Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga
À porta, ninguém bateu ao meio-dia
酷无极 · Criação com IA · 10650 caracteres · Cerca de 11 minutos
Ao chegar à botica, A-Sui começou dando uma volta para examinar a porta antiga. A madeira da beirada estava lustrosa de tanto uso, e num canto faltava um pedaço de verniz. Ela achou que só precisavam trocar aquele pedacinho, o que fazia o desenho do filho em tamanho natural parecer mais imponente que a porta de verdade. Ergueu a mão para calcular a largura, e uma mulher ao lado, que levava remédios, perguntou se ela não estava encontrando a entrada.
Ela baixou depressa a mão e disse que conhecia gente lá dentro. Assim que falou, achou que tinha exagerado. Xu Shen só estava ali fazendo uma porta e talvez nem contasse como alguém da casa. Ao ouvir a voz, um ajudante veio recebê-la. Ela levantou um canto do pano velho que cobria o joelho e disse mais baixinho que viera pedir ao médico para dar uma olhada. O ajudante mandou que se sentasse. Havia duas pessoas na frente dela. A-Sui se sentou e não tornou a mencionar o nome do filho.
Quando chegou a vez dela, o médico Qi começou perguntando havia quantos anos sentia dor. Ela ia dizer que não fazia tantos, mas pensou um pouco e começou a contar a partir de mais ou menos o ano da morte de Xu Bo. No meio da conta, percebeu que havia muito já não lembrava em qual nevada a dor viera pela primeira vez. Só sabia que, a cada inverno, precisava pôr o banco perto do fogão e se apoiar em alguma coisa antes de levantar. Se lhe perguntassem apenas como estava hoje em comparação com ontem, ela saberia responder. Pedir que dissesse o dia exato em que aquele mal começara era como perguntar qual pisada tinha desgastado a soleira.
Depois de ouvi-la, o médico a observou andar alguns passos e perguntou se costumava carregar água. Ela disse que não muito, mas lembrou que, logo depois da mudança, realmente carregara baldes cheios e corrigiu depressa: agora havia quem carregasse. O doutor Qi não desmentiu suas palavras; apenas disse que não fazer trabalho pesado não significava passar o dia imóvel, e conseguir andar não significava conseguir carregar peso. A Sui ouviu e achou que uma dessas frases seria fácil levar ao filho; a outra teria de guardar para si.
Ela queria perguntar se, como a casa na cidade era quente, depois de passar aquele inverno ali a dor cessaria. Antes que perguntasse, o médico já apontava para o pano velho dela, dizendo que por enquanto se cuidasse assim: em tempo frio e úmido, provavelmente ainda voltaria a doer. Não devia prometer a si mesma que uma única medicação eliminaria um problema de tantos anos. Ficou um pouco decepcionada e puxou a roupa sobre os joelhos, como se também devesse cobrir aquela pequena decepção.
Atrás do balcão, alguém pesava os pacotes de papel, e a haste da balança subia e descia de leve. A-Sui perguntou se dava para acertar a consulta e o remédio junto com o serviço da porta. Zhou Tong saía do aposento dos fundos bem nessa hora. Ao ouvi-la, perguntou de que família ela era. Só então ela disse o nome de Xu Shen. Zhou Tong sorriu e explicou ao pessoal do balcão que a porta se pagava de um lado e o remédio de outro, para ninguém acabar sem saber quem pagara o quê. Ela também sorriu e repetiu que era só para não esquecer, que não queria levar nada de graça. Mas sua mão se apressou um pouco mais do que antes ao catar as moedas na bolsa.
Ao lado, uma mulher de idade parecida olhou para ela e não riu. Vestia uma blusa velha verde-escura, com uma faixa de outro tecido em volta dos punhos. Junto aos pés havia um cesto raso, onde agulhas e linhas estavam separadas com papel, tudo arrumado até nos menores detalhes. Quando chegou sua vez, explicou por inteiro o que sentia e depois perguntou qual marca no papel do remédio indicava a dose para usar de dia. Só foi embora depois de entender, sem fingir que sabia ler todos os caracteres.
As duas coincidiram na saída. A mulher perguntou se Asui era a recém-chegada à Travessa da Sófora do Sul. No dia anterior, tinha visto Asui levando um cachorro velho. Asui assentiu e aproveitou para dizer que o cachorro era muito velho e não machucava ninguém. A outra disse que não tinha perguntado se ele machucava. Só tinha reparado que uma orelha ficava dobrada, como se alguém sempre tivesse acabado de acariciá-la. A frase fez Asui rir. Ela perguntou o sobrenome da mulher. Era Gu. Em casa, chamavam-na de Aqin, e agora que envelhecera ainda havia quem a chamasse assim.
