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Um volume nas mãos

Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga

Antes que a porta caísse

酷无极 · Criação com IA · 11150 caracteres · Cerca de 12 minutos

Huangdou foi o primeiro a acordar. Não latiu; apenas ergueu a cabeça de entre as patas dianteiras, com as orelhas voltadas para a porta. Chen Sheng ouviu um estalo no pátio, como se alguém partisse uma vara de carregar em duas, e se sentou imediatamente. Ainda meio adormecido, pensou estar dormindo na casa do irmão mais velho em Gaopu e estendeu a mão para procurar o embrulho das agulhas. Só ao tocar um pino de madeira desconhecido lembrou que o tecido de algodão continuava na neve.

O quarto estava tão escuro que mal se via o pé da cama. A lamparina se apagara, e só restavam dois pontos vermelhos na boca do fogão. Com medo de acordar alguém, Chen Sheng calçou as sandálias de palha que encontrou às apalpadelas, sem ir buscar os sapatos velhos, ainda meio úmidos. Pensou que só ia sair por um instante, arrastar o embrulho de lona encerada para o canto junto à porta e pronto. Xu Shen não precisaria abrir mais espaço para ele. A tranca, porém, estava mais apertada do que se lembrava. Firmou as duas mãos na folha da porta e, imitando o que vira à noite, começou por levantá-la.

A tranca de madeira saiu, e o vento se espremeu para dentro de uma vez. A base da porta parecia presa pelos dentes de alguma coisa. Ele puxou de novo e, de repente, sentiu o apoio ceder sob os pés. O pino de baixo afundou no encaixe de madeira gasto, o de cima escapou pela borda e a porta inteira pendeu para o pátio. Chen Sheng só sentiu uma lufada pesada junto ao ombro. Antes que pudesse mudar as mãos de lugar, ouviu passos correndo atrás de si, e Xu Shen já amparava com o braço a travessa da porta.

“Não empurre para fora!” disse ele em voz baixa, como se falar mais alto fosse tornar a porta ainda mais pesada.

Chen Sheng parou de fazer força na mesma hora, e os dois ficaram espremidos numa fenda estreita. A folha da porta se apoiava de viés no ombro de Xu Shen, com o outro canto fincado na neve, bem onde impedia Chen Sheng de mudar a posição das mãos. Cada um fez uma tentativa, mas nenhum ousou erguer a porta à força. A-Sui se levantou, jogou uma roupa por cima do corpo e tateou junto ao fogão à procura de uma acha comprida para servir de escora. O filho mandou que parasse num grito, e ela ficou imóvel, sem saber o que fazer. Huangdou também veio atrás, e nenhum dos três tinha mão livre para enxotá-lo.

Xu Shen tomou fôlego e pediu a Chen Sheng que primeiro chutasse para longe o cesto vazio do lado de fora e depois arrastasse o banquinho para perto com o pé. Ainda havia no banco um pano úmido de enxugar os pés. Chen Sheng jogou-o de qualquer jeito sobre as próprias costas e enfim abriu um espaço de meio chi. Xu Shen apoiou devagar a travessa da porta na borda do banco. Só quando sentiu o ombro mais leve pediu que Chen Sheng desse a volta por fora e segurasse a parte de cima. Um por cima e outro por baixo, retiraram a porta e a deitaram. Nenhum dos dois teve de aguentar de uma vez o peso inteiro.

A-Sui ficou dentro de casa, vendo o clarão da neve entrar pelo vão sem porta. O vento puxou as fagulhas e a luz do fogão encolheu de repente. Ela quis buscar a corda de amarrar o baú, mas, mal deu dois passos, sentiu como se uma agulha cega lhe espetasse o joelho. Só se firmou quando alcançou a beirada da mesa. O filho estava de costas, mas foi como se tivesse ouvido aquela pausa. Sem se virar, disse que a corda estava debaixo da mesa, que ele mesmo a pegava e que ela voltasse a sentar.

