Romance de ambientação chinesa antiga sobre ofícios e vida social
A primavera que os fregueses querem
酷无极 · Criação com IA · 10953 caracteres · Cerca de 12 minutos
Dez dias antes da Feira das Flores da Primavera, Yao Liao levou Gu Qing a uma casa de associações no Mercado Leste para ver as mesas. O salão receberia uma mostra de amostras durante três dias. Os comerciantes de tecidos, as lojas de pós perfumados e os fabricantes de toucados e faixas tinham cada qual seu canto. A loja Liaohuaji tinha alugado duas mesas perto da janela. Antes, Gu Qing achava que essas mostras seriam como o jantar tardio de Ano-Novo dos Wen, com gente sentada e gente comendo. Ao chegar, viu que as mesas mereciam mais atenção que os convidados. A posição das cortinas, a luz da janela e o lado por onde entrava o vento mudavam diante de quem as flores primeiro ganhavam brilho.
Ela vestia uma saia azul desbotada de tantas lavagens. Tinha virado o remendo da manga velha para dentro, mas, ao pegar a caixa, ainda deixou um pedaço à mostra. Uma mulher encarregada do chá barrou sua passagem junto à porta e perguntou por que ela viera até ali se as entregas deviam ficar no pátio dos fundos. Gu Qing disse que estava com a dona Yao. Só depois de se virar para olhar Yao Liao é que a mulher deu passagem. Gu Qing cruzou a soleira abraçada à caixa. Uma quina bateu com um ruído surdo, e a vergonha caiu no peito como uma gota de óleo quente.
Ao ouvir o baque, Yao Liao voltou para ajudar a sustentar o fundo da caixa. Sem falar mal da mulher que acabara de barrá-la, só pediu que tomasse cuidado para não estragar as flores. Gu Qing sentiu que até nisso a menosprezavam e seguiu o resto do caminho muito ereta. Junto à janela, um cliente perguntou de que loja vinham as flores, e ela se adiantou a Yao Liao, dizendo que eram feitas por Gu Qing. O cliente apenas assentiu e perguntou o preço. Foi então que ela percebeu que dizer o próprio nome não fazia trovejar.
Elas experimentaram expor os vinte ramos de amostra com pétalas enroladas e deixaram o outro modelo, de pétalas lisas, na parte de fora. Uma das flores de pétalas viradas para fora espiava da luz da janela. Algumas pessoas disseram que parecia uma flor silvestre, outras acharam que estava aberta demais. Yao Liao trocou os dois modelos de lugar e chamou as pessoas para olhar de perto. No começo, Gu Qing ainda contava em segredo qual dos dois pegavam mais. Na nona vez, percebeu que estava cansada daquilo. Deixou de lado a pequena disputa e passou a reparar em que parte os fregueses tocavam primeiro depois de pegar a flor.
No dia dezessete, Luo Yi também veio. A loja nova em Shixian já tinha aberto, e ela queria encontrar em Yunjin alguém que pudesse fornecer flores regularmente em lotes pequenos. Oito ou doze ramos serviriam, para enfeitar as caixas de incenso em exposição e fazer pequenos broches de brinde para os clientes. Desta vez, não pediu um único tom de azul para tudo. Queria azul-claro e verde de broto, num modelo mais simples que o das flores de ramo, que se pudesse tirar da caixa de incenso e prender à faixa da roupa. Se gostasse da amostra, queria cinquenta flores ao todo, em cinco entregas até o fim do quarto mês, a vinte wen cada flor. O material e o fecho removível teriam especificações próprias. Não esperava que ninguém fizesse tudo numa noite.
Ao ouvir mil wen, os olhos de Gu Qing brilharam por um instante. Logo foi conferir as cinco datas de entrega. Dez flores por remessa, com intervalos de oito a dez dias. Xiaoman podia fazer a primeira etapa, e ela mesma definiria as cores e faria o acabamento. Podiam usar o modelo de fecho já testado, sem precisar repetir o teste a cada flor. Ainda faltavam quarenta galhos para a loja de Yao, a entregar no dia vinte e cinco. Só com os dias livres depois disso se atreveria a aceitar. Vendo Gu Qing calcular o tempo, Luo Yi simplesmente levou uma caixa vazia e ficou de esperar pela primeira amostra pronta dali a três dias, sem fechar o negócio ali mesmo, durante a recepção.
Gu Qing acompanhou Luo Yi até a galeria. Uma jovem de roupa carmesim lhe estendeu duas xícaras de chá e pediu que as levasse para o salão. Gu Qing tinha os braços ocupados com os modelos de flores, e o remendo no punho da manga tornou a aparecer. O óleo quente de antes voltou a espirrar. Ela disse que não tinha vindo servir chá, num tom tão duro que algumas pessoas na galeria se viraram. A jovem ficou sem reação, apressou-se a dizer que a tinha confundido com outra pessoa e já ia recolher as xícaras quando Gu Qing ainda acrescentou: “Quem faz flores também não sai atendendo a qualquer um que chame.”
