Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga
A placa de estrada virou de lado
酷无极 · Criação com IA · 10561 caracteres · Cerca de 11 minutos
Chen Sheng passou nove noites no corredor dos fundos da botica. De início, só queria esperar que aparecesse alguma carga de passagem para voltar. Zhou Tong precisava desocupar o pátio dos fundos e deixou que ele passasse alguns dias carregando caixotes. O pagamento rendia tanto quanto uma viagem longa, e ele ainda economizava com a pousada. Depois de três dias de serviço, fez mais dois. Mais tarde, ficou outros três esperando as talas de bambu e as miudezas que levaria de volta por encomenda. Durante o dia, vigiava a mercadoria no pátio sem cobrar a mais. Ao sentir a bolsa de dinheiro engrossar, achou que enfim os doze potes quebrados já não eram a única coisa que restava daquela viagem.
Na nona noite, chegou também o recado que o irmão mais velho mandara por alguém. Queria saber se Qinglan ficava tão longe que até para fazer meia-volta era preciso um mês. Chen Sheng leu e foi arrumar a bagagem. Tinha pensado em ficar trabalhando na cidade por mais tempo, mas à noite sempre ouvia a conversa e as risadas dos empregados da farmácia, muito mais à vontade ali do que ele, que ainda precisava esperar que lhe dissessem qual caixa pôr primeiro. Se todos os dias fossem assim, só estaria trocando a carga que levava por outra que nem era sua.
Ao sair da cidade, levou de volta dois feixes de tiras de bambu, um saco de pano limpo e um pacote de miudezas que alguém lhe confiara, com destinatário e nome certos. Zhou Tong disse que talvez a botica reformasse o pátio dos fundos mais adiante. Se um bom carpinteiro quisesse assumir o trabalho, seria uma preocupação a menos para ele. Chen Sheng logo mencionou Xu Shen e se pôs a elogiá-lo, até contar como a porta daquela noite tinha fechado com um empurrãozinho. Zhou Tong assentiu, sem dizer de imediato que dali em diante confiaria toda a mercadoria a ele. Chen Sheng, porém, já tinha guardado um pouco mais de esperança para a próxima viagem.
No dia dezoito, o céu abriu. A neve à beira da estrada tinha baixado, mas a lama sob os pés dificultava a caminhada. A cada poça, Chen Sheng trocava a mão com que firmava o cesto, para não afundar na lama o sapato que acabara de remendar. Comprara um rolinho de fio de cânhamo, mas só dera mais duas voltas no ponto em que a corda velha da vara se rompera. Pensou que, quando voltasse a Gaopu, o irmão mais velho saberia trançar melhor do que ele. Tinha perguntado quanto custava um conjunto novo de cordas. Depois de ouvir o preço, guardou o dinheiro.
Ao chegar à bifurcação da sófora, Chen Sheng viu que a placa nova não estava sob a árvore. Primeiro achou que tinha errado o caminho. Parou e olhou para os dois lados. Os pinheiros chineses, a boca da vala e os velhos sulcos de roda estavam todos lá. A placa estava junto à casinha de Zhou Qiao, a uns dez passos da bifurcação, bem aprumada sobre uma pedra, com todos os caracteres intactos. Para quem vinha do norte pela estrada principal, dava para vê-la de longe. Já para quem viesse tateando pelo leste, como ele naquela noite, o canto do beiral da casinha a escondia por completo.
Zhou Qiao estava sentado junto à porta, descascando um rabanete. Ao vê-lo, até sorriu e perguntou se dessa vez ele não tinha ido parar na casa dos Lin. Chen Sheng não o acusou de imediato. Primeiro perguntou como a placa tinha vindo parar ali. Zhou Qiao disse que a neve derretida tinha virado um lamaçal debaixo da árvore e que o pé da placa já estava quase de molho, por isso a mudara para um lugar mais seco. Depois perguntou se, com a placa tão bem colocada, ainda tinha de fazer os outros andarem pelos olhos de alguém.
Chen Sheng pousou a carga e baixou a cabeça para olhar a pedra. A placa estava inteira, e Zhou Qiao também não tinha escrito outro nome nela. Acusá-lo de fazer os fregueses darem a volta de propósito seria como cobrar dele por algo que não tinha acontecido. Mas bastava recuar alguns passos para voltar a ficar sem saber qual dos caminhos a seta indicava. A cada vez que ele mudava de lugar, Zhou Qiao apontava com a faquinha de descascar rabanete e dizia que tomasse cuidado com a quina da tábua, para não bater na perna de algum freguês.
