Romance de rotas comerciais e reencontros em ambientação chinesa antiga
Três dias rio acima
酷无极 · Criação com IA · 11498 caracteres · Cerca de 12 minutos
No dia vinte e quatro do quinto mês, Lu Yan saiu de Yuepu num barco que subia o rio.
Dessa vez, ele ia ao porto principal conferir as quantidades de recipientes devolvidos em duas viagens. No começo do sexto mês, ainda teria de examinar amostras dos lacres de um lote de mercadoria nova. As datas já tinham sido acertadas na casa comercial, e por enquanto ele não cuidaria de novas reservas no porão para ninguém. No caderno fino que Fei Shao lhe dera havia amostras de vários tipos de nó, para evitar que, ao desembarcar, todos os recipientes vazios fossem parar na mesma casa. Ele examinou cada um. Antes de sair, ainda tirou debaixo da mesa o velho pano de cobrir o caderno, esbranquiçado de tantas lavagens, mas com as bordas ainda firmes.
Do outro lado, Wen Yusheng perguntou em que dia do fim do mês ele conseguiria mandar de volta a cópia dos números. Lu Yan deu a data, o chefe assentiu e se virou para continuar atendendo os recém-chegados. Antes, sempre que Lu Yan saía do porto, ainda precisava ouvir quem tinha pressa em cada barco e a quem devia fazer perguntas em nome de alguém. Agora só levava aquele caderno junto ao peito, e os ombros estavam leves de um jeito a que não estava acostumado. À porta, apertou de novo a correia. Só quando chamaram seu nome do barco pela terceira vez percebeu quanto tempo já levava consigo a voz da mãe dizendo para não pisar na bacia.
Dias antes, ele voltara para casa e perguntara direito sobre os bolinhos. Lin Qian gostava daqueles com as bordas ligeiramente tostadas e os grãos não muito amassados; ele sempre pensara que, como ele, ela não gostasse de farelos caindo. Antes de partir, levou dois. A mãe mordeu um diante dele, deixou cair migalhas na roupa e as sacudiu por conta própria, dizendo que era assim que tinham aroma e que ele não precisava se preocupar por ela. O pai, sentado ao lado, continuou reclamando que eram mais caros que os da loja antiga, mas também estendeu a mão e pegou um pedacinho.
Aquelas duas mordidas no bolo não encerraram a velha conversa. Quando Lu Yan saía, o pai ainda perguntou quantos dias ele podia ficar no porto de origem. Ele respondeu que até por volta do dia seis e que ainda precisava conferir outra remessa de folhas novas. O pai fez um ah e pediu que, quando voltasse, se lembrasse de arredondar a ponta do trinco da janela, que machucava a mão. Ele concordou. O pai ainda lhe pedia um serviço ao abrir a boca, mas ele conseguiu ouvir a pergunta que viera antes.
Depois que o barco deixou a margem, os muros brancos de Yuepu foram baixando ao longe. Lu Yan se sentou junto à cabine e apalpou, dentro da roupa, o bilhete em que Yao Jia registrara a devolução do dinheiro adiantado. A indenização dos donos da carga original estava acertada. A firma guardara uma via e ele, outra. Por isso, porém, o ocorrido não se tornava mais fino que aquela folha. No dia vinte, já havia mandado um recado curto pelo barco que subia o rio. Dizia que voltaria no dia vinte e seis e iria vê-la no dia seguinte, se ela tivesse tempo. Deixara que ela respondesse quando pudesse, sem pedir que outra carta o alcançasse antes da partida.
Viajava com eles uma mulher com uma trouxa azul às costas, levando a filha para visitar parentes rio acima. A menina tinha sete ou oito anos, usava duas trancinhas recém-feitas e passou a viagem toda levando a mão à cabeça. A mãe disse que, se afrouxasse as tranças de tanto mexer, teria de refazê-las sozinha. A menina quis mesmo aprender. Desfez uma delas e, em poucos movimentos, enrolou uma mecha na outra, até chorar de dor. A mãe disse que bem tinha avisado para não mexer, mas mesmo assim segurou a trança pela raiz e foi desfazendo o nó devagar.
