Romance de rotas comerciais e reencontros em ambientação chinesa antiga
A língua não se lembra
酷无极 · Criação com IA · 10211 caracteres · Cerca de 11 minutos
Yao Lan voltou com um sapato trocado. Ao entrar na loja de vinagre, bateu duas vezes os pés na soleira, como se quisesse refazer sem aperto o caminho que fizera dois dias antes. Sentada atrás do balcão, Yao Jia levantou a cabeça ao ouvir o barulho. A tia ergueu a barra da saia, revelando as pontas de dois sapatos diferentes. No pé esquerdo ainda estava o que comprara, e no direito tinha posto um mais folgado. Disse que na loja a deixaram experimentar aquele primeiro e, se gostasse, no dia seguinte buscaria o outro.
Yao Jia olhou por um bom tempo e disse que daquele jeito os sapatos chamavam ainda mais atenção do que quando estavam apertados. Yao Lan riu e disse que, se o pé não doía, quem quisesse olhar que olhasse. Ela é que não ia apertá-lo até sangrar. E ainda disse que gostava daquela cor. Yao Jia ia dizer que também, quem mandava só ligar para a cor? Mas, ao ver a tia balançar o sapato folgado à luz do sol, acabou dizendo que o da direita era mesmo um pouco mais vivo. Yao Lan ficou satisfeita, ajeitou-se no banco e logo perguntou que coisa azeda ela estava testando naquele dia.
Havia três pires na mesa. Yao Jia cobriu um, empurrou os outros dois para a tia e disse que eram testes para a casa de macarrão Dongfu. Queria que ela confiasse na própria língua e provasse antes de ouvir qual vinha da mãe. Yao Lan ergueu a sobrancelha e disse que já comia daquilo havia décadas, por que precisaria que ela lhe contasse? Provou um e outro, apontou para o mais forte e disse que aquele era bom. O outro tinha pouco aroma, embora com brotos de bambu de verão ainda desse para sentir o gosto dos brotos.
Ao ouvir que estava bom, Yao Jia sentiu o coração voltar primeiro ao lugar de sempre, mas a segunda parte da frase a deteve. Ela pegou uma fatia de broto fresco e a mergulhou no vinagre forte. Lá estava, de fato, o sabor familiar de antes. Mas, se tratasse aquele como o único sabor bom, o toque de frescor do outro pratinho teria de ficar para sempre em segundo plano. A tia já pegara outra fatia com os hashis. Depois de comer, disse que para acompanhar sopa de carneiro era o da esquerda, e para aqueles brotos ali, o da direita. Qual era a dificuldade? Por acaso, quando chegava o sexto mês, a boca da gente ainda tinha de vestir roupa de inverno?
“Quando minha mãe fazia isso, todo mundo dizia que era bom”, disse Yao Jia baixinho.
Yao Lan pousou os hashis, olhou para ela um instante e perguntou de repente de que tempo estava falando. Disse que, quando Ruan Xin começou a fazer vinagre, o gosto ainda era outro. Uma vez, uma moringa fermentou a ponto de ficar forte demais. Yao Yannian levou o vinagre para os parentes por casamento provarem e fizeram troça dele por meio ano. Depois, inconformada, Ruan Xin foi atrás de quem provou para saber em que pratos o sabor incomodava e foi ajustando uma vez após outra. Ao dizer o nome do pai de Yao Jia, a tia o pronunciou com naturalidade, no mesmo tom, como se a vida dele ainda guardasse, além dos últimos anos de doença, o tempo em que ficara à porta com uma moringa de vinagre meio ruim, teimando que era bom.
Yao Jia ficou um tempo sem responder. Lembrava de como o pai emagrecera no fim e de como os dedos dele ficavam sempre encolhidos ao pegar o ábaco. Já do jeito como ele caçoava da mãe, pouco lembrava. A tia fez uma imitação. Ao provar o vinagre, ele franzira a testa com mais força do que se torce uma roupa molhada. Só que Ruan Xin estava ali olhando, então ele teve de engolir devagar e dizer que azedo era, mas que despertava. A imitação de Yao Lan saiu tão ruim que ela própria se dobrou de rir, e Yao Jia riu junto. Só depois percebeu que um mesmo pires com um sabor antigo podia manter alguém por perto e encobrir tantos momentos em que as coisas ainda não tinham saído tão bem.
A tia limpou a boca com o lenço, viu o terceiro pires que ela havia tampado e perguntou por que não o provavam. Yao Jia levantou a tampa. Era a primeira mistura que fizera de manhã, diluída demais, sem corpo nem para ela. Tinha pretendido escondê-la, mas a tia pegou os hashis, provou e disse sem rodeios que aquela não servia. Que a guardasse para comparar, senão no dia seguinte ia esquecer de novo. Ouvir isso doeu menos do que antes. Ela pôs a tampa de lado e deixou o pires descoberto.
Na loja, chegou um freguês antigo que só queria vinagre forte. Trouxe seu próprio pote grande e logo elogiou o sabor de Xin Niang, raro de encontrar hoje em dia. Yao Jia o encheu como sempre e acompanhou o homem até a porta. Ao ver as amostras na mesa, ele perguntou se ela ia mudar a receita. Yao Jia respondeu na hora que não, que os potes antigos continuavam ali, ainda mais depressa do que falara com a tia há pouco. O freguês foi embora tranquilo. Yao Lan a olhou do outro lado do balcão, e Yao Jia tornou a pôr o pratinho de vinagre suave na sombra, como se temesse que a luz lá de fora o mostrasse com clareza demais.
