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Um volume nas mãos

Romance longo de costumes, de inspiração chinesa antiga

Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro

酷无极 · Criação com IA · 10568 caracteres · Cerca de 11 minutos

No dia catorze do quarto mês, A-Sui preparava o arroz quando ouviu alguém vender favas na rua. As vagens batiam na peneira de bambu com um som fofo. Ela perguntou o preço pela janela e comprou um punhado. Ao abrir as vagens, viu os grãos tenros vestidos de branco. Bastava apertá-los com a ponta dos dedos para aparecer o verde vivo. Pretendia esperar o filho voltar para comerem juntos, mas, à tarde, quando sentiu o cheiro das favas na panela, a barriga roncou primeiro.

De manhã, Xu Shen dissera que ia consertar uma janela numa casa da Rua Leste e que talvez passasse à tarde na oficina dos Ren para ver as peças curtas que tinham acabado de chegar. Podia voltar a qualquer hora. Ela logo disse que estava bem, mas, na hora de pôr as tigelas na mesa, arrumou as duas lado a lado como sempre. A manga azul junto à janela já passara por uma lavagem. A direita encolhera um pouco e agora estava até mais alinhada com a outra do que quando ela as costurara. Asui olhou para a manga, pegou os pauzinhos e tornou a pousá-los.

Fang Xiao se agachou à porta e perguntou se tinha favas. A-Sui lhe deu três. Com medo de que estivessem quentes demais, pôs primeiro num pires. A menina soprou até encher as bochechas, comeu uma e disse que Guiniang adorava favas, por isso levaria as outras duas para ela. A-Sui completou cinco e mandou que levasse o pires, sem enfiar nada na manga. Fang Xiao saiu correndo com o pires nas mãos. No meio do pátio, voltou de costas, dizendo que tinha esquecido de agradecer à vovó Lin.

A-Sui sorriu e respondeu à menina. Assim que ela saiu, o quarto ficou quieto, mas o cheiro de feijão se fez ainda mais forte. A-Sui se serviu de uma tigela e provou um grão, tão macio que quase dispensava mastigar. Pensou em esperar mais um pouco, mas a mão já tinha pegado o segundo grão com os pauzinhos. Quando chegou à metade da tigela, ouviu passos lá fora e ergueu a cabeça. Era só Du Ji passando para pedir uma tesoura emprestada à filha.

Du Ji parou junto à porta e elogiou o cheiro do feijão. Ela perguntou se ele já tinha comido. Ele disse que sim, mas a barriga roncou. Os dois ouviram, e ele foi o primeiro a rir e perguntou se podia pedir meia tigela. A-Sui serviu mais uma porção e o convidou a sentar no banquinho perto da porta. O velho contou que tinham pintado as rodas da carroça nova da adega com as cores erradas, uma de cada cor, como se a carroça usasse sapatos diferentes. A-Sui, com um feijão entre os hashis, riu a ponto de quase engasgar.

Du Yin saiu do quarto leste, viu o pai com a tigela nas mãos e perguntou, fingindo repreendê-lo, se andava de novo filando comida na casa alheia. Ele sacudiu a tigela vazia e disse que, se a filha se dispusesse a cozinhar em casa, não precisaria pedir nada à senhora Lin. Ela pegou a tigela para lavar. Asui viu os dois discutirem baixinho sobre onde estava a tesoura e, de repente, sentiu que a tigela que comera antes do filho não o tinha posto para fora de casa nem criado mais uma dívida que ela precisasse compensar.

Ela deixou o resto da comida na panela e tampou bem. As brasas do fogão já tinham perdido o brilho, e ela não pôs mais carvão. Quando entardeceu e Xu Shen ainda não tinha voltado, deixou de esquentar a comida pela terceira vez. Lavou primeiro a própria tigela e sentou-se junto à janela para arrematar a borda do protetor de palma. Huangdou já tinha comido e dormia com as quatro patas esparramadas. Do outro lado da grade, Fang Xiao lhe contava que seu gato já tinha ganhado orelhas. O cachorro não deu atenção, e ela contou tudo até o fim, com toda a seriedade.