Lu Yan pensou em oferecer a tesourinha. Chegou a pegá-la, mas parou ao ouvir a menina gritar que não era para cortar, e a mãe dizer que ainda não precisava. Ele então apenas cedeu o banquinho que tinha ao lado. Quando se sentou, a menina mostrou um pé fininho que até então estivera apertado sob a bolsa. No peito do pé, havia duas manchas azuis que pareciam peixes, só que sem rabo. Ele perguntou o que era. Ela respondeu que era um barco grande, indignada por ele não conseguir reconhecer nem um barco.
As pessoas no barco riram, e Lu Yan também. Ela mostrou com o dedo que a proa devia ficar do lado dos dedos do pé: era preciso olhar assim. Ele inclinou a cabeça como ela pedira e de fato enxergou um pouco de barco, assentindo com seriedade. A criança ficou satisfeita, mas a mãe riu ao lado e disse que, ao chegar à casa da avó, teria de lavar aquilo antes de subir na cama, sem levar um rio inteiro para debaixo da coberta. A menina abraçou o pé, pensou seriamente por um instante e perguntou se podia lavar só metade do grande barco.
À tarde, o vento veio de frente. Baixaram a vela, e o barco subiu devagar à força dos homens. Quem o comandava dessa vez era um barqueiro experiente com quem Lu Yan já tinha viajado, um homem com uma mancha clara na face esquerda. Ele mandou que os de baixo recuperassem o fôlego primeiro. Na margem, os homens que rebocavam o barco passaram por pedras rasas. Só quando a corda esticou o casco avançou um pouco. Lu Yan viu que um rapaz ainda apertava meio bolinho na mão e ia mordendo enquanto andava. Deu uma mordida apressada e logo se engasgou.
Ele guardou o caderninho à sombra e desceu para ajudar a empurrar o barco por um trecho raso. O barco não ia ficar mais leve com o primeiro empurrão de umas poucas pessoas. A madeira afundava na lama, e todos esperaram o grito do barqueiro para fazer força juntos e soltá-lo. Ele não se adiantou para dar seu próprio comando. Encaixou o ombro sob a borda do barco, e o cheiro da madeira molhada se misturou ao suor. Quando venceram o último tantinho do trecho mais preso, seu pé de repente escorregou, e a pessoa ao lado o amparou.
O homem já tinha as têmporas brancas e a base da mão dura como bambu velho. Lu Yan agradeceu, e ele só reclamou que aqueles sapatos escorregavam e disse que, enquanto estivesse usando aquele par, evitasse pisar onde a lama era mais mole. De volta ao barco, Lu Yan tirou as meias e as pôs para secar. Tinha raspado uma camada fininha de pele do pé direito. Não doía, só coçava. A menina viu, olhou para o próprio barco desenhado no pé e perguntou por que quem tinha entrado na água de verdade não ficava com o pé azul. Ele mostrou a lama na palma da mão e disse que aquela era a cor do dia.
À noite pararam num pequeno ancoradouro. Alguém no barco ia comprar vinho e perguntou se ele queria ir junto. Lu Yan nem estava com fome, mas viu numa banca da margem uma bacia de brotos de bambu fatiados e, quando ia passando, parou. O vendedor temperava com um vinagre suave, em que nem o doce nem o azedo se impunham. Quando se pegava uma fatia com os pauzinhos, a luz atravessava a borda fina. Lu Yan provou e de repente quis muito que Yao Jia também experimentasse. Perguntou se podia levar um pouco embrulhado e, mal acabou de falar, viu o vendedor estender a mão à procura de folhas.