À tarde, tia e sobrinha escolheram juntas as verduras. Yao Lan começou pelas mais tenras, enquanto Yao Jia voltava sempre às folhas mais passadas nas bordas, com pena de desperdiçar. De um cesto fizeram dois montes, e nenhuma das duas quis ser a primeira a jogar algo fora. A tia disse que a mãe dela também era assim. No fim da correria, só comia o que os outros não queriam escolher, embora gostasse mesmo era dos brotos tenros. Yao Jia ergueu os olhos e disse que naqueles tempos difíceis mal dava para se permitir escolher. Yao Lan partiu um talo duro para mostrar a ela e disse que, quando a vida dava um pouco de folga, a pessoa tinha de se permitir comer um bocado do que gostava. Do contrário, passaria a vida achando que só merecia o que sobrava.
Yao Jia ficou absorta ao ouvir aquilo, embora suas mãos continuassem a desdobrar devagar uma folha velha. Lembrou-se dos dois potes que separara para Gao Jiang anteontem. Tinham combinado lavar só dois, mas mesmo assim ela olhara para o que ficava lá no fundo. Lembrou-se de que a mãe sempre dizia que, passada aquela vez, tudo ficaria bem. De tanto ouvir, mais tarde também passou a dizer o mesmo. Ao vê-la calada, a tia deixou o assunto quieto e começou a contar que, logo de manhã, o dono da sapataria nova tinha se enganado com os próprios pés e chegara a dizer que o direito estava mais comprido que anteontem. Era capaz de dizer cada coisa.
As duas riram, e até a lama úmida entre as folhas pareceu menos difícil de lavar. Yao Jia encontrou um pano velho usado para embrulhar o cesto, com uma florzinha clara bordada num canto, e perguntou de repente se a tia o reconhecia. Yao Lan se aproximou, passou de leve a unha pela borda da flor e disse que os pontos eram seus, bordados quando fizera uma roupa de baixo para ela. Yao Jia não acreditou: a mãe sempre dizia que fora ela quem fizera aquela roupa. A tia riu e disse que sua mãe cortara o tecido, mas ela o costurara; cada uma só contava metade.
Naqueles três anos, ela passou muito tempo na casa da tia. Tinha oito anos quando foi para lá. Ruan Xin costumava acompanhar as remessas de verduras dos Qin até o cais do sul, e o pai também viajava a trabalho no comércio de arroz. Na casa da tia havia uma lamparina baixa e, sob ela, sempre três banquinhos. Yao Jia se lembrava de que detestava sentar no menor, porque parecia mais nova até que o primo. Yao Lan perguntou se ela lembrava de quando calçara às escondidas os pés do banquinho para ficar mais alta e, ao se sentar, virara junto com o mingau. Era a primeira vez que usava a roupa de baixo com a flor clarinha, e já tinha ganhado uma mancha amarela no peito.
Yao Jia se lembrava; o rosto também esquentou, e ela riu, pedindo à tia que não contasse mais. Mas, quando antes dizia que a mãe a criara sozinha, muitas vezes omitira aqueles três banquinhos junto com a própria tia. Não era que realmente não se lembrasse; era só que, ao contar e recontar, o que mais facilmente permanecia era sempre o lado mais sofrido da mãe. Como depois a tia também passara a insistir que ela se casasse, Yao Jia tinha ainda menos vontade de lhe admitir que também dormira tranquila sob aquela lamparina.
“Naquelas vezes em que sua mãe vinha para casa, ainda pegava você no colo e saía andando no meio da noite”, disse Yao Lan. “Eu também me irritava: mal tinha feito você dormir, acordava de novo. Depois mandei que não viesse, que buscasse você só quando acabasse mesmo o trabalho. Ela ficou zangada, disse que eu não queria mais saber dela. Dois dias depois, voltou com um cesto de feijões novos e ainda precisou me pedir para cuidar de você.”
Yao Jia olhou para as mãos da tia. As juntas dos dedos não eram mais finas que as da mãe, e na base do polegar havia ainda uma velha cicatriz branca. Ao perceber que ela olhava fixamente, Yao Lan recolheu depressa a mão e disse que não tinha se machucado cuidando dela, que não fosse pôr tudo na própria conta. Tinha se distraído cortando verduras e quase se picara junto para o recheio. Yao Jia riu com a história, tornou a dobrar o pano velho de flores claras e não voltou a pô-lo junto às folhas velhas sujas de lama.
Antes de sair, Yao Lan falou de Zhang Chen. Tinha cruzado com ele no mercado leste na véspera, e parecia que a nova loja de tecidos da esposa dele ia ganhar mais uma mesa de amostras. Yao Jia assentiu, disse que já ouvira falar e que, se um dia quisessem verduras em conserva, podia levar um pouco. A tia ficou observando-a. Em vez de dizer, como antes, que ela deixara escapar um bom homem, apenas comentou que a moça da família Cai gostava de cores vivas e que o sapato novo que ela mesma estava usando até parecia escolhido pela moça. Yao Jia riu e disse que a tia finalmente admitia que também gostava de ouvir que estava bonita.
Quando chegaram à porta, a tia perguntou baixinho quanto tempo o rapaz dos Lu ficaria dessa vez. Yao Jia respondeu que ele voltaria antes do dia seis e perguntou para que ela queria saber. Yao Lan disse que era só uma pergunta, que não estava escolhendo ninguém para ela. Ao vê-la ainda na defensiva, tocou-lhe a testa e disse que, quando menina, se queria brincar com alguém, já cortava o bolinho dando a essa pessoa o pedaço maior. Agora embrulhava cada frase em três camadas. Yao Jia ficou vendo os dois sapatos diferentes atravessarem a viela do poço. Ia dizer que já não era criança fazia tempo, mas ouviu o barulhinho da pedra solta sob o pé da tia e só pediu que fosse devagar.
Quando Lu Yan veio no fim da tarde, ela estava tornando a abrir sobre a mesa os pedidos preliminares das duas casas