Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga
Um lugar na viagem de volta à terra natal
酷无极 · Criação com IA · 10529 caracteres · Cerca de 11 minutos
Quando decidiu voltar a Shikou, A-Sui tirou primeiro o casaco novo, mas tornou a guardá-lo. Ia apenas à feira. Se vestisse algo novo demais, as pessoas acabariam achando que ela tinha ido de propósito para se mostrar. Com roupa velha, daria a impressão de que, desde que se mudara para a cidade, vivia pior do que na montanha. Ficou um bom tempo olhando as duas peças e por fim escolheu a que tinha as bordas das mangas remendadas, mas ainda estava apresentável no corpo. Assim, qualquer que fosse a pergunta, achava que saberia o que responder.
Ao saber que ela ia, Xu Shen não se opôs de imediato. Só perguntou com quem. Por acaso, sobrava um lugar na carroça compartilhada de quem ia à feira. Ida e volta saíam por dezesseis wen, sem precisar contratar outra carroça. Ela ia até Shikou, sem subir pelo desvio da montanha para a casa dos Lin. Asui falou depressa, como se antecipasse tudo o que o filho pudesse perguntar. Ele só olhou para o céu, disse para ela não se distrair na feira e perder a volta, e tornou a medir o friso fino junto à borda da porta.
Na porta, já havia um trechinho entalhado de folhas de capim, tão raso que de longe mal se via. Asui chegou mais perto e perguntou que capim era. Ele disse que podia ser qualquer um, desde que acompanhasse o veio da madeira. Ela estendeu o dedo para tocar, e ele logo a deteve, com medo de que a borda recém-acabada absorvesse suor. Ela recolheu a mão, mas por dentro foi como se tivesse tocado também aquele bonito trecho de dias. Se alguém perguntasse no caminho, enfim teria mais do que aquele papel de que falar.
Antes de sair, ela tornou a organizar seu dinheiro. Dos novecentos wen que tinha juntado ao se mudar para a cidade, já gastara mais de cinquenta aos pouquinhos. Xu Shen trazia um pouco de arroz e verdura a cada poucos dias, de modo que ela não precisava comprar tudo sozinha. Mas ainda havia as moedas que não queria ter de mencionar ao filho toda vez que pagava uma consulta, comprava mais linha ou algo que gostava de comer. Depois de separar o valor da passagem, as moedas em cordões e as avulsas somavam oitocentos e trinta. Ela dividiu tudo em dois embrulhos. Escondeu um e, no outro, deixou só o bastante para comprar algumas miudezas naquele dia.
Na carroça iam quatro pessoas e mais dois cestos vazios amarrados. A-Sui pensara que passaria o caminho todo olhando a paisagem, mas, pouco depois do portão oeste, um vendedor de verduras conhecido a chamou. Ora, se não era a senhora da família Xu. Ela se endireitou sem perceber e respondeu que agora morava na viela Nanhuai. Ele perguntou se a cama na cidade era quentinha. Ela disse que sim, que dava para o gasto, e não falou da parede que umedecera nem das primeiras noites, em que o barulho de pilar arroz mal a deixara dormir.
O homem ainda elogiou Xu Shen por ser tão dedicado à mãe. A-Sui assentiu, achando que aquele elogio devia ficar para o filho guardar. Se ela se apressasse a aceitá-lo, acabaria tirando um pouco do seu peso. Outra pessoa na carroça disse que ouvira falar que a farmácia Ji'an ia trocar a porta e perguntou se por acaso era o Shen dela que estava fazendo o trabalho. Ela disse que sim, que a porta já estava em andamento havia vários dias e que ele escolhera a madeira com cuidado pelo veio. Não disse que Zhou Tong, na verdade, queria menos enfeites. Até ela vinha, aos poucos, tratando aquelas folhinhas de capim como se alguém tivesse pedido ao filho para entalhá-las.
Ao chegar a Shikou, encontrou a tia Liu juntando carvão atrás da velha barraca, com uma mancha de cinza no rosto. Ao vê-la, a primeira coisa que disse foi que enfim tivera coragem de voltar para visitar as pessoas. A Sui, de propósito, também não respondeu que sentira saudade; apenas apontou para o rosto dela e disse que, na cidade, não aprendera nada além de reparar onde os outros não tinham se lavado direito. As duas riram. A tia Liu passou um pano úmido, mas só espalhou a cinza por metade do rosto. A Sui estendeu a mão para limpá-la e, enfim, voltaram a ficar um pouco mais próximas, como quando se encontravam antigamente.