A voz dele ainda estava dura. A-Sui não voltou a se sentar na cama como ele pedira. Pegou um banquinho, ficou junto ao fogão e juntou primeiro os gravetos que tinham se espalhado. Quando Xu Shen trouxe a porta para dentro, ela lhe estendeu um pedaço de corda seca que estava junto ao pé do banco e disse que não usasse a molhada, pois até o amanhecer ela afrouxaria de novo. Ele estendeu a mão e pegou a corda, sem voltar a pedir que ela recolhesse a mão para debaixo da coberta.

A-Sui atiçou o fogo do fogão e reacendeu a lamparina de óleo. Chen Sheng segurou a luz e só então saiu para buscar o tecido de algodão. De fato, um galho se quebrara no pátio e pressionava a borda da carga; sobre a lona oleada se acumulara uma poça de água misturada com neve. Ele firmou a lamparina, deixou a água escorrer pela dobra e depois desatou um canto da camada externa do embrulho. O tecido lá dentro ainda estava seco, e o cordão fino com que a loja o amarrara também não mudara de cor. Soltou um longo suspiro de alívio e se apressou a embrulhá-lo de novo, como se temesse que até o calor de sua respiração pudesse molhar a mercadoria seca.

Xu Shen pediu que ele pusesse o embrulho sobre a tábua junto à cama. Huangdou já ia deitar ali e foi afastado. Chen Sheng, sentindo-se culpado, disse que não tinha segurado bem a porta. Agachado, Xu Shen apalpou o pivô inferior, arrancou com os dedos um punhado de madeira velha e mole, jogou no chão e disse para ele olhar. O suporte de baixo já estava tão gasto que o encaixe ficara torto. Não fora aquele movimento da noite que o estragara. Durante o dia, Xu Shen só pensara em desbastar a tranca para que corresse melhor. Depois que a mãe fosse embora, bastaria fechar a porta.

O pivô superior continuava inteiro, mas embaixo já não havia como sustentar o peso. Enfiar um pedaço de madeira de qualquer jeito no encaixe velho deixaria a porta torta do mesmo jeito. Se aplainasse e encurtasse o pé da porta, a folha ficaria reta, mas o vento passaria por baixo. Xu Shen sondou dois pontos com a ponta do formão, parou e olhou para o canto do quarto à procura de madeira dura para servir de apoio. Chen Sheng já tinha aberto a lona oleada que envolvia o tecido, querendo usar uma ponta para tapar provisoriamente o vão da porta.

“Este aqui não pode ser cortado.” A Sui disse primeiro.

Chen Sheng também pôs a mão sobre o tecido. Só pensara em ver se dava para aproveitar um canto, mas, na hora de cortar, não teve coragem. Nem o tecido nem a lona encerada eram dele. A loja confiava que faria a entrega tal como os recebera. Afastou o embrulho, com as orelhas ardendo. Xu Shen não o apressou, apenas pediu que buscasse a esteira rasgada atrás da porta. Os três levaram um tempo para pendurá-la de atravessado. A vedação ficou incompleta, mas pelo menos o vento parou de soprar as chamas para dentro do cômodo.

Asui perguntou de que dureza precisava ser a madeira. Xu Shen disse que lenha seca comum não servia, pois o pivô podia afundar ainda mais. Ela apontou para trás do fogão e disse que ali havia um pedaço de madeira dura que sobrara do eixo do moinho. Xu Shen o achou pelo tato. Estava meio coberto de cinza velha, mas o cerne ainda estava firme. Reconheceu a madeira que o pai deixara. Quando menino, achava-a pesada e já a usara para segurar a ponta da esteira onde secavam os feijões. A peça estivera ali todos aqueles anos. Em tantas idas à montanha, ele sempre a vira apenas como algo pesado demais para carregar embora.

Ele cortou fora um trechinho mais mole do pivô antigo, depois entalhou a madeira dura até formar um apoio capaz de sustentá-lo. A madeira era compacta demais, e o formão, pequeno. Já a primeira martelada fez adormecer a base do polegar. Chen Sheng segurava a lamparina. De tão gelado, às vezes batia os dentes, mas não queria largá-la. Sempre que via a ponta do formão prestes a desviar, mudava um pouco a luz de lugar. No começo, mudava tão depressa que só fazia a sombra saltar de um lado para o outro. Xu Shen aguentou duas vezes e acabou dizendo que mantivesse a luz na mão dele, sem tentar adivinhar onde o formão ia cair.

