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Um volume nas mãos

Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga

Quem deu a casa velha em promessa?

酷无极 · Criação com IA · 9864 caracteres · Cerca de 11 minutos

No dia vinte e sete do segundo mês, A-Sui voltou à casa antiga e foi primeiro apalpar a vareta atrás do fogão. Continuava ali, mas no canto da parede havia alguns cocôs de rato. Bateu no chão com a vareta. A casa vazia devolveu três batidas, e Huangdou não estava ali para responder com o ruído familiar das patas. Xu Shen pôs a bolsa que carregava sobre a mesa. Quis perguntar por que ela não trouxera o cachorro, mas, ao ver a expressão dela, foi primeiro abrir a janela.

A porta que ele tinha consertado no inverno ainda abria e fechava sem dificuldade. O apoio inferior tinha ganhado uma marca rasa e brilhante de tanto roçar, e por baixo estava seco, sem rachadura nova. Asui empurrou a porta duas vezes, como se quisesse saber se aquela noite tinha mesmo passado. Xu Shen viu o risco antigo que ainda havia na folha da porta e lembrou como antes achava que, bastando pôr um bom pedaço de madeira no lugar, podia manter tudo bem protegido.

Uma camada fina de poeira se acumulara sob a janela do cômodo dos fundos. A mãe entrou, enrolou a esteira da velha cama de bambu, bateu nela para tirar o pó e se apoiou na beirada da mesa para descansar os joelhos. Já tinha pensado em tudo havia tempo. Quando a família Chang viesse colher brotos de bambu na montanha na primavera, poderia ficar no cômodo principal. Ela reservaria para si um canto nos fundos, para guardar as coisas velhas que não queria levar embora. Assim, ninguém teria de vigiar a casa por ela a vida inteira, e ela não precisaria pedir uma cama emprestada à família Liu de improviso cada vez que subisse a montanha.

Xu Shen pegou a vassoura para tirar as teias de aranha debaixo do vigamento. Ao erguer o braço, de repente não teve coragem de olhar para a viga transversal. Era de madeira velha de sófora. Quando ainda vivia, o pai a tinha arrastado com esforço desde o pé da encosta e ajustado ao lado da antiga madeira de abeto, que estava mole, no cômodo dos fundos. A viga sustentava metade do telhado. Tirar só aquela peça não faria a casa toda desabar de imediato, mas era preciso escorar primeiro a armação do telhado e pôr no lugar outra peça comprida e reta o bastante. O trabalho não acabava ao puxar a viga e levá-la embora.

A mãe sempre soubera dessas coisas. Apontou com uma vara e disse que a ponta da viga tinha restos de cal branca, de quando chamara um pedreiro para reparar a parede, dois anos antes. Xu Shen fez um som de assentimento. A vassoura raspou na viga e um pouco de pó entrou no olho dele. Ficou piscando um bom tempo. A mãe perguntou se era serragem de novo e estendeu a mão para soprar. Ele virou o rosto e disse que bastava esfregar um pouco.

Antes do meio-dia, o casal Chang chegou carregando dois cestos de brotos de bambu secos. A esposa já vira Asui na cidade, mas era a primeira vez que o marido entrava na casa. Antes de pousar os cestos, fez questão de perguntar se o chão suportaria o peso. Não tinham muitas coisas: uma panelinha, dois conjuntos de cobertas e três feixes de tiras finas para tecer cestos. Pretendiam ficar só quatro meses e voltar a Dongling depois da temporada de brotos; não queriam pagar por uma casa que ficaria vazia o resto do ano.

A-Sui levou os dois para ver o fogão e o poço. Mostrou-lhes o apoio de madeira recém-trocado sob a porta e disse que era firme até com vento e neve. A senhora Chang passou a mão na peça e elogiou a habilidade de Xu Shen. Ele estava à porta. O elogio era igual aos de antes, mas dessa vez foi como se uma pedrinha tivesse entrado no sapato. Ficou calado e foi buscar no pátio a água que deixara ao sol.

O aluguel acertado era de quarenta moedas por mês, pelo cômodo principal com o fogão. O cômodo dos fundos ficava de fora, sem guardar brotos de bambu úmidos nem acender fogo ali. O marido da senhora Chang achou um pouco caro e disse que podia limpar a valeta para ela. A-Sui não aceitou de imediato. Agachou-se e apontou a valeta rasa que levava aos canteiros. Explicou onde as folhas caídas a tinham entupido no ano anterior, com mais minúcia do que ao falar do aluguel. A senhora Chang entendeu e brincou que o apego dela era àquelas poucas cebolinhas, não às quarenta moedas.

Xu Shen ia sugerir à mãe que cobrasse um pouco menos. Chegou a mexer os lábios, mas lembrou da viga que tinha prometido sem consultá-la. Ao lado da mesa, ergueu o balde, e a borda bateu de leve num dos pés. A senhora Chang quis ajudar. Ele fez que não com a cabeça, mas um pouco de água se espalhou no chão que a mãe acabara de limpar.