Daxiu estava testando uma panela grande. A borda se apoiava em alguns tijolos emprestados para a ocasião. A panela ficava torta e, mesmo quando assentava, ainda balançava. Daxiu queria voltar para a própria banca, mas tia Liu pediu que esperasse mais um pouco. A senhora da família Xu acabara de chegar, disse ela, e na primavera, quando o carpinteiro viesse, haveriam de encontrar um jeito. Assim que ouviu menção ao filho, A-Sui se agachou para olhar. O joelho não aguentou, e ela teve de se apoiar na beirada do banco para sentar.
Ela sabia melhor que as duas quanto mingau cabia naquela panela. Mas, cheia de verdade, já não teria força para tirá-la do fogo. Daxiu mostrou-lhe dois protetores de madeira para as alças e disse que a panela precisava assentar firme na boca do fogão, sem ficar balançando quando fosse preciso tirar de lá água quente. A-Sui disse então que seu Shen era cuidadoso no conserto de portas e janelas. Com um fogãozinho desses, decerto não as deixaria aflitas.
Tia Liu respirou aliviada, mas Daxiu perguntou se ele sabia assentar fogões. A-Sui ficou sem resposta por um instante. Depois sorriu e disse que, com tantos anos de ofício, ele decerto já tinha visto como se fazia e podia passar para dar uma olhada. Ao dizer “dar uma olhada”, ela ainda pensava que o filho não a deixaria passar vergonha. Daxiu entendeu que na primavera viria alguém para examinar a panela e consertar o fogão. Então tirou os tijolos de debaixo da panela e decidiu esperar antes de procurar outro pedreiro.
Tia Liu serviu a Asui uma tigela de chá fraco e perguntou se o filho dela tinha mesmo tanto tempo. Asui tomou um gole e respondeu que ele andava ocupado na oficina, sim, mas que sempre arranjaria um tempinho para visitar as amigas da mãe. Assim que falou, sentiu que a promessa não era muito firme. Xu Shen nunca tinha concordado em consertar o fogão, mas ela já entregara a outra pessoa um pedaço do dia dele. Quis voltar atrás, mas teve medo de parecer que, agora que vinha da cidade, nem isso estava disposta a dar.
A feira foi enchendo, e tia Liu se levantou para vender chá. Sentada atrás da banca, Asui a viu receber algumas moedas molhadas e devolver moedas secas de troco, com mãos mais rápidas que quando servia mingau na casa velha. Alguém deixou algumas folhas de chá no fundo da tigela. Tia Liu passou um pouco de água e despejou-a na terra batida. A disposição para abrir o pavilhão não vinha de ficar sentada pensando. Cada tigela dava trabalho para lavar, pôr em lugar firme e levar de novo a um freguês.
Um velho conhecido da montanha se aproximou e, ao ver A-Sui, perguntou primeiro se a casa dos Xu continuava trancada. Ela disse que sim, e ele comentou que, dali em diante, quem pegasse a estrada à noite não teria onde parar. Ao ouvir isso, A-Sui sentiu uma pontinha de satisfação que mal queria admitir. Mesmo depois de ela ir embora, ainda havia quem se lembrasse daquela porta. Quase respondeu que voltaria na primavera, mas, com as palavras na ponta da língua, lembrou-se do feixe de sol que iluminava o quarto na cidade só por metade do dia.
Dona Liu respondeu por ela que a casa da montanha ficava longe e que quem seguisse pela estrada principal não devia fazer o desvio para passar lá. A outra pessoa bebeu o chá e não perguntou mais nada, mas A Sui ficou um bom tempo sem pegar a tigela. Tinha esperado que dona Liu a ajudasse a dizer que tinha feito bem em se mudar. Agora que a outra tinha mesmo interceptado a frase sobre voltar, sentiu um vazio repentino, como se alguém já tivesse fechado a porta de um cômodo que ela ainda nem tinha decidido como usar.
À tarde, o casal Chang também chegou. Tinham vindo comprar tiras de bambu para cestos e, ao ver Asui, voltaram a falar em usar a casa como pouso no começo da primavera. Não queriam um aluguel longo. Só usariam o cômodo principal nos dias da colheita de brotos de bambu, podiam ficar sem o quarto úmido dos fundos e, no entra e sai, cuidariam da porta que usassem. Dessa vez Asui perguntou os detalhes, em que dia viriam, quanta coisa guardariam e se trariam a própria lenha. Não era por achar que eram pobres. Era a primeira vez que alguém lhe perguntava pela casa e ela não queria responder só que Shen decidiria.
Mesmo no fim da conversa, ela não aceitou dinheiro. Disse que voltaria ao assunto dali a alguns dias, depois de examinar o telhado com o filho. A nora dos Chang concordou, sem pressionar. Antes de ir embora, perguntou se o armário grande ainda estava ali e se podia usar uma prateleira para guardar tiras secas de bambu. Asui assentiu. Lembrou-se da porta estreita que Xu Shen tinha medido na cidade e, de repente, achou que o armário que deixara para trás ainda podia ter serventia.