Chen Sheng concordou baixinho e deixou de se mover sem necessidade. Pouco depois, o braço ficou dolorido demais para sustentar a lâmpada, e ele apenas trocou de mão, mantendo a luz no mesmo lugar. Só então Xu Shen percebeu suas juntas vermelhas de frio e perguntou por quanto tempo ainda conseguiria segurá-la. Chen Sheng disse que conseguia, mas ele mandou primeiro apoiar bem a lâmpada, pondo um pote atrás para sustentá-la, de modo que pudesse iluminar mesmo sentado. Antes, ao ver o pai trabalhar à noite, sempre achara que, de qualquer maneira, a pessoa ao lado segurando a luz devia ter menos trabalho que quem segurava o formão.

A-Sui trouxe meia tigela de água morna do fogão e mandou que cada um tomasse um gole. Ao recebê-la, Xu Shen raspou as costas da mão na borda da madeira dura e abriu um corte fino. Quando a água tocou, não conseguiu evitar uma inspiração de dor. Ela ouviu e estendeu a mão para olhar; ele recolheu a sua para trás. A mãe não insistiu. Apenas pôs um pano limpo junto à perna dele e disse que, naqueles anos, também só sabia quando Xu Bo machucava a mão ao ouvi-lo inspirar assim. Se perguntava normalmente, ele sempre dizia que não era nada.

Xu Shen enrolou o pano no dorso da mão. Sem vontade de responder, deu algumas formonadas em silêncio. Só depois que as aparas se acumularam no joelho perguntou se naquela época o pai também não dava ouvidos. Asui respondeu que às vezes dava, às vezes achava que ela estava amolando, com essa mesma cara que você está fazendo agora. Baixou a cabeça para mexer na lenha, mas deixou escapar um sorrisinho. Xu Shen não tinha o que fazer com aquele sorriso. Foi endireitando devagar a boca do encaixe, que já saíra um pouco do rumo.

Olhando para o suporte de madeira, Chen Sheng perguntou quanto trabalho um serviço daqueles dava na cidade. Xu Shen disse que dependia de onde estava o estrago e que, se desse um número antes de olhar, era fácil levar uma bronca depois. Falou com naturalidade, embora lhe passassem pela cabeça as pedras do degrau da farmácia, cuja altura ainda não estava definida. Era coisa para depois que voltasse à cidade. Deixou o pensamento de lado e sondou o encaixe novo com um graveto fino para ver se, ao entrar, o pivô inferior voltaria a escorregar para um lado.

Do outro lado da esteira, o ruído da neve foi ficando mais leve, mas todos no quarto já estavam cansados. Sem que ninguém percebesse quando, A-Sui adormecera encostada na beira da cama, com um pedaço de pano ainda pousado na mão. Ela já tinha dormido em outras noites tão desarrumadas quanto aquela, mas agora, aos olhos de Xu Shen, parecia menor do que na lembrança dele. Ele afastou um pouco o fogo dos pés da mãe, com medo de que ela o tocasse no sono, foi para mais perto da porta e pegou a ponta da tábua que Chen Sheng segurava, para tentar levantá-la.

Na primeira tentativa, a porta não encaixou. Faltou pouco para o pivô superior entrar no soquete, e a extremidade de baixo voltou a bater no canto do banco. Os dois recuaram e nivelaram de novo o apoio sob a porta. Chen Sheng se apressou em abrir espaço para as mãos. Xu Shen também queria acabar logo, mas bastou fazer força com o ombro para a borda da porta arranhar o chão num ruído comprido. Ele parou, baixou a cabeça para recuperar o fôlego e só depois disse que era melhor baixar a porta primeiro. Sem firmar os pés, forçar a subida só faria a porta cair outra vez.

Descansaram, cada um massageando as mãos. Na segunda tentativa, retiraram primeiro o banco e puseram um tronco roliço sob a porta. Xu Shen sustentou o eixo superior, e Chen Sheng firmou a parte de baixo com o joelho. A porta deslizou sobre o tronco até a posição certa, e o eixo de madeira finalmente se assentou no encaixe novo. Xu Shen soltou as mãos, e a folha ficou de pé sozinha. Nenhum dos dois acreditou de imediato; ainda a sustentaram por algum tempo antes de se afastarem, um depois do outro.