Gu Qin ia passar meio dia vendendo agulhas à beira do rio. Asui olhou para o céu. Ainda era cedo e não sabia se o filho viria ao meio-dia, então perguntou se podia acompanhá-la por um trecho. Gu Qin disse que primeiro precisava comprar uma meada de linha de cânhamo e que não podia ficar só passeando com ela. Asui disse que não tinha pressa. Assim já aproveitava para ver se a linha de cânhamo era mais cara na cidade que na montanha. As duas viraram numa rua estreita e esconderam, cada uma, seu pacote de remédio por dentro da roupa, como se não quisessem que ele desse o tom àquele meio dia antes de tudo.
Na banca de linhas havia muitas cores. Asui pegou um novelo, viu que tinha várias emendas e o manuseou com mais cuidado, sem se apressar em elogiá-lo. Gu Qin escolheu só dois rolos de linha branca do estoque antigo. O vendedor disse que o azul novo vendia bem. Ela respondeu que, por mais bonito que fosse, alguém ainda tinha de querer costurar roupa com linha azul, e ela já tinha dois rolos intocados no cesto. Asui gostou de ver que Gu Qin não se deixava levar, mas guardou isso para si. Se o vendedor lhe tivesse dito a mesma coisa, provavelmente já teria comprado mais um novelo para o filho.
Ao chegarem à beira do rio, a água era mais larga do que ela imaginava. Não havia grandes barcos vindos de longe, só uma canoa de lenha encostada de viés na margem. Duas pessoas, uma na frente e outra atrás, descarregavam a lenha. Havia folhas úmidas nos galhos, e, quando uma caiu, a corrente mansa a levou até os degraus de pedra. Asui parou e ficou muito tempo olhando. Gu Qin pôs o cesto no chão, abriu o banquinho dobrável e perguntou se, quando tivesse olhado o bastante, podia ajudá-la a separar as linhas que estavam emboladas.
Ela disse que sim e, mesmo ao se sentar, virou a cabeça para olhar o rio. O vento frio entrou pela boca da calça, e até o papel do remédio pareceu esfriar, mas ela não quis voltar logo para o quarto. Aquele rio, de que ouvira falar havia tanto tempo por quem ia e vinha, finalmente saíra da boca dos outros. Não se mostrou mais falante por isso. Só continuou passando diante dela, corrente após corrente. Ela começou a desembaraçar devagar as pontas da linha e, quando encontrava um nó cego, o erguia para Gu Qin ver e perguntava se era para deixá-lo.
Chegou um freguês, e Gu Qin começou por remendar um saco de pano grosso. Ele tinha pressa e pediu que ela não se preocupasse com a regularidade dos pontos, desde que desse para carregar as coisas. Em poucos movimentos, ela fechou a costura, virou o saco, mandou o homem puxar para testar e então cobrou. Asui olhou com certa inveja. Com aquelas mesmas mãos, nas montanhas, costumava dizer que era só trazer o que precisasse de remendo, e quem vinha buscar sempre falava em trazer alguma coisa da próxima vez. Nas mãos de Gu Qin, cada trabalho tinha um som que marcava seu fim.
Ela quis dizer que também sabia fazer aquilo, mas, quando abriu a boca, acabou falando da habilidade do filho. Gu Qin ouviu e perguntou o que a habilidade do filho tinha a ver com aquela linha. Foi tão direta que o rosto de Asui esquentou na hora. Gu Qin, porém, pegou a linha que ela já tinha desembaraçado e passou pela agulha, sem esperar resposta. Asui baixou a cabeça, separou o pequeno novelo mais emaranhado e, prendendo a respiração, trabalhou nele por um tempo. Acabou deixando a linha ainda mais bem arrumada que antes.
Ao meio-dia, Xu Shen voltou ao Beco Nanhuai com um pote de sopa morna. A porta do quarto da mãe estava fechada. Lá dentro, Huangdou ouviu seus passos e choramingou duas vezes. Xu Shen chamou pela mãe. Ninguém respondeu. Empurrou a porta e logo deu pela falta do cesto de costura, que costumava ficar sob a janela, junto ao pé da cama. Sentiu um aperto, até ver que o cesto só tinha sido mudado para perto da gaveta. O casaco de A Sui também não estava lá. Era claro que ela tinha saído e não que tinha se mudado de volta para a montanha.
Mesmo assim, a primeira coisa que fez foi perguntar a Fang Guiniang se tinha visto a mãe dele. Fang Guiniang estava carregando um saco de arroz e respondeu que a vira sair pela manhã, aparentemente rumo à botica. Xu Shen largou a sopa e saiu. Depois de alguns passos, voltou para encostar a porta do quarto, com medo de que o cachorro escapasse. Por dentro, não admitia que estivesse preocupado, mas já tinha pronta a frase que diria à mãe quando a encontrasse. Onde quer que fosse, bem podia deixar um recado.