A janela que Xu Shen consertava naquele dia ficava rente a uma romãzeira no pátio leste. A dona da casa reclamou que a janela, ao abrir, varria os galhos. Primeiro pediu que abrisse para dentro, depois para fora e, por fim, achou melhor voltar a abrir para dentro. Ele desbastou um canto da madeira e refez o trabalho duas vezes, até ficar irritado também. A filha caçula da casa recolhia botões de flor ali ao lado. A cada botão, perguntava se já dava para abrir a janela. Com medo de assustá-la, ele conteve a irritação, apanhou para ela o último botão junto ao pé e o colocou no muro baixo.

Quando ia guardar as ferramentas, o dono da casa ainda pediu que desse uma olhada no pé da cama. O pé não estava quebrado, só que o piso era desnivelado. Um calço pequeno de madeira dura bastava para firmá-lo. Xu Shen achou que seria rápido, mas atrás da cama havia um amontoado de tralha. Tirar tudo, varrer e testar de novo tomou mais tempo que o próprio conserto. Quando o dono comentou que aquilo nem chegava a contar como outro serviço, ele já estava com as mangas cobertas de poeira. Quis discutir, mas teve medo de parecer daqueles que cobram até por uma lasca de madeira. No fim, recebeu o pagamento de meio dia, com o rosto tão duro quanto a madeira em suas mãos.

Ao sair, a filha menor veio correndo lhe dar o mais vermelho dos botões de flor. Ele ia recusar, mas viu a menina de rosto erguido para ele e guardou o botão na bolsa. Pelo caminho, achou graça de si mesmo por se sentir como se uma flor pudesse apagar meio dia de esforço. No fim, porém, levou para casa toda aquela raiva e foi despejá-la diante da panela fria.

Xu Shen só voltou quando já estava completamente escuro. A família da janela tinha mudado as medidas e ainda pedira que ele desse uma olhada no pé da cama. Trabalhou o dia inteiro, ouviu reclamações três vezes e, no fim, só recebeu meio dia do valor combinado. Recusou-se a esperar mais enquanto a família discutia sem pressa. Pegou o dinheiro e foi embora sem ter comido nada quente. Ao cruzar a soleira, estava de cara fechada.

A lamparina estava acesa, mas na mesa da mãe não havia tigelas. Xu Shen perguntou o que tinha para comer. Asui disse que tinha arroz com feijão na panela, era só pôr um pouquinho de água e esquentar. Ele levantou a tampa. A superfície do arroz já estava fria, e a pele dos feijões tinha pequenas rugas esbranquiçadas. Sem saber por quê, sentiu que a irritação que vinha guardando encontrara de repente onde cair.

“Eu não disse que voltava para comer?”, perguntou ele.

A agulha de Asui parou na beira do pano. Ela se lembrou de que tinha almoçado e até separado meia tigela para Du Ji. De repente, foi como se tivesse feito algo errado com alguém. Tirou os sapatos e já ia descer da cama. Ao ver a mãe apoiar a mão na beirada e mover o joelho devagar, Xu Shen ficou ainda mais irritado. Estendeu a mão para detê-la e disse que ele mesmo faria. A voz saiu tão dura que pareceu outra repreensão.

Ele pôs a panela no fogão sem ver que o fundo estava cheio de cinzas. Mal a chama subiu, já ficou abafada. Ele enfiou madeira velha demais, a fumaça voltou, e ele passou a mão no rosto e se dobrou de tanto tossir. Atrás dele, A-Sui disse que primeiro tirasse as cinzas. Ele continuou enfiando lenha às pressas. Na terceira lasca, enfim parou, tirou as brasas com a tenaz, agachou-se e limpou bem o fundo do fogão.

Du Yin ouviu a tosse, saiu ao pátio e perguntou se ele queria água. Ele logo disse que não precisava, mas achou que tinha falado num tom ruim e acrescentou que ainda havia arroz na panela e que ele mesmo podia esquentá-lo. Vendo que a mãe dele ainda estava de pé, Du Yin acompanhou-a de volta até a beira da cama e deu o último nó no protetor de palma. Deixou o arroz por conta dele no fogão.

