. Uma porta de igual valor
  9. À porta, ninguém bateu ao meio-dia
  10. A placa de estrada virou de lado
  11. Um par de mãos junto à cesta de costura
  12. A água da neve se infiltra na parede sul
  13. Um lugar na viagem de volta à terra natal
  14. A divisão que passou despercebida na régua
  15. A mão sob a porta
  16. As palavras que a mãe disse por ele
  17. Madeira para portas empilhada no abrigo de chá
  18. O atalho por onde a carroça não passa
  19. De quem é o quintal?
  20. Uma carga no ombro, duas cordas
  21. Daxiu levou a panela embora
  22. O banco em que ninguém se sentou
  23. Quem deu a casa velha em promessa?
  24. Pôr a porta nova na chuva
  25. O quarto que ela ainda não desocupou
  26. O pente deixado na carpintaria
  27. Na placa não há nome de ninguém
  28. Um quarto aquecido não é remédio
  29. Aquele convite antes do Festival do Barco-Dragão
  30. O cesto de costura que não foi vendido
  31. O abrigo de chá ganhou seus próprios dias
  32. O acerto da madeira na montanha
  33. De quem receber a carga
  34. Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro
  35. Consertar a porta para quem vive ali
  36. Até onde o sol já baixou

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