Ainda havia um ponto no fundo da ranhura que emperrava o ferrolho. Xu Shen aplainou o canto chanfrado do ferrolho de madeira, soprou as aparas e o empurrou para dentro. O clique foi mais suave que qualquer golpe de martelo ou formão naquela noite. Puxou e fechou de novo, repetindo o teste três vezes. Depois que tiraram a esteira rasgada, o vento só entrava pelas frestas normais, e o fogo tornou a se erguer no fogão. Chen Sheng passou a mão pela travessa da porta, como quem toca um companheiro que finalmente aceitou se firmar de pé.

Xu Shen olhou para o novo apoio de madeira e sentiu crescer dentro de si um orgulho muito concreto. Num lugar tão pequeno, com uma noite e um pedaço de madeira velha, ele também conseguia fazer o serviço. Se fosse uma porta inteiramente nova, como a da farmácia, com todo o material à mão, bastava alguém ter coragem de deixá-lo trabalhar sozinho. O que haveria que ele não conseguisse fazer? Guardou o pensamento para si e recolheu na bolsa o formão, com a pontinha do fio revirada, pensando em afiá-lo assim que voltasse à cidade.

O barulho da porta sendo testada acordou A-Sui. Ela não perguntou até que horas tinham trabalhado. Só se apoiou na cama para ficar de pé e empurrou o ferrolho com a própria mão. Antes, a essa altura, era preciso erguer a porta, e o braço sempre ficava dolorido por um tempo. Naquela noite, já tinha levantado o braço até a metade quando percebeu que não precisava, e a mão ficou um instante suspensa no ar. Xu Shen esperou um elogio, mas ela olhou primeiro para a cama de tábuas de Chen Sheng e disse que, com a lamparina apagada, podiam dormir mais um pouco antes de clarear de vez.

Desta vez, ela não guardou as ferramentas para os dois nem ficou tateando no escuro para tirar mais água para os três. Voltou para a cama, virou o rosto e logo pegou no sono. Xu Shen levou os dois pares de sapatos molhados para onde ainda restava algum calor e usou as solas para prender a borda enrolada da esteira de palha. Chen Sheng se deitou sobre as tábuas, com uma mão ainda pousada no canto do embrulho de algodão, e acenou de cabeça para ele antes de fechar os olhos. Do lado de fora, já não se ouvia bater em madeira. Só de vez em quando, ao longe, soava a neve caindo de um galho, e ninguém se levantou por causa disso.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Aquele quarto voltado para o sul
  2. A neve chega à soleira
  3. A terceira tigela
  4. Antes que a porta caísse
  5. Os caracteres pretos na encruzilhada
  6. O portão da cidade à tarde
  7. O fogo emprestado no pátio
  8. Uma porta de igual valor
  9. À porta, ninguém bateu ao meio-dia
  10. A placa de estrada virou de lado
  11. Um par de mãos junto à cesta de costura
  12. A água da neve se infiltra na parede sul
  13. Um lugar na viagem de volta à terra natal
  14. A divisão que passou despercebida na régua
  15. A mão sob a porta
  16. As palavras que a mãe disse por ele
  17. Madeira para portas empilhada no abrigo de chá
  18. O atalho por onde a carroça não passa
  19. De quem é o quintal?
  20. Uma carga no ombro, duas cordas
  21. Daxiu levou a panela embora
  22. O banco em que ninguém se sentou
  23. Quem deu a casa velha em promessa?
  24. Pôr a porta nova na chuva
  25. O quarto que ela ainda não desocupou
  26. O pente deixado na carpintaria
  27. Na placa não há nome de ninguém
  28. Um quarto aquecido não é remédio
  29. Aquele convite antes do Festival do Barco-Dragão
  30. O cesto de costura que não foi vendido
  31. O abrigo de chá ganhou seus próprios dias
  32. O acerto da madeira na montanha
  33. De quem receber a carga
  34. Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro
  35. Consertar a porta para quem vive ali
  36. Até onde o sol já baixou

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