O arroz finalmente esquentou, mas queimou um pouco no fundo da panela. Xu Shen provou primeiro. O gosto de queimado era forte, e ele quis jogar fora sem que ninguém visse. Do outro lado da cortina, a mãe disse que não despejasse aquilo na tigela de Huangdou, que tinha dentes ruins e não conseguia mastigar o que fosse duro. Ele acabou separando a parte queimada com uma espátula pequena, serviu o arroz macio de cima, acrescentou um pouco de água quente e comeu devagar.

Ninguém na casa voltou a perguntar por que ele se atrasara. No meio da refeição, ele mesmo contou sobre o pé da cama daquela família, deixando escapar também que eram mesquinhos. A mãe não começou logo a xingar; perguntou apenas se, no início, tinham combinado que ele também consertaria a cama. Ele disse que não; depois haviam pedido, e ele achara que poderia aproveitar para fazer. Enquanto falava, seus pauzinhos ficaram mais lentos: ouvindo a própria voz, percebeu que, mesmo naqueles últimos dias, ainda prometia involuntariamente fazer coisas só porque estava ali.

Asui puxou um pires de rabanete seco para a frente dele e disse que já tinha comido à tarde, que o velho da família Du também tinha provado meia tigela e que ela não deixara o resto no fogo o tempo todo. Pensou que ele podia esquentar quando voltasse. Ele fez um “ah” e, a princípio, sentiu um azedume por dentro ao pensar que a mãe tinha servido outra pessoa antes dele. Logo lembrou que acabara de dividir um pão cozido no vapor com Chen Sheng na rua, sem perguntar se alguém ainda estava com fome em casa.

Quando acabou de comer, ele pôs o arroz endurecido no fundo da panela de molho e só se sentou depois de lavar a tigela. Ao vê-lo sentar, a mãe logo afastou o cesto de costura para lhe dar espaço. Ele perguntou se, quando voltasse tarde, ela passaria a comer sempre sem esperá-lo. A-Sui olhou para o pavio e, depois de um bom tempo, disse que, se tivesse fome, comeria primeiro. Se não tivesse, esperaria um pouco. Nem ela sabia em que dia conseguiria fazer como acabara de dizer.

Xu Shen baixou a cabeça, soltou uma risada e disse que a comida daquele dia estava mesmo ruim. A mãe também riu, dizendo que os feijões estavam deliciosos quando saíram da panela. Ele arregalou os olhos para ela de propósito, e A-Sui riu ainda mais. Depois de rir, estendeu a mão e limpou uma mancha de fuligem que restara junto ao rosto dele. A polpa de seu dedo era áspera e arranhou um pouco sua bochecha; dessa vez ele não se esquivou, deixando-a limpar.

Enquanto lavava a panela, ele tirou da bolsa o botão de romãzeira amassado e o pôs no parapeito. A-Sui perguntou de onde vinha. Ele disse que tinha ganhado da criança da casa onde consertara a janela. A mãe olhou o botão e, dessa vez, não ralhou com os adultos da casa. Pegou uma tacinha rachada, pôs um pouco de água e deixou o botão ali. Àquela altura ele já não ia florescer, mas à luz da lamparina ainda refletia um vermelho suave. A mãe disse que, quando acordasse, tornaria a ver se ele conseguia se abrir. O filho deixou que ela esperasse.

No dia seguinte, ele fez questão de voltar antes do meio-dia. Pôs na mesa uma tigela de macarrão quente que acabara de comprar e disse que ia voltar mais tarde, que não guardasse jantar para ele, pois comeria na rua. A Sui estava lavando as cebolinhas. Sentiu o cheiro do macarrão e aceitou. Xu Shen esperou que ela se sentasse para sair, mas, ao chegar ao pátio, voltou para levar seu pedaço de arroz queimado. Tinha deixado de molho na véspera e já estava macio. Podia misturar com um pouco de verdura e comer ele mesmo. Não podia ficar sempre deixando para a mãe dar conta do que não estava gostoso.

