Romance de ambientação chinesa antiga sobre ofícios e vida social
Meio dia de pagamento
酷无极 · Criação com IA · 10714 caracteres · Cerca de 11 minutos
Na primeira vez que Dong Xiaoman entrou na casa dos Gu, antes de olhar as flores sobre a mesa, apalpou a corda onde a seda secava. A corda estava esticada entre dois pregos velhos e cedeu meio cun no meio quando ela a pressionou com o dedo. Gu Qing achou que Xiaoman ia comentar a precariedade do lugar e já ia explicar que só mudara a corda de posição por causa da obra no muro. Xiaoman, porém, perguntou se o tecido molhado também era pendurado ali. Gu Qing disse que sim. Xiaoman então tirou o casaco e o pôs numa vara mais baixa, deixando a corda livre para o tecido.
Foi a senhora Ji quem a indicou. No inverno, havia pouco trabalho na tinturaria, mas era preciso aprontar as mercadorias para o ano-novo. Algumas pessoas podiam voltar para casa e descansar, outras, se descansassem um dia, perdiam a comida daquele dia. Quando foi comprar linha, Gu Qing comentou que a loja dos Yao queria testar mais alguns tipos de camélia e que ela sozinha não ia dar conta. Do outro lado de meia peça de seda, a senhora Ji perguntou se ela procurava alguém capaz de fazer o trabalho ou alguém que a chamasse de mestra. Gu Qing achou a pergunta estranha e respondeu que, claro, queria alguém que trabalhasse bem. Só então a senhora Ji chamou a moça que ajudava a amarrar um embrulho junto à porta.
Xiaoman era três anos mais nova que ela, mas não começava as falas sorrindo. Ao saber que faria flores, perguntou primeiro quem forneceria o material já tingido e se poderia trabalhar o dia inteiro ou meio dia. Gu Qing respondeu a tudo e, por fim, disse que começariam com meio dia: se chegasse cedo, poderia sair antes da refeição. Quanto ao dinheiro, pretendia oferecer seis moedas pelo meio dia, mas, olhando as linhas novas que acabara de repor e receando que a outra fosse lenta, mudou a proposta: primeiro envolveria as hastes e separaria as pétalas; receberia duas moedas por conjunto pronto, e três conjuntos também dariam seis.
Xiaoman assentiu uma vez, sem dizer qual maneira preferia. Só perguntou o que contava como uma porção. Gu Qing mostrou um ramo pronto. Era para revestir por inteiro a haste abaixo da flor e separar as pétalas na quantidade certa para cada ramo. Xiaoman não precisava montar o miolo mais delicado. Ela virou a base do ramo, observou em que direção a linha fora enrolada e o pôs no meio da mesa. Ambas acharam que já estava claro o bastante e não perguntaram o que aconteceria se uma porção saísse errada nem como contaria o tempo de parar para modificar um modelo.
Shen Su saiu do quarto e, ao ouvir que o sobrenome da moça era Dong, perguntou se ela vinha da tinturaria da Ponte Sul. Xiaoman disse que sim e a cumprimentou chamando-a de vovó Shen. A avó fez um gesto com a mão e apontou um banquinho junto à mesa para que ela se sentasse, sem ceder o próprio lugar. Só quando foi buscar o material Gu Qing percebeu que, com as três em volta da mesa que tinham recuado para dentro da casa, mal havia espaço para as pernas. Ela trouxe uma velha folha de porta para ampliar a outra ponta. Xiaoman disse que não precisava de tanto, que um palmo livre junto à mão bastava.
A primeira porção ficou pronta depressa. As mãos de Xiaoman trabalhavam com menos delicadeza que as de Gu Qing, mas eram firmes. Ao enrolar a linha, ela não puxava a haste de bambu para o lado por se apressar. Dispôs as pétalas brancas já separadas da mais larga à mais estreita, sem deixar as duas menores sob as grandes, com o mesmo cuidado de quem, na tinturaria, já sabe de que lado a seda pendurada vai absorver um pouco mais de cor. Gu Qing observou, muito satisfeita por dentro, mas relutava em elogiar demais logo de saída, com medo de que depois Xiaoman deixasse de ouvir suas correções.
No segundo lote, ela separou duas pétalas e disse que a borda estava um pouco fina. Xiaoman ergueu uma delas contra a luz e perguntou se o material já era fino ou se era para ela aparar a borda. Gu Qing disse que as duas coisas contavam. Se o cliente pegasse numa borda desfiada, ainda assim culparia quem fizera a flor. Xiaoman deixou a observação passar. Trocou as pétalas e pôs as duas originais no pratinho de sobras, separadas das que estavam alinhadas na bandeja. Ao ver o gesto, Gu Qing não resistiu e perguntou se podiam guardar aquelas duas para fazer flores pequenas. Xiaoman disse que sim, contanto que ela as pusesse em outro lugar, para que na próxima vez não acabasse pegando as mesmas e contando como pétalas boas.