Ele olhou para a bacia de brotos, lembrou-se de que ainda faltavam dois dias e perguntou o que aconteceria com o embrulho se fizesse calor na manhã seguinte. O vendedor riu dele. Se estava comprando naquela noite, que comesse naquela noite. Para que levar até depois de amanhã? Ele acabou rindo também, deteve a mão que ia pegar a folha e pediu um pratinho, que levou até a beira do rio para comer devagar. Alguém passou espremido por trás dele. Um pouco do vinagre respingou no dedo. Ele baixou a cabeça para lambê-lo e descobriu que também gostava mesmo daquele sabor, para além da vontade de escolher algo para outra pessoa.
À noite, a cobertura do barco ficava baixa, e era fácil esbarrar nela ao se virar. Envolto no casaco velho, ele escutou a água, cercado pela respiração de várias pessoas. A mulher e a criança já dormiam, e alguém ainda falava baixinho em sonhos. Tinha feito tantas viagens à noite. Antes, ao chegar a um porto novo, pensava primeiro em quantas contas faltavam e quanto poderia apurar no dia seguinte. Eram poucas as noites em que de fato se lembrava do som que a água fazia.
Ele se lembrou de Zhang Chen. Aquele homem ensinara Yao Jia a dar o nó em volta do pote. Lu Yan nem sequer o conhecia quando já sentia raiva daquelas mãos que não eram as suas. Ele não vira um dia sequer de quem Yao Jia conhecera naqueles onze anos, nem de quem a acompanhara pela rua sul. Mesmo assim, já tomara esses onze anos como prova de que ela também ficara no mesmo lugar o tempo todo. A lembrança ainda lhe deixava um gosto azedo. Alguém ao lado se virou, bateu o joelho nele e reclamou que, uma vez estendidas as esteiras, não sobrava espaço no barco. Ele tratou de recolher um pouco os pés.
No dia vinte e cinco, caiu uma garoa. A lona acumulava água; ele ajudou a esticar uma ponta, e a água escorreu pela borda para uma bacia de madeira pendurada junto à amurada, fazendo pequenos sons claros. A mulher da trouxa azul queria trocar a roupa molhada da filha, mas a criança insistia que não sentia frio e se torcia, impedindo a gola de passar pela cabeça. Lu Yan passou pelo outro lado e ouviu a mãe contar que também era assim quando pequena; sua avó a perseguira por meia rua para enxugá-la. No meio da história, a mulher começou a rir, e a troca de roupa terminou sem dificuldade.
Lu Yan estava na proa, com a chuva batendo no rosto, quando de repente pensou que Yao Jia, aos dezoito ou dezenove anos, provavelmente também ria assim com os outros. Naquela época, ele já tinha deixado sua terra e carregava mercadorias com o pai num armazém distante. As cartas traziam aqui e ali notícias de Yao Jia e da mãe. Depois, até as palavras rarearam. Algumas folhas de papel não lhe davam como conhecer aqueles anos. Ainda assim, agora que estava de fato diante dela, a cada pequeno gesto que fugia ao que conhecia, ele ainda esperava que ela primeiro lhe desse uma explicação que o deixasse tranquilo.
Ele não pôs nada daquilo numa carta. Antes do anoitecer, ajudou o mestre do barco a conferir dois vasilhames de retorno. Viu que a chuva havia empurrado a marca de cordão de um cesto para dentro de uma dobra, virou o cesto para identificá-la no lugar de sempre e pegou um pano seco para tirar a água da borda do registro. Quando terminou esses pequenos afazeres, ainda não havia escurecido de todo. Sentou-se para comer e, pela primeira vez, desejou que o resto da viagem passasse mais depressa. Não era pela carga que precisava chegar no dia trinta, nem apenas por uma lista que enfim batesse.
À noite, a chuva parou. Havia algumas luzes na margem, a princípio imóveis. Quando o barco se aproximou, deu para ver que eram pessoas tateando o caminho lá embaixo. Alguém ergueu uma lamparina para um conhecido e gritou seu nome. A voz veio pela água, mas quem respondeu a bordo foi outra pessoa. Lu Yan sentiu um calor no peito ao ouvir. Imaginou-se um dia sentado na margem, reconhecendo o barco em que Yao Jia vinha e sabendo por qual prancha ela desceria. Poderia ouvi-la contar como fora a viagem sem precisar inventá-la por ela de antemão.