Ao anoitecer, ele de fato comeu na rua antes de voltar. O vendedor de bolinhos à entrada não lhe fez perguntas por vê-lo sentado sozinho. Comeu mais rápido que de costume, caminhou um pouco pela margem do rio e só então foi ao quarto do lado leste devolver a Du Yin o pano de embrulhar a caixinha. Ela perguntou quem tinha feito o jantar. Ele disse que já cozinhara uma vez e que a comida saíra da cor do fundo da panela. Du Yin riu tanto que a linha que tinha na mão se enrolou no botão, e pediu que ele a ajudasse a soltar.

Sentada junto à janela sul, A-Sui ouviu os dois jovens conversando e rindo baixinho. Sentiu uma ponta de tristeza, mas ainda assim jogou fora o caldo do macarrão que sobrara na mesa, sem tampá-lo à espera de mais alguém que elogiasse o cheiro. Separou o feijão que poria de molho no dia seguinte, apenas uma tigelinha. Se Xu Shen estivesse em casa, daria para fazer mais um prato. Se não estivesse, nem comendo sozinha precisaria guardar sobra até o terceiro dia.

Naquela noite, uma mariposa voava em volta da lamparina. A-Sui tentou guiá-la com um leque de taboa, mas ela insistia em se lançar para a luz. Por fim pousou na manga azul nova de A-Sui, abrindo e fechando as asas cinza-amareladas. Ela esperou um pouco de braço erguido, até sentir dor, e então baixou devagar o punho da manga até a janela. A mariposa enfim voou para fora. Massageando o ombro, A-Sui riu por não conseguir reter nem um insetinho. Huangdou soltou um bufo, como se respondesse por ela que, se não ficava, era só deixar ir.

Depois de escurecer, Xu Shen voltou ao quarto e bateu de leve no batente. A mãe respondeu lá de dentro. Ele entrou para pegar água e perguntou se a lamparina ainda dava luz. Asui disse que dava. Do lado de fora, as folhas da sófora já tinham se aberto, e as vozes de perto e de longe no beco pareciam passar por uma peneira de folhas antes de cair no quarto, uma onda depois da outra. Ninguém precisava deixar esfriar a própria comida para poder ouvir o outro chegar em casa.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliada a partir de 《逢雪宿芙蓉山主人》, de Liu Changqing, e do conto original deste site, 《雪夜留门》, Uma porta aberta na noite de neve. As personagens, a cidade, os trajetos e o enredo são inteiramente fictícios, num universo de inspiração Tang; a obra não é uma tradução do poema nem uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. Aquele quarto voltado para o sul
  2. A neve chega à soleira
  3. A terceira tigela
  4. Antes que a porta caísse
  5. Os caracteres pretos na encruzilhada
  6. O portão da cidade à tarde
  7. O fogo emprestado no pátio
  8. Uma porta de igual valor
  9. À porta, ninguém bateu ao meio-dia
  10. A placa de estrada virou de lado
  11. Um par de mãos junto à cesta de costura
  12. A água da neve se infiltra na parede sul
  13. Um lugar na viagem de volta à terra natal
  14. A divisão que passou despercebida na régua
  15. A mão sob a porta
  16. As palavras que a mãe disse por ele
  17. Madeira para portas empilhada no abrigo de chá
  18. O atalho por onde a carroça não passa
  19. De quem é o quintal?
  20. Uma carga no ombro, duas cordas
  21. Daxiu levou a panela embora
  22. O banco em que ninguém se sentou
  23. Quem deu a casa velha em promessa?
  24. Pôr a porta nova na chuva
  25. O quarto que ela ainda não desocupou
  26. O pente deixado na carpintaria
  27. Na placa não há nome de ninguém
  28. Um quarto aquecido não é remédio
  29. Aquele convite antes do Festival do Barco-Dragão
  30. O cesto de costura que não foi vendido
  31. O abrigo de chá ganhou seus próprios dias
  32. O acerto da madeira na montanha
  33. De quem receber a carga
  34. Uma panela de comida que não precisa esfriar primeiro
  35. Consertar a porta para quem vive ali
  36. Até onde o sol já baixou

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