Na terceira porção, Shen Su começou a enfiar linha fina na agulha para Gu Qing. Tentou só onde havia bastante luz, aproximando e afastando a agulha, até conseguir enfiar a linha depois de um bom tempo. Gu Qing ia pedir que deixasse para lá, mas Xiaoman baixou o estojo de agulhas e disse que, com um olho um pouco maior, a ponta da linha grossa não desfiaria tão facilmente. A avó ergueu os olhos e disse que uma agulha grossa deixaria buracos na seda fina. Xiaoman assentiu, guardou a agulha como estava e deixou por aí a tentativa de mostrar que também entendia do assunto.
Gu Qing sentiu certa distância entre as duas e logo pegou a camélia nova para pedir a opinião de Xiaoman. A amostra viera da loja de Yao. As pétalas externas deviam ser cheias, e o miolo não podia ser tão aberto quanto o da flor de ameixeira. Xiaoman olhou e de repente enrolou uma pétala para fora, sustentando-a de lado, como se ela tivesse virado ao vento antes mesmo de firmar a abertura. À primeira vista, Gu Qing achou bonito. À segunda, achou que não se parecia com a amostra da loja de Yao. Pediu que Xiaoman a deixasse de lado e seguisse, por enquanto, o modelo original.
Xiaoman esboçou algo que talvez fosse um sorriso e encaixou a pétala recurvada ao lado do velho grampo de madeira que usava atrás da cabeça. O cabelo, preso sem muito aperto, fazia a pétala parecer tão leve que podia cair a qualquer momento. Ela, porém, ficou no lugar. Gu Qing quis mandar que a tirasse. Por menor que fosse o pedaço de tecido, não se podia simplesmente sair usando. Já ia falar quando a avó comentou que, daquele jeito, a pétala deixava o rosto livre. Gu Qing engoliu o que ia dizer e separou outra pétala para Xiaoman, explicando que não pretendia descontar o material, só temia que faltasse uma no lote da encomenda.
Xiaoman tirou a flor do cabelo e a pôs de volta na beirada da mesa. Disse que aquela pétala podia contar como um teste que ela mesma estragara, fora da quantidade a entregar. Disse isso num tom neutro, mas Gu Qing sentiu um mal-estar sem saber por quê, como se, antes mesmo de se tornar alguém capaz de dar de comer a outra pessoa, já tivesse aprendido a contar com os olhos cada movimento das mãos alheias. Tirou seis wen e esperou Xiaoman alinhar os três lotes. Então pôs o dinheiro bem na beirada, sem faltar uma moeda.
Xiao Man não pegou o dinheiro de imediato. Perguntou se deveria voltar no dia seguinte. Gu Qing disse que sim, no mesmo horário; se precisasse sair, pediria à avó que acompanhasse o trabalho. Só depois de olhar para Shen Su, Xiao Man guardou as moedas na bolsinha do cinto. Disse que talvez se atrasasse um pouco no dia seguinte, pois antes precisava ajudar a erguer uma carga de uma cuba que estavam terminando na tinturaria. Gu Qing concordou, já calculando quanto renderia a menos aquele atraso, mas não perguntou se aquela cuba de material contava como um serviço ou como meio dia.
Depois que ela saiu, a avó tornou a pegar a pétala enrolada que Xiao Man largara e pediu a Gu Qing que olhasse o verso. Não fora feita com o molde antigo da família. A borda ligeiramente inclinada fazia com que, virada para fora, não parecesse formar deliberadamente um círculo completo. Gu Qing disse que era muito boa, mas não era aquilo que a loja Yao queria. Shen Su respondeu que tampouco lhe pedira para mudar o modelo do cliente e devolveu a pétala ao lugar. Gu Qing sentiu de repente que havia duas formas distintas de ser muito bom naquela mesma mesa; por enquanto, porém, ainda não podia cuidar da segunda.
Ela não aguentou esperar os cinco dias combinados e foi ao Mercado do Leste na tarde seguinte ver as oito flores. Yao Liao disse que cinco haviam sido vendidas e três continuavam lá. A seis wen por flor, podia acertar trinta naquele dia. Gu Qing pegou o dinheiro. A conta era mais redonda que as de quando vendia na rua e juntava o ganho de flor em flor, mas ela não se sentiu tão aliviada quanto esperava. Já havia comprado material novo e pago Xiaoman, e ainda tinha de levar de volta as três flores encalhadas para trocar os modelos. Ter aquele cordão de moedas na mão não queria dizer que podia gastá-lo todo em outra coisa.
Yao Liao a viu de olho na conta e perguntou se ia desistir de fazer flores. Gu Qing balançou a cabeça e se apressou a dizer que não estava reclamando do preço. Era a primeira vez que tinha ajuda e queria calcular como dar conta do trabalho. Yao Liao disse que também fazia essas contas todos os dias. Das três mulheres que trabalhavam ali, uma teria em breve de voltar para casa para cuidar de um doente, e as flores das festas de Ano-Novo não podiam faltar. Se Gu Qing conseguisse mesmo fornecer mais, ela aceitaria tanto camélias como flores de ameixeira. Mas a cada vez teriam de acertar o modelo antes, sem fazer as flores primeiro e depois reclamar que os clientes não as aceitavam.