De repente, alguém chamou pelo mestre Xu do lado de fora. Era o ajudante do senhor Hong, com cordas e um serrote nas costas e os pés cheios de terra amarela. Sorrindo, perguntou se, já que os encontrara ali, podia tirar logo as medidas da viga. Não vinha cobrar a dívida. O senhor Hong tinha outro cliente que precisava consertar um abrigo e queria saber as dimensões para preparar a madeira de substituição. Só faltava Xu Shen marcar o dia de buscar a peça.

Asui ergueu a cabeça. «Que viga?» O ajudante apontou para o cômodo dos fundos, sem perceber que havia algo errado ali. Disse que o mestre Xu tinha feito uma troca por uma peça comprida, no valor de cento e sessenta wen, e que o senhor Hong queria justamente aquela velha viga de sófora. É claro que, para levar a viga antiga, primeiro seria preciso pôr um apoio novo. A mão de obra seria acertada à parte. Ninguém ia deixar o telhado dela suspenso no ar. Falou com toda a desenvoltura, já levando a mão à régua que trazia às costas.

O casal Chang se afastou um pouco. Xu Shen falou primeiro, dizendo que naquele dia não haveria medição e que ele mesmo iria a Shikou conversar dali a alguns dias. Só então o ajudante reparou na expressão de Asui e se apressou em recolher a régua. Explicou ainda que a madeira já tinha sido entregue, mas o patrão não ia buscar a viga naquele dia. A cada frase dele, o cômodo ficava um pouco mais quieto, até que nem a tira de bambu nas mãos da senhora Chang fez mais barulho.

Asui esperou que todos se afastassem e fechou a porta sem bater. Perguntou a Xu Shen se a madeira da porta não tinha sido comprada com aquelas seiscentas moedas dela. Ele disse que faltava uma peça comprida e que o preço dessa era à parte. Ela perguntou então se, trocando aquela viga por madeira nova, ainda teria de gastar para pôr outra viga na casa. Ele disse que podia fazer o trabalho ele mesmo. Ela olhou para ele e de repente soltou uma risada breve, mais difícil de suportar do que se tivesse se enfurecido.

“Essa porta que você está fazendo para a botica, eles encomendaram?”, perguntou ela. Xu Shen não ergueu a cabeça. Ela pegou o pano para limpar a água derramada, mas seus dedos não conseguiam alisar uma das pontas. Entregara aqueles seiscentos wen com tanta presteza, como uma mãe que, depois de o filho quebrar uma tigela, compra outra com o próprio dinheiro e acredita poder recompor a família tal como era. Mas o dinheiro não trouxera de volta o que havia antes; até a viga da velha casa fora levada.

Xu Shen disse que tinha achado que dali em diante ninguém mais moraria naquela casa. A-Sui bateu o pano na mesa e o apertou com a mão. “Quem disse que ninguém mais vai morar aqui?” O casal Chang ainda esperava do lado de fora, e ele sabia que suas palavras tinham posto por terra até o aluguel daqueles quatro meses. A mãe levou a mão ao cabelo. O grampo velho junto à têmpora tremia entre seus dedos. Ele já a vira com medo, mas poucas vezes a vira tão humilhada.

Ela perguntou ao filho se, só por tê-la levado para a cidade, nem um pedaço de madeira daquela casa ainda lhe pertencia. Xu Shen quis dizer que de jeito nenhum, mas o que já tinha feito dizia outra coisa antes dele. Respondeu que podia devolver os cento e sessenta wen à família Hong. A mãe perguntou onde estava o dinheiro. Ele não respondeu. A madeira nova tinha rachado e não podia ser devolvida no estado em que viera. Os seiscentos wen continuavam misturados àqueles encaixes e ranhuras que já não dava para desfazer, no pavilhão da família Liu.

A mulher da família Chang tossiu baixinho do lado de fora. A-Sui abriu a porta e disse ao casal que naquele dia não acertariam o aluguel e que conversariam dali a alguns dias. Os dois não se zangaram nem tentaram convencer mãe e filho. Disseram apenas que, se até o oitavo dia do terceiro mês não houvesse resposta certa, procurariam outro lugar. Tornaram a erguer os cestos de brotos no ombro e, antes de partir, ainda afastaram com os pés as folhas caídas na valeta rasa do lado de fora.

Xu Shen foi ao pátio procurar duas varas para escorar provisoriamente a viga e mostrar à mãe que podia retirá-la sem comprometer o telhado. Ela o deteve e mandou que devolvesse as varas ao lugar. O gesto fez com que ele se lembrasse de repente das cunhas soltas da farmácia. Sempre que queria provar depressa que era capaz de fazer um bom trabalho, esse impulso chegava muito antes da ideia de perguntar se a outra pessoa queria que ele o fizesse.