Luo Yi não tentou logo disfarçar o incidente com um sorriso. Esperou que a encarregada do chá viesse buscar as xícaras e só então perguntou em voz baixa se Gu Qing se irritara por ter de servir chá ou por ter sido tomada por alguém sem nome. Ainda mais sem graça, Gu Qing disse que pelas duas coisas. Luo Yi respondeu que, nesse caso, ela não devia ter rebatido de um jeito que fizesse a outra recuar, depois que a mulher já dissera que a confundira com alguém. Afinal, ela viera escolher flores para a família, não conhecia Gu Qing e em nenhum momento disse que fazer flores era um ofício inferior.
Gu Qing olhou para trás e viu a mulher de roupa carmesim sentada num banquinho junto à porta, conversando com uma mulher mais velha sobre a flor do chapéu. Ela não vestia tecidos tão finos quanto os de algumas pessoas na mostra. Segurava duas das camélias pequenas mais baratas e ainda parecia indecisa. Gu Qing se lembrou da hora em que a ponta de seus dedos tocara a xícara de chá, de como quisera que todos ali soubessem quem ela era. Foi até a mulher, mas sentia como se carregasse um peso nos joelhos.
Ela começou dizendo que tinha falado com dureza. A mulher disse que não fazia mal e baixou de novo os olhos para as flores. Gu Qing não perguntou se ela ia comprar. Só explicou que o alfinete fino atrás da flor tendia a levantar se fosse preso muito rente à superfície e que, para pôr no chapéu de uma senhora idosa, duas alças de linha dariam mais firmeza. A mais velha levantou a aba do chapéu, mostrando os cabelos grisalhos, e perguntou se assim dava para tirar a flor para lavar o chapéu. Gu Qing mostrou com uma sobra de linha e deixou que ela mesma tentasse desatar. Depois de conversarem, as duas compraram só uma flor de oito wen.
Gu Qing voltou para junto da mesa, ainda com o rosto quente. Yao Liao não comentou se valia a pena fazer tudo aquilo por uma venda tão pequena. Só lhe estendeu uma xícara de chá que a mulher de antes mandara trazer. Gu Qing segurou a xícara, tocou primeiro sua parede e não se apressou a beber. Depois de um tempo, tirou a mão de cima do remendo da manga e levou uma flor de seda que estava junto à janela para um lugar onde qualquer freguês pudesse alcançá-la sem ficar na ponta dos pés.
Aqueles três dias de mostra não eram três dias de produção. Gu Qing ficava quatro horas por dia junto à mesa de exposição. No resto do tempo, o pessoal da loja de Yao cuidava das vendas, e ela voltava para fazer o trabalho que a esperava. Quando um cliente novo queria algo complicado, ela anotava o uso e a data, sem cobrar tudo adiantado. Uma família quis doze flores para o dia seguinte. Pelo trabalho que tinha em mãos, ela só podia prometer quatro. A família virou as costas e foi procurar outra pessoa. Gu Qing chegou a segui-la até a porta, mas não voltou atrás. Em casa, ainda passou metade da noite se revirando na cama, com pena daquelas oito flores, antes de conseguir dormir.
O modelo final de Luo Yi era verde de broto no começo da primavera. Xiaoman diminuiu a curva das pétalas voltadas para fora, usou uma linha um pouco mais escura na borda e dispensou as contas difíceis de substituir. As duas estragaram duas flores. Só levaram a terceira depois de encaixá-la na caixa de perfume e confirmar que, tirada de lá, ainda dava para prendê-la. Luo Yi passou a tarde com ela e voltou para pedir que encurtassem a ponta atrás do fecho, para não espetar a roupa. Gu Qing fez a alteração, e só então acertaram a encomenda de cinquenta flores. Cada lote de dez seria pago com duzentas moedas depois de conferido, sem adiantamento. As vinte flores do modelo original, destinadas a outro uso, ficavam de fora. Xiaoman receberia ainda dez moedas por lote pelo modelo e duas moedas por flor pelo trabalho da etapa inicial.
Gu Qing fizera as contas. Mil moedas por cinquenta flores era muito dinheiro. O material custava cerca de cinco moedas por flor e, descontados o trabalho de Xiaoman e o pagamento pela amostra, ainda lhe sobravam mais de dez moedas por flor pelo próprio trabalho e pelo lucro. As flores não vinham com o ramo inteiro, o que poupava a haste comprida. O difícil era o fecho na borda e o acabamento. Fazer uma desde o início ainda levava quase quatro horas. Xiaoman ficaria com cerca de uma hora, e ela ainda teria outras três de trabalho. O primeiro lote ficou para o fim do mês. Ela já não podia prometer duas encomendas grandes de flores com haste para a mesma época.