Gu Qing tornou a acomodar as três flores que não tinham vendido. Uma era curta e, de tanto ficar junto ao balcão, tinha entortado um pouco sob pressão. Quando estendeu a mão para ajeitá-la, a mulher atrás do balcão lhe passou um pedacinho de linha e disse que não forçasse. Gu Qing sorriu e agradeceu. A mulher também sorriu e perguntou se a moça nova que trabalhava na casa dela era da família Dong. As duas tinham trabalhado juntas na tinturaria. Ao descobrir que Xiaoman era conhecida em outros lugares, Gu Qing se surpreendeu sem saber bem por quê, como se a pessoa que contratara por meio dia devesse pertencer o dia inteiro à sua mesa.
No dia quinze, Xiaoman de fato chegou um quarto de hora atrasada. Tinha uma mancha azul-escura na manga, ainda úmida de tanto lavar. Gu Qing perguntou logo se ela tinha manchado o tecido branco dali. Xiaoman disse que nem tinha tocado nele e foi lavar as mãos por conta própria. Quando voltou, Gu Qing empurrou para ela um conjunto de hastes de bambu de dois dias antes e disse que duas estavam com a linha frouxa e precisavam ser refeitas. Xiaoman passou os dedos nelas, não discutiu, tirou a linha velha sobre um pires e tornou a enrolá-las.
Naquele meio dia, ela entregou só duas porções. Gu Qing contou quatro moedas. Xiaoman estendeu a mão, hesitou e perguntou se o trabalho de desmanchar as duas hastes não contava. Gu Qing disse que elas não tinham sido feitas direito da primeira vez e que a loja dos Yao fazia a mesma conta com ela. Se devolvessem alguma coisa, era preciso refazer. Xiaoman ergueu a cabeça e a encarou, como se tivesse uma longa resposta a dar, mas no fim só disse que entendeu. Guardou as quatro moedas e ainda varreu a mesa antes de sair, sem bater a porta nem deixar a avó ver que se sentia injustiçada.
Shen Su não tinha se metido na conversa. Só quando Gu Qing começou a fazer os miolos das flores é que perguntou se não podia ter sido ela quem, dois dias antes, deixara de explicar direito em que sentido enrolar a linha naqueles dois caules. Gu Qing disse que tinha mostrado um modelo. A avó perguntou se aquele ramo não tinha uma volta a mais escondida na base e se ela tinha desmanchado a peça que mostrara a Xiaoman da primeira vez. A mão de Gu Qing parou. De repente, lembrou que na primeira vez só tinha virado a parte de fora e de fato não tinha desfeito o nó sob o miolo. Teve vontade de correr atrás de Xiaoman para completar o pagamento com as duas moedas, mas viu que a entrada da viela já estava cheia de gente e disse a si mesma que dava no mesmo falar no dia seguinte.
No dia seguinte vieram materiais novos e clientes novos perguntando por flores. Ela juntou os dois wen ao troco para comprar agulhas e, ao mudar o material de lugar, esqueceu a que se destinavam. Xiaoman continuou chegando na hora. Às vezes mudava de posição o grampo de madeira atrás do cabelo, mas já não punha ali qualquer pétala nova. Junto à mesa, a amostra de pétalas viradas para fora ficara espremida sob uma tigela vazia. Quando Gu Qing se lembrou dela, já não dava para ver a leveza de vento que tinha no início.
Ao entardecer do dia dezessete, Gu Qing descobriu que a avó tinha costurado seis miolos de flor enquanto ela estava fora. Os pontos tinham sido dados devagar, e num dos miolos uma carreira saíra errada. Assim que viu, Gu Qing quis desmanchá-la. Shen Su estava sentada junto ao braseiro, com as costas das mãos avermelhadas, e não disse quanto tinha feito. Gu Qing acabou deixando a tesoura onde estava, separou aquela flor e perguntou primeiro se a avó já tinha comido. Shen Su disse que tinha tomado meia tigela de mingau. Gu Qing foi à cozinha esquentar a outra metade, sem querer olhar para aqueles seis miolos nem admitir desde quando, ao mesmo tempo que achava errada a ajuda dos outros, esperava que sempre houvesse alguém à mesa para terminar o que faltava.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《梅花》 (Flores de ameixeira), de Wang Anshi, e o conto original deste site 《不卖春风》 (Não vendo a brisa da primavera). Os personagens, os negócios, a geografia e a cronologia são imaginários; não se trata de uma biografia do poeta. Foram preservadas as escolhas centrais da obra original: proteger a árvore, as flores de seda sem perfume e a contemplação dos lótus por avô e neto.
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