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Um volume nas mãos

Romance de rotas comerciais e reencontros em ambientação chinesa antiga

A rua que ela mesma queria ver

酷无极 · Criação com IA · 10682 caracteres · Cerca de 12 minutos

Yao Jia seguiu o mapa que já tinha virado ao contrário uma vez. Sob a segunda ponte, dois barquinhos que vendiam verduras disputavam espaço. As mulheres a bordo discutiam preços de um lado a outro da água, e nenhuma levantou a cabeça para indicar o caminho a ela. Yao Jia parou no meio da ponte, distinguiu a bandeirinha da loja de especiarias e de repente achou Yuepu muito maior do que na véspera.

Na loja, os ingredientes recém-moídos enchiam divisórias rasas de madeira, e os cheiros vinham em camadas, um atrás do outro. Ela tinha pensado que bastaria cheirar para reconhecer o que combinava com seu vinagre. Mal entrou, espirrou duas vezes seguidas, até lacrimejar. O lojista lhe estendeu um pano limpo e perguntou, rindo, se ela vinha do lado oeste da ponte. A gente de lá sempre entrava quando o cheiro das especiarias estava mais forte. Yao Jia enxugou os olhos. Os dois espirros também tinham dispersado a ideia com que chegara, então resolveu começar pela menor divisória e ir cheirando devagar.

Um pacote de gengibre seco tinha uma ardência áspera, mas a casca de tangerina de um dos nichos era mais fina que a que ela costumava comprar em Changgan. Ao quebrá-la, ficou entre os dedos um amargor leve e fresco. Ela comprou doze moedas de canela em casca e casca de tangerina. O comerciante perguntou quantos potes ela ia fazer, e ela disse que, por enquanto, era para comer em casa. Depois achou a resposta meio mesquinha, como se alguém que fazia vinagre para vender devesse negociar uma carga inteira depois de viajar tão longe. O comerciante já tinha ido atender quem vinha atrás. Ela alisou o pacotinho, cheirou as pontas dos dedos e perdeu a pressa de guardá-lo como se fosse uma compra de negócio.

Numa banca ao lado, prendedores de bambu tinham amarelecido ao sol. Alguns eram talhados em forma de rabo de peixe. Yao Jia escolheu dois de seis moedas e testou se não beliscavam os dedos. Lembrou-se dos cantos dos panos das talhas de casa, que o vento sempre levantava, e pensou também em prender a cortina mole demais da sua janela. Demorou bastante escolhendo qual rabo de peixe era mais regular, até que o vendedor riu e disse que os dois tinham saído do mesmo entrenó de bambu. Ela riu também, mas mesmo assim trocou o que tinha uma falha na borda.

Na rua das sopas, ela pediu uma tigela de três moedas. Viu que todos punham uma colher de calda doce e grossa e pediu também. A primeira colherada até que estava boa. A segunda era tão doce que lhe secou a boca e apagou o sabor delicado das especiarias. O vendedor perguntou o que ela tinha achado. Yao Jia, de boca cheia de doçura, demorou um instante antes de dizer que estava um tanto doce. Ele respondeu que era assim que ficava bom, que todo mundo em Yuepu gostava. Ela não discutiu quantas pessoas afinal moravam em Yuepu, comprou à parte um bolinho fino por duas moedas e terminou a sopa colherada por colherada.

Ela achara que, provando as coisas pelo caminho, acabaria encontrando algo para levar de volta e fazer Gao Jiang arregalar os olhos. Mas, ao chegar perto do cais à tarde, só tinha comprado dois pacotinhos de papel e os prendedores de bambu. O sol já declinava, e a sombra da ponte caía sobre as coberturas dos barcos. Ali perto, uma mulher de túnica azul desbotada esperava alguém, sentada nos degraus de pedra com um vaso de flores no colo. As flores já tinham murchado, mas ela não se apressou. Só virou um pouco o vaso, deixando para o lado da água a parte que ainda não se dobrara.