Passado o meio-dia do dia vinte e seis, a cor da água foi ficando familiar. Ao longe, havia uma fileira de cordas secando sob o olmo. O velho salgueiro se inclinava sobre a água e continuava faltando aquele canto na escadaria de pedra do porto, só que agora havia ao lado um vendedor de mingau com sua vara de carga. A menina avistou a margem primeiro e perguntou se tinham chegado. A mãe respondeu que ainda precisavam atracar direito. A menina estava tão impaciente que até o barco debaixo dos pés dela parecia querer sair correndo. Lu Yan estendeu a mão para amparar a bolsa verde que quase lhe escorregava e esperou porem a prancha antes de desembarcar com as duas.
Primeiro, foi entregar o pequeno registro no porto local. Os objetos devolvidos foram conferidos com seus respectivos donos e ficaram no depósito, à espera de nova inspeção à luz do dia seguinte; só então ele levou sua própria bagagem à casa ancestral. Ao abrir a porta, a chave emperrou um pouco. Girou-a duas vezes; a porta fez mais barulho do que na manhã da partida, mas dentro havia apenas uma camada comum de poeira. Os três ganchos vazios acima da mesa continuavam ali, e ele pendurou a bolsa naquele capaz de sustentá-la.
Estava quase escuro. Ele lavou o rosto e vestiu um casaco que ainda estava seco. A gola tinha um vinco, e ele passou a mão duas vezes sem conseguir alisá-lo. Deixou como estava. Já mandara avisar que se veriam no dia seguinte e sabia que, naquele dia, não devia fazê-la largar o trabalho para recebê-lo. Ainda assim, seus pés o levaram na direção do Beco do Poço. A loja dos Yao ainda não fechara de todo. Junto ao balcão, o último freguês embrulhava o bocal de um jarro com pano. Ela segurou o cordão fino para ele e disse baixinho que fosse com calma. O jarro era pequeno e não ia sair correndo.
Lu Yan parou ao lado da porta, sem atrapalhar a passagem do freguês. Quando ele saiu, ela ergueu a cabeça e o viu. O pano em sua mão parou por um instante. Primeiro passou-lhe pelos olhos um lampejo muito rápido, que logo se aquietou numa calma que ele conhecia sem lhe ser inteiramente familiar. De repente, todas as palavras que preparara no caminho lhe pareceram fora de lugar. Junto aos cabelos dela, porém, havia um toque de cor de damasco claro, vivo no crepúsculo, como o breve trecho de luz nova que ele acabara de ver no beco comprido.
“Voltou?” ela perguntou.
Ele disse que tinha voltado. Seus olhos passaram do canto dos olhos dela para a fita e tornaram a subir. Por fim, disse com toda a sinceridade: “Ficou bonito.”
Yao Jia ergueu a mão para tocar a fita, como se ainda não tivesse decidido se admitia que também a achava bonita. Disse que tinha acabado de comprar. A resposta foi breve, mas a mão não escondeu a fita. Lu Yan sorriu. Do lado de fora do balcão, a água da tigela que acabara de ser lavada ainda não tinha sido jogada fora, e a luz oscilava de leve nela. Ali, parado junto à porta, ele sentiu pela primeira vez que tinha chegado mesmo ao fim daqueles três dias de viagem e que estava um passo mais perto do que imaginara.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《长干行二首》 (Dois cantos de Changgan), de Li Bai, e o conto original deste site 《青梅旧账》 (Velhas contas das ameixas verdes). Os personagens, as casas comerciais, os preços, a geografia e a cronologia são imaginários; foram preservados os elementos centrais da obra original: acertar antigas dívidas, voltar a reconhecer o valor dos ofícios e do trabalho e estabelecer, já na vida adulta, novos termos para a convivência. Não se trata de uma biografia do poeta.
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