A mãe disse que ficaria ali naquela noite e que ele voltasse primeiro para a cidade. Ele se recusou, com medo de que o joelho dela sofresse com o frio. Ela então estendeu a colcha que acabara de arejar ao sol, tirou da bolsa a chaleirinha e dispôs tudo para ele ver. Aquilo não era uma caverna desabitada. Ela passara décadas sentada diante daquele fogão, sabia por onde o vento entrava e como correr o ferrolho por dentro. Xu Shen continuou sentado no cômodo da frente. Depois que escureceu, fez meia panela de macarrão, e os dois dividiram a comida sem insistir para que o outro comesse mais um bocado.

À noite, cães latiram ao pé da montanha, e Asui se virou na cama uma vez. Sentado à porta, Xu Shen desbastava um pedaço de madeira curta que não servia para nada. Quando o chão já estava cheio de aparas finas, enfim disse que pagaria a dívida com os Hong e deixaria a viga no lugar. Do outro lado da cortina, a mãe perguntou se ele estava prometendo de novo algo que ainda não tinha pensado direito. Ele apertou a madeira. O fio da lâmina deixou um risco branco na palma. Só depois de um instante guardou a faca na bainha.

No dia seguinte, A Sui voltou à cidade com ele mesmo assim. Não lhe deu a chave do quarto dos fundos nem voltou a falar de como eram as coisas quando Xu Bo estava vivo. Ao passarem pelo pavilhão de chá, nenhum dos dois entrou. De longe, Xu Shen viu que a travessa da porta nova ainda estava exposta do lado de fora, e só havia uma pessoa sentada ali tomando chá. A Sui se segurou na beirada da carroça e viu Liu Lan se curvar para pôr mais água na xícara do freguês, com o rosto voltado para o outro lado.

De volta à Travessa da Sófora do Sul, ela foi primeiro procurar Fang Guiniang. Xu Shen ficou à porta da loja de arroz, ouvindo a mãe dizer que queria devolver a casa mais cedo, que ainda dava para morar na casa da serra e perguntar se podia receber de volta um pouco do aluguel pelos dias que faltavam. Fang Guiniang mexeu no ábaco, procurou a data que anotara ao receber o dinheiro e disse que o aluguel ia até o nono dia do quarto mês. Se alguém assumisse a casa agora, podia devolver o valor dos dias que ficassem livres. Se ninguém aparecesse, ela já havia reservado a casa por três meses e não podia devolver tudo o que recebera.

A mãe disse que não precisava encerrar o aluguel naquele instante, que só estava perguntando. Xu Shen pôs um pé para dentro, querendo dizer que não iam devolver o quarto, mas a mãe já tinha se levantado, com o rosto cinzento de cansaço. Ele sabia que, se desse mais uma resposta por ela naquele momento, só aumentaria sua vontade de ir embora. Seguiu-a de volta ao quarto e viu quando ela tirou debaixo da cama um par de sandálias de palha e as pôs sob a janela, junto à chave da casa antiga.

Naquela noite, a porta da casa na cidade ficou bem fechada. Alguém passou do lado de fora da janela com uma carga ao ombro, e o gancho da vara raspou a parede num ruído comprido. Xu Shen ouviu tudo acordado e, pela primeira vez, não se levantou para testar o ferrolho. Sabia que o sono da mãe não estava atrás daquele pedaço de madeira. Sabia também que ainda não tinha encontrado um jeito que dispensasse os outros de lhe ceder passagem.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Aquele quarto voltado para o sul
  2. A neve chega à soleira
  3. A terceira tigela
  4. Antes que a porta caísse
  5. Os caracteres pretos na encruzilhada
  6. O portão da cidade à tarde
  7. O fogo emprestado no pátio
  8. Uma porta de igual valor
  9. À porta, ninguém bateu ao meio-dia
  10. A placa de estrada virou de lado
  11. Um par de mãos junto à cesta de costura
  12. A água da neve se infiltra na parede sul
  13. Um lugar na viagem de volta à terra natal
  14. A divisão que passou despercebida na régua
  15. A mão sob a porta
  16. As palavras que a mãe disse por ele
  17. Madeira para portas empilhada no abrigo de chá
  18. O atalho por onde a carroça não passa
  19. De quem é o quintal?
  20. Uma carga no ombro, duas cordas
  21. Daxiu levou a panela embora
  22. O banco em que ninguém se sentou
  23. Quem deu a casa velha em promessa?
  24. Pôr a porta nova na chuva
  25. O quarto que ela ainda não desocupou
  26. O pente deixado na carpintaria
  27. Na placa não há nome de ninguém
  28. Um quarto aquecido não é remédio
  29. Aquele convite antes do Festival do Barco-Dragão
  30. O cesto de costura que não foi vendido
  31. O abrigo de chá ganhou seus próprios dias
  32. O acerto da madeira na montanha
  33. De quem receber a carga
  34. Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro
  35. Consertar a porta para quem vive ali
  36. Até onde o sol já baixou

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