Quando foram ver o abrigo de chá, o sol já ia baixo. Tia Liu abriu a porta de fora. Lá dentro havia algumas folhas de papel que tinham sobrado da vez dos bonecos de papel, um par de sandálias de palha molhado e outro ainda em bom estado. A-Sui pegou as sandálias e as pôs para secar perto da janela, depois de tirar a lama das solas, como se quisesse testar quanto sol aquele lugar realmente podia pegar na primavera. Tia Liu lhe entregou uma chave reserva do abrigo externo e disse que, se voltasse para buscar alguma coisa e se cansasse no caminho, podia entrar e sentar um pouco. Não precisava sempre fazer a volta até a própria casa.
“A chave do fogão não está aqui”, disse tia Liu. “É só entrar e descansar. Nada de se achar dona do lugar e me encher mais um panelão.”
A Sui riu e chamou dona Liu de pão-dura, mas guardou bem a chave. Sabia que era a do abrigo de fora, e dona Liu sabia que ela reconhecia a porta certa. Nenhuma das duas imaginou outro uso para aquela chave. Mais tarde, ao lembrar da cena, A Sui percebeu que já naquele instante tinha apertado demais entre os dedos a confiança que recebera, como se, por ter uma chave na mão, pudesse se adiantar e abrir, em nome da outra, muitas portas das quais ainda nem tinham falado.
A carroça da volta já ia partir, e ela ainda queria comprar um pouco de verdura azeda em conserva da montanha. O vendedor demorava, ela esperava e tornava a olhar para o cruzamento. Dona Liu a apressava lá atrás, e o carroceiro também chamava. Aflita, com uma mão no pote e a outra segurando o dinheiro, ela se lembrou de como, dias antes, se irritara com Xu Shen por apressá-la a cada passo. Quando de fato há gente esperando, por mais que se goste de uma coisa, não dá para ficar ali segurando e nunca largar. No fim, comprou menos de meio pote e subiu na carroça abraçada a ele, com um pouco do caldo da conserva ainda na tampa.
Quando chegou à cidade, já era tarde. Ela voltou à viela Nanhuai pelo caminho que conhecia e não chamou o filho na entrada. Ao passar pela loja de arroz, o velho lojista, para sua surpresa, a reconheceu e perguntou se naquele dia ela não ia comprar arroz. Ela disse que já tinha. Só aquela pergunta já lhe aqueceu o coração, como se fosse mais do que uma visita vinda de outra casa para ficar uns tempos. Huangdou foi o primeiro a ouvir os passos e latiu. No cômodo da frente, Fang Xiao disse que era a vovó Lin voltando. A tia da menina nem precisou sair para olhar.
Xu Shen chegou ainda mais tarde naquela noite. A-Sui pôs conserva de verduras na tigela dele e contou quem perguntara pela porta nova na feira, dizendo que todos comentavam como a oficina Ren formara um bom artesão. De início, ele comeu de cabeça baixa; ao ouvir falar da porta, perguntou onde a tinham visto. Ela respondeu que não tinham visto, tinham ouvido falar; para que precisariam ver? Ele sorriu de leve, sem mandar a mãe parar de contar, e perguntou se o telhado do abrigo de chá vazava e do que mais a tia Liu precisava.
A-Sui apalpou a chave no bolso e disse que o telhado estava bom, só queria que ele desse uma olhada no fogão quando o acendessem na primavera. Xu Shen respondeu com um resmungo de assentimento, já pensando de novo no pivô da própria porta. Por trás daquele pedido de dar uma olhada, não percebeu quais tijolos Daxiu já tinha tirado, nem que tia Liu deixara de lado a ideia de contratar um pedreiro e economizara esse dinheiro. A-Sui também não contou tudo. Viu o filho erguer a tigela e fechou bem aquela parte da história que ficara por dizer, como quem fecha a tampa de um pote de conserva.
Na hora de dormir, ela reparou que o punho da manga estava sujo de cinza da barraca de chá. Passou um pano, e a cinza se espalhou em círculo, como as palavras bonitas que dissera naquele dia na frente dos outros. De início, só quisera deixar um pouco. De tanto espalhar, já não sabia dizer que parte tinha visto de verdade. Pendurou a roupa e deixou a lavagem para depois. Guardou a chave num compartimento do cesto de costura, sob algumas agulhas já enfiadas. Mesmo sem precisar sair no dia seguinte, ela continuava ao alcance da mão.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.
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