Ela circulou aquelas datas e reservou os espaços em branco que sobraram apenas para encomendas pequenas e para as camélias que costumava vender no Mercado Oeste. Luo Yi não tinha tomado para si todos os dias seguintes. Se as flores encalhassem na loja, parariam no quinto mês. Se alguma estragasse, seria devolvida como peça danificada. Olhando para aqueles cinco círculos, Gu Qing achou pela primeira vez que uma encomenda se parecia com cinco pedras sobre as quais dava para passar, em vez de um muro que, quanto mais alto, melhor.
Quando soube que Gu Qing aceitara uma encomenda à parte de Luo Yi, Yao Liao teve uma reação reservada. Lembrou que, se os quarenta galhos ficassem para trás, um pedido de desculpas seria pouco. Gu Qing respondeu que entregaria primeiro a remessa da loja de Yao e só então começaria a primeira leva de flores para as caixas. As duas ficaram de pé no pátio dos fundos, em silêncio por um instante. De repente Yao Liao contou que, quando jovem, também queria que cada cliente se lembrasse dela. Depois, com três pessoas trabalhando na loja, bastava que os clientes se lembrassem da floricultura. O crédito também cabia a quem ficava atrás do balcão.
Depois de falar, ela foi medir a mesa recém-alugada, sem esperar a compaixão de Gu Qing. Gu Qing a seguiu e segurou a outra ponta da fita de couro. Viu muitas marcas escurecidas pelo óleo. Aquela fita não fora retirada especialmente para medir o caminho de outra pessoa; o caminho da própria Yao Liao continuava estendido ali. Ao chegarem à porta, um trabalhador disse que receberia visitas à noite e precisava sair cedo. Yao Liao franziu a testa e, por fim, puxou para junto de si o serviço mais urgente. Gu Qing recolheu a fita em silêncio, enrolou-a pelas dobras gastas e a devolveu à gaveta de onde Yao Liao costumava tirá-la. Percebeu que ninguém na loja deixava de ter preocupações só porque a proprietária podia decidir.
No dia vinte e um, outro cliente que fazia toucados e faixas pediu um lote de flores cor de damasco para faixas de roupa. Queria vinte, em duas entregas no quarto mês, dez de cada vez. Ela pediu vinte e duas moedas por flor. Ele achou caro, pegou a amostra e perguntou por quê. Gu Qing já não se limitou a falar da qualidade do material e da habilidade de quem fazia. Explicou o fecho removível, a borda resistente ao atrito e o trabalho de cada etapa. Por fim, admitiu que o modelo não convinha para ficar muito tempo apertado numa caixinha com tampa. O cliente foi medir as caixas de presente e voltou no dia seguinte para pedir uma camada a menos de pétalas. O preço continuou em vinte e duas moedas, e ele pediu que as flores ficassem mais firmes. Gu Qing aceitou a encomenda por conta própria, sem depender da loja de Yao, mas escreveu dois nomes, o seu e o de Xiaoman, um em cada linha.
Se entregasse as duas encomendas no prazo, conseguiria pagar boa parte da viagem. Por ora, as mil quatrocentas e quarenta moedas ainda estavam no papel. Ela não levou a folha para mostrar à avó com alarde. Primeiro conferiu mais uma vez o prazo dos quarenta ramos que tinha em mãos e, à noite, parou de trabalhar na hora de parar. A avó perguntou se tinha sido divertido no salão da associação. Gu Qing não conseguia pensar em nada divertido. Demorou um bocado até dizer que a luz junto à janela era muito boa e que alguém usava um chapéu florido que parecia um monte de verduras de primavera equilibrado na cabeça.
Shen Su caiu na risada e perguntou de que cor era. Gu Qing empilhou uns retalhos de seda para mostrar à avó, e a velha de fato pôs o pano verde na cabeça. Uma atrás da outra, espremeram-se no reflexo estreito do espelho de bronze. O espelho era escuro, o verde também. Ainda assim, Gu Qing achou aquela imagem na sombra um pouco mais bonita do que as roupas vistosas do salão.
No dia vinte e três, quando Gu Qing saiu do salão da associação, a mulher vestida de vermelho-escuro ajudava uma senhora de idade a subir na carroça. A pequena camélia de oito moedas continuava bem presa ao chapéu. O vento virou uma pétala, e a mulher a ajeitou com a mão, sem exigir que ficasse imóvel para sempre. Gu Qing olhou de relance do outro lado da rua e foi comprar feijões para o jantar. Depois, passou na senhora Ji para pagar em dinheiro uma pequena remessa de materiais. Suas roupas eram diferentes das dos convidados do salão, e ela já não escondia atrás das costas o embrulho de pano que carregava. De um canto do embrulho saía uma ponta verde-clara que, a cada passo, roçava o punho remendado da manga.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《梅花》 (Flores de ameixeira), de Wang Anshi, e o conto original deste site 《不卖春风》 (Não vendo a brisa da primavera). Os personagens, os negócios, a geografia e a cronologia são imaginários; não se trata de uma biografia do poeta. Foram preservadas as escolhas centrais da obra original: proteger a árvore, as flores de seda sem perfume e a contemplação dos lótus por avô e neto.
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