Os dois foram até a bifurcação. Zhou Qiao disse que a sede do distrito ficava obviamente para o sul. Quem é que ia subir a montanha? Chen Sheng quis responder que ele mesmo tinha ido, mas, antes de abrir a boca, sentiu que só estaria expondo outra vez a própria tolice. Disse apenas que, numa noite de neve, as pessoas talvez não enxergassem tão bem quanto de dia. Zhou Qiao ergueu os olhos para o céu e disse que, se neste mundo fosse preciso pendurar outra placa a cada noite de neve, até a madeira se cansaria antes da gente.
Ele falou como se fosse brincadeira, mas Chen Sheng não riu. A diferença de uns dez passos, mesmo que tivesse de refazê-los com a carga no ombro, talvez nem merecesse ser guardada na memória. Mas ficar de pé na encruzilhada sem conseguir distinguir o caminho era algo que uma tigela de água quente não compensava. Ele foi à casa do chefe local Tao, querendo ouvir uma decisão de alguém cuja palavra tivesse mais peso que a sua. Tao estava carregando palha com outra pessoa e, depois de ouvi-lo, só mandou que primeiro desimpedisse a passagem.
Quando acabaram de carregar a palha, o velho bateu na roupa para tirar a poeira e disse que a placa da estrada oficial tinha quebrado primeiro. Já tinha mandado o recado e ainda não sabia quando viriam pôr outra. Quanto à tábua nova, tinham sido eles que a penduraram, então deviam conhecer o caminho melhor que os outros. Se escrevessem errado, só por se chamar Tao ele não podia responder pelos pés de todos os carregadores. Restou a Chen Sheng pedir um martelo emprestado. O velho emprestou e, na saída, ainda lhe pôs na mão dois pregos usados.
Quando voltou à bifurcação, a mulher de Zhou Qiao estava saindo com uma bacia de água quente. Ao cair na neve, a água levantou primeiro uma nuvem branca, depois deixou à mostra a lama preta. Ela disse aos dois que parassem de ficar só conversando. Se ainda não dava para firmar a placa, que ao menos nivelassem com a pá o lugar por onde os fregueses passavam. Zhou Qiao se levantou de má vontade, e Chen Sheng pegou uma pá curta. Os dois abriram uma valeta estreita para a água da neve escoar junto às raízes. Assim, enfim puderam tirar a placa de sob o beiral da venda e fincá-la de volta num ponto de onde se viam os dois caminhos.
O prego era velho e entortou na primeira martelada. Zhou Qiao estendeu a mão para firmar a placa e resmungou que Chen Sheng só sabia escolher serviço caro para os outros fazerem. Com o rosto quente, Chen Sheng endireitou o prego e tornou a baixar o martelo. De repente, pensou que, se aquele homem só quisesse prejudicar os outros, não precisaria estar ali com a mão ao alcance do martelo. Zhou Qiao tinha suas vantagens em mudar a placa, e a ajuda que dava agora também era sincera. As coisas não eram tão simples que, ao ouvir um latido no escuro, já se pudesse saber qual porta ia se abrir.
Depois de erguerem a placa, Zhou Qiao apontou para trás da casa e disse que, para ir mesmo até Shikou, por ali se economizavam três li. Seu carrinho já passara muitas vezes, e ninguém havia caído. Chen Sheng olhou naquela direção e só viu um trecho de encosta mais seco, oculto adiante por um bambuzal. Lembrou-se de que Xu Shen falara da estrada principal, mas também não queria parecer, daquela vez, alguém que só sabia reconhecer letras grandes. Andou um pequeno trecho naquela direção, pisando numa larga marca de roda.
Era o rastro da pequena carroça leve que os Zhou usavam para levar verduras, sem toras compridas arrastando atrás. Chen Sheng não foi olhar além da curva. Ficou ali pensando e concluiu que, se havia marcas de roda, o caminho devia servir. Voltou dizendo que, da próxima vez que tivesse tempo, passaria por ali. Ao ouvir isso, Zhou Qiao mostrou a primeira satisfação sincera do dia. Disse que era melhor vir tomar um gole de água do que dar outra volta por metade da montanha.
Chen Sheng não acrescentou o atalho à placa. Não tinha carvão à mão e tampouco ousava escrever de qualquer jeito. Ele mesmo ainda não tinha percorrido o trajeto inteiro. Quando mostrasse a placa a Xu Shen, haveria alguém capaz de escrever aquelas poucas palavras levando tudo em conta. Guardou na cabeça o que faltava fazer, como quem deixa para amanhã um pequeno trabalho de precisão. Quanto ao tempo em que se poderia passar por ali e ao peso que se poderia carregar, ainda não tinha pensado nisso a fundo.