Yao Jia se sentou dois degraus acima da mulher, desembrulhou o bolinho e comeu devagar a metade que restava. Depois de cruzar aquelas ruas, as pernas doíam mesmo. Para sua surpresa, tornou a pensar no próprio balcão e ficou imaginando se, quando abrisse no dia nove, o primeiro freguês reclamaria por ela ter passado tanto tempo fora. Mas, se pudesse voltar naquele instante para trás do balcão sem nem ter provado a sopa enjoativamente doce daquele dia, também sentiria falta.

A mulher esperou até chegar um velho com um cesto vazio debaixo do braço. Trocaram poucas palavras; o velho recebeu as flores, a mulher lhe tirou um pedaço de papel do ombro, e os dois subiram devagar para a rua. Só depois de ver o vaso se afastar Yao Jia percebeu que torcera o papel do bolinho até formar uma tira. Alisou-o, sacudiu as migalhas e se levantou para encontrar o caminho de volta à hospedaria. Dessa vez, não precisou tornar a abrir o mapa.

Lu Yan veio ao entardecer. Ao ver os dois prendedores de bambu, perguntou se eram para prender para ele aquele pano azul. Yao Jia prendeu um na borda de sua manga e disse que também podia prendê-lo; quando, afinal, o pano azul se dignaria a secar? Ele respondeu que já o recolhera ao meio-dia, parecendo lamentar, por ela, uma claridade que perdera. Ao ver sua expressão, ela sentiu de repente muita vontade de voltar àquele quarto. Mas embarcaria na manhã seguinte, ainda não arrumara a bagagem e suas pernas não queriam caminhar mais dois li.

Sentados no banquinho junto à porta lateral da hospedaria, ela lhe contou sobre a sopa de um jeito que fazia parecer que uma colherada daquela calda doce era capaz de colar um barco no lugar. Lu Yan riu e disse que aquele era justamente o lugar aonde o pai gostava de ir. Ao ouvi-lo, ela lembrou das mãos de Lu Zai partindo um bolo com toda a atenção, riu também e lhe deu a canela para cheirar. Ele se inclinou tão perto que a ponta do nariz tocou o dedo dela. Yao Jia manteve a mão onde estava. Só quando ele ergueu os olhos disse baixinho que, dessa vez, já sabia achar o caminho sozinha.

Lu Yan disse que, da próxima vez, ela podia levá-lo lá. Yao Jia assentiu, mas sentiu um pequeno aperto com aquelas palavras, “da próxima vez”. Amanhã ele voltaria à casa comercial como de costume, e ela embarcaria como de costume. O tempo que tinham hoje, sentados tão perto, não aumentaria por força daquelas palavras. Ela soltou o prendedor de bambu, mas continuou segurando a boca da manga. Depois de um tempo, perguntou se ele podia vir na manhã do dia seis. Lu Yan disse que viria, cobriu a mão dela com a sua e a segurou por um tempo, antes de deixá-la subir para arrumar as coisas.

No dia seis, o céu ainda estava cinzento quando Qiu afastou as tábuas da porta no andar de baixo. Yao Jia contou as três noites que passara ali, a do dia três, a do quatro e a do cinco. Tinha dormido as três noites inteiras naquela cama e ainda achava que a hora de partir chegara depressa. Apanhou um fio de cabelo caído junto à bacia, tocou o ferrolho, conferiu que não tinha deixado o embrulho de papel para trás e desceu abraçada à bagagem. Lu Yan estava do lado de fora. Não trazia um monte de coisas novas que ela mal conseguiria carregar. Só pegou a velha bolsa para levá-la por ela.

A passagem rio acima custava oitenta wen. Ela contou as moedas na proa e pagou tudo. Lu Yan segurava a bagagem, e ela apertava a mão que lhe ficara livre. Parados ao lado da prancha ainda mal apoiada, os dois já nem sabiam o que mais dizer na despedida. Ele perguntou se da próxima vez ela ia querer aquela sopa de novo. Ela olhou para ele e respondeu que queria ir a outro lugar, afinal ainda não tinha comido em toda a rua. Ele riu e, depois de rir, apertou mais uma vez os dedos dela.