Ela não estava na farmácia. O empregado disse que a senhora saíra fazia tempo, com dona Gu, que costumava ficar à beira do rio. Xu Shen dobrou mais uma rua e, no caminho, viu de costas alguém que se parecia com a mãe. Acelerou o passo, mas logo percebeu o engano. A mulher se virou e perguntou se ele a tinha chamado. Ele balançou a cabeça e andou mais devagar. De repente, pensou que havia tanta gente da idade da mãe na cidade e que ele nunca tinha parado para perceber por qual delas também havia alguém à procura.
Quando chegou à beira do rio, Gu Qin bebia água e Asui segurava para ela uma ponta de pano dentro do cesto. Quando o vento a levantava, ela a alisava com as costas da mão. Xu Shen parou a poucos passos e a primeira coisa que viu foi a mãe rindo. Ele não sabia do que falava com Gu Qin, mas as rugas nos cantos dos olhos se juntaram todas, e logo ela baixou a cabeça, como se temesse que, de tanto rir, os pontos saíssem tortos. De repente, Xu Shen não achou uma brecha onde encaixar as palavras que tinha preparado.
Quando A-Sui o viu, parou de rir e perguntou primeiro se tinha acontecido algo na carpintaria. Xu Shen disse que levara sopa para ela e não encontrara ninguém no quarto. Ela tirou então o embrulho do remédio e disse que o médico recomendara que não ficasse sentada o dia inteiro e caminhasse mais, devagar. Era verdade, embora fosse só parte do que o médico dissera. Guardou para si o resto, que ainda não tivera tempo de contar, sobre se poupar do vento. Continuou segurando a ponta do pano. Não queria se levantar assim que visse o filho, como quem fez alguma coisa errada.
Gu Qin abriu um espacinho ao lado e perguntou a Xu Shen se queria se sentar. Como é que ele ia se sentar, com Ren Quan ainda esperando aquelas duas peças de madeira? Viu que o banco junto aos pés da mãe estava firme e que ela não estava longe de casa. Acabou dizendo só que a sopa estava no quarto, que ela a esquentasse quando voltasse, em vez de beber como se fosse água fria. Asui disse que sabia, no mesmo tom em que ele falara antes de sair na véspera. Ao ouvi-la, Xu Shen se deu conta de que agora era ele quem queria dar mais recomendações e não tinha tempo.
Antes de sair, ele pediu à mãe que não ficasse sentada tão para fora, pois o vento do rio era frio, e mudou o banco para a sombra do muro. Gu Qin viu o pé do banco tocar seu cesto e primeiro puxou o cesto para o lado, sem dizer se estava bom ou ruim. A-Sui esperou o filho se afastar e virou o banco um pouco. Assim ainda via o rio, sem ficar tão exposta ao vento. Gu Qin viu, baixou a cabeça para pegar a agulha e pareceu sorrir de leve, sem voltar a perguntar quem devia dar ouvidos a quem.
Na volta para casa, A-Sui andou mais devagar. Gostara tanto de ficar sentada que, ao se levantar, sentira mais dor que de manhã. Não quis dizer nada a Gu Qin, só olhou duas vezes para a banca de pães no vapor. Gu Qin comprou meio pão para si e disse que estava cansada de andar e queria usar aquele trecho de muro para se sentar. A-Sui não a desmentiu. Sentou-se com ela e, quando partilharam um pedaço de pão, percebeu que também estava com fome havia tempo.
À tarde, a sopa no pote já estava quase fria. Ela mesma acendeu o fogo para esquentá-la e ficou olhando os gravetos secos na boca do fogãozinho. Pensou que, se estivesse na montanha, mais meio dia teria passado assim: varrer, cozinhar, servir mais uma tigela se alguém aparecesse e, se ninguém viesse, ficar ali cuidando do fogo e esperando sem pressa. Naquele dia, tinha saído uma única vez e não ganhara dinheiro, mas lembrava como outra velha esticava um pouco a beirada do pano antes de dar o ponto. Lembrava também a água do rio levando sem parar uma folha úmida caída da lenha.
A luz do sol começou a se retirar debaixo da janela. A Sui baixou a linha e desistiu de insistir em passá-la pelo olho da agulha fina naquele restinho de claridade. No canto da mesa ainda havia meio bolinho que o filho tinha comprado, com as migalhas de açúcar todas caídas no papel. Ela deu uma mordida, em vez de guardar tudo. Huangdou se aproximou, e ela afastou o focinho dele com a mão, dizendo que aquele pedaço não era para ele. O cachorro não entendeu. Deitou-se e tornou a erguer a cabeça, enquanto ela tomou primeiro, devagar, toda a sua sopa morna.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.
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