Ao chegar à barraca de chá, viu um par de sapatos molhados pendurado do lado de fora. O coração logo lhe afundou, pois achou que mais alguém tinha errado o caminho e estava lá dentro passando frio. Mas encontrou um vendedor de papel de uns trinta anos, calçado com sapatos de palha um pouco pequenos, torcendo as meias. O homem disse que não tinha errado o caminho, só escorregara e caíra na água ao cruzar a ponte de pedra. Como agora não havia ninguém na casa dos Lin, saiu perguntando pelo caminho até saber que podia descansar ali um pouco.
As sandálias tinham sido deixadas por Asui. Chen Sheng reconheceu o fio de azul clarinho na borda. Na noite de neve, também usara emprestado um par de trama grossa e fechada como aquele. Quis dizer ao vendedor de figuras de papel quem as tinha trançado, mas achou que assim o homem se sentiria na obrigação de agradecer a alguém que nem estava ali. Disse apenas que elas esquentavam bem e que ele podia ficar à vontade. O vendedor perguntou se dava para comprar um pouco de comida quente na casa de chá. Chen Sheng empurrou a porta do fogão. Estava trancada, e ele só pôde balançar a cabeça.
Os dois tiraram os bolinhos frios que traziam, e Chen Sheng repartiu um pedacinho de conserva do próprio embrulho. O vendedor de papel comeu depressa e, assim que acabou, perguntou para onde a família Lin tinha se mudado e se ainda voltaria a abrir a porta. Chen Sheng disse que tinham ido para a cidade, que a senhora acompanhara o filho, que era marceneiro e estava fazendo uma boa porta para a farmácia Ji’an. Quando disse “uma boa porta”, falou como se já a tivesse visto firme no lugar.
Na verdade, ele só tinha visto um desenho da porta e algumas peças de madeira ainda por serrar. Mas, se naquele momento nem se dispusesse a dizer que era uma boa porta, seria como se não guardasse no coração o calor que lhe tinham emprestado naquela noite. Acrescentou que Xu Shen se recusava a usar madeira úmida e que na noite anterior passara um bom tempo na oficina afiando o formão. O vendedor de figuras de papel assentiu. Disse que era raro encontrar alguém de mão firme e que, da próxima vez que precisasse de um conserto em casa, também iria procurá-lo.
Chen Sheng sentiu um calor no peito. Além de carregar mercadoria, podia trazer um cliente para pedir um serviço a quem o tinha ajudado. Ainda não sabia quanto daquela afirmação os outros tomariam como testemunho de alguém que tinha visto com os próprios olhos. Também não tinha pensado de que lado ficaria se mais tarde alguma parte não se mostrasse firme. Por ora, o vendedor de figuras de papel já tinha torcido as meias, e os dois se separaram à entrada do abrigo, cada qual tornando a carregar nas costas suas coisas velhas ainda molhadas.
Da próxima encruzilhada ainda faltava um bom trecho até Gaopu. Enquanto andava, Chen Sheng se lembrou da pedra de afiar agulhas que o irmão pedira que trouxesse e só então percebeu que, ocupado na cidade cuidando da caixa alheia, esquecera de comprá-la. Parou um instante e olhou para trás. Era longe demais para voltar, e teria de pagar mais uma noite. Tinha no bolso pelo menos tanto dinheiro quanto na ida, mas o esquecimento continuava ali. Pôr uma placa no lugar não apagava um item da lista do que faltava fazer.
Sentou-se numa pedra e deu mais uma volta apertada no ponto em que a corda se rompera. Enfiou os dedos na bolsa e sentiu as moedas lisas que recebera na farmácia. Já não tinha o medo da primeira noite, de tocar nas moedas e só sentir os potes quebrados. Retirou a mão e, ao erguer a vara de carga, experimentou primeiro o equilíbrio, sem pressa de jogar o maior peso sobre o próprio ombro. Os sulcos da pequena carroça dos Zhou ainda estavam na sua cabeça. Quando chegasse a Gaopu, pretendia contar ao irmão que agora conhecia mais de um caminho.
Ao entardecer, Zhou Qiao recolheu as cascas de nabo e, ao passar pela placa agora aprumada, não resistiu a pisar de leve na terra solta. A placa não caiu. Viu um espaço em branco debaixo das palavras que indicavam a sede do distrito e pensou que, mais adiante, seria bom acrescentar uma linha dizendo que vendia comida em casa. Quem estivesse com fome de verdade precisava saber onde encontrar o que comer. Deixou a placa onde estava e só puxou um pouco para fora a lamparina da entrada, iluminando a valeta recém-aberta junto à bifurcação. Um fio de água continuava a correr por ali, sem esperar ninguém acabar o serviço.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.
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