O barqueiro apressou o embarque. Antes de se virar, Yao Jia ficou na ponta dos pés e deu um beijo leve no rosto dele. Logo pegou o embrulho nos braços e pisou sozinha na prancha. Parou junto à cobertura e levantou a mão para Lu Yan. Quis dizer que a faixa cor de damasco não estava torta, mas apertou os lábios e só ficou olhando para ele. A margem foi se afastando devagar. Ele deu alguns passos e parou ao lado de um poste de amarração. Uma longa tira de bambu na carga de um carregador bateu na ponta da roupa dele, e ele continuou olhando para ela. Só quando um barco coberto se moveu e encobriu a silhueta dele é que ela se sentou.

Subir o rio era mais lento que a viagem de ida. O casco passava por uma onda e demorava a dar a impressão de que de fato avançara um trecho. Na ida, ela contava quantos quartos de hora faltavam para vê-lo. Agora, diante do mesmo salgueiro inclinado na margem, o que lhe voltava à cabeça era aquele dedo que pouco antes não queria soltá-la. Abriu a bolsa, tornou a fechá-la e por fim tirou dois prendedores de bambu. Com eles prendeu a ponta do pano na beira da cobertura, que ficava roçando no seu rosto. A velhinha ao lado viu e pediu um emprestado.

Com um prendedor a menos, o pano ainda balançava. Cada uma mudou o seu prendedor de lugar e, por pouco, conseguiram segurar o pano. A velhinha tirou uma pera do cesto e quis entregá-la a Yao Jia. Ela recusou de leve, e a velha cortou um pedaço com uma faquinha. Só então Yao Jia aceitou. Estava tão azedo que ela apertou os olhos na hora. A velhinha riu ao ver a careta e disse que pretendia levar a pera para a nora, mas tinha medo que ela achasse azeda, e nem ela mesma se atrevera a provar. Yao Jia ficou com o pedacinho de pera na boca, ouvindo a velhinha dizer que a nora antes gostava e agora reclamava. Lembrou-se de que a mãe também lhe servira, ano após ano, um pires da conserva que ela adorava quando criança. Até no último ano a mãe ainda perguntou por que ela não comia.

A água rasa começou a fazer barulho sob o barco. A velhinha tornou a embrulhar a pera e deu ela mesma uma mordida. Yao Jia ouviu um leve assobio de ar entre os dentes. As duas se olharam e não resistiram ao riso. Com aquele riso, o vazio que ainda não se assentara em seu peito enfim abriu espaço para alguns bocados de arroz quente.

Na primeira noite, o barco atracou num cais estreito, e nos fogões da margem cozinhava mingau de arroz. No segundo dia, o vento soprava de través. À frente, os homens que puxavam o barco com cordas avançavam passo a passo, e a vida a bordo foi ficando mais lenta com eles. Ela gastou seis moedas com o mingau e os acompanhamentos que comprou nesses dois dias de viagem. Para o resto, comeu os bolinhos secos que Gao Jiang lhe dera. No terceiro dia, ainda restava um pouco. As bordas tinham endurecido, e ela as amoleceu em água quente, sentindo um leve aroma de farelo de trigo que antes teria achado grosseiro. Ainda tinha setenta e oito moedas na bolsa. As cauções pelos recipientes e o dinheiro dos insumos, guardados à parte no balcão de Changgan, ficaram intocados durante toda a viagem.

Na noite do dia sete, caiu de repente uma chuva fina sobre a cobertura, com as gotas batendo bem perto. Yao Jia acordou pensando que ainda estava na hospedaria, mas a mão encontrou a bolsa de viagem, e as pernas não podiam se estender como na cama. Ela se ajeitou para dar um pouco de espaço à pessoa ao lado e ficou ouvindo até a chuva parar. Quando pensava em Lu Yan, até o pano azul que cobria a parede branca lhe parecia bonito. Estava absorta nisso quando um ronco estrondoso mais à frente a fez rir.

No dia oito, quando o barco passou por uma curva conhecida do rio, ela já não conseguia ficar sentada. A velhinha ao lado lhe devolveu o prendedor de bambu. Ela o pegou, virou as duas caudas de peixe e não se apressou em prendê-lo de novo à cobertura do barco. Só chegaram a Chengzhou quando escurecia. Ao pisar na prancha do porto local, Yao Jia sentiu as pernas moles, como se ainda carregasse nas costas os três dias de barco. Apoiou-se de lado por um instante, depois ergueu sozinha a trouxa, que nem era pesada, e foi percorrendo aos poucos os dois li até Changgan.

A porta da casa da tia se abriu primeiro. Assim que viu Yao Jia, Yao Lan perguntou se ela já tinha comido. Ela disse que sim, no barco, mas a tia ainda trouxe meia tigela de mingau ralo que tinha mantido morno. Disse que a casa não tivera goteiras e que, no dia quatro, alguém aparecera procurando vinagre suave. Ao ver a placa anunciando que as talhas seriam abertas no dia nove, a pessoa disse que voltaria nesse dia. Ao ouvir falar do freguês, Yao Jia por hábito quis perguntar de que casa era. Antes que a pergunta saísse, engoliu-a com uma colherada de mingau e perguntou à tia se os sapatos novos ainda machucavam quando ela andava.

Depois de pegar a chave de volta, demorou a conseguir empurrar a porta da vinagraria. O cheiro familiar e ácido a envolveu de uma vez. Pôs a bolsa no chão, tocou a beirada do balcão e soltou uma risada. Naqueles dias a bordo, sentira falta até de passar a mão naquele canto e encontrar a pequena lasca que faltava. O aviso de papel ainda pendia do lado de dentro da porta. Ela o tirou. O vento já deixara uma camada fina de pó no verso. Guardou a canela e a casca de tangerina num lugar seco e usou os dois prendedores de bambu para prender a cortina.

Lavou o rosto, deixou o livro novo de contas fechado e não se apressou a anotar tudo o que fora dito em Yuepu. Na cama, enfim pôde esticar as pernas. Antes de fechar os olhos, lembrou-se de Lu Yan perguntar onde comeriam da próxima vez e de repente se arrependeu um pouco de, no dia seis, ter apenas roçado de leve o rosto dele. Junto à janela, a cauda de peixe projetava na parede uma sombra tão pequena que parecia capaz de sair nadando. Ela virou para dentro, tocou a fita cor de damasco e a acomodou junto ao travesseiro.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《长干行二首》 (Dois cantos de Changgan), de Li Bai, e o conto original deste site 《青梅旧账》 (Velhas contas das ameixas verdes). Os personagens, as casas comerciais, os preços, a geografia e a cronologia são imaginários; foram preservados os elementos centrais da obra original: acertar antigas dívidas, voltar a reconhecer o valor dos ofícios e do trabalho e estabelecer, já na vida adulta, novos termos para a convivência. Não se trata de uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 38 capítulos
  1. As ameixas verdes na manga
  2. O calor à boca do pote
  3. Aceitou só cento e sessenta
  4. Uma colherada doce demais
  5. A mancha de tinta ao lado do cavalinho de bambu
  6. As ameixas amoleceram primeiro
  7. Dias de voltar ao barco
  8. O negócio que não vingou
  9. Uma tigela esperando esfriar
  10. A língua não se lembra
  11. O espaço que não bastava
  12. Duas vias do contrato de frete
  13. As folhas deixadas primeiro na margem
  14. A pergunta que ficou por fazer
  15. Não há espaço no rio
  16. O macarrão de verão ficou forte demais
  17. O pai ainda está à mesa
  18. Folhas ao sol
  19. Contar aquela noite inteira
  20. O almoço no beco Wa
  21. Antes de quitar a dívida
  22. Quem ficou de fora das contas
  23. Três dias rio acima
  24. Esses onze anos não foram vazios
  25. Devolver um feixe de cada vez
  26. Um pires de vinagre mais suave
  27. Os três dias da mãe
  28. O azedume que não vinha
  29. Quando você voltar
  30. Diferente de quando eram jovens
  31. Barcos, uns antes e outros depois
  32. Um pratinho de ameixas que não estão à venda
  33. As luzes descem sob a água
  34. Dois dias rio abaixo
  35. Na margem dele
  36. A rua que ela mesma queria ver
  37. Um quarto onde se pode morar
  38. Ainda há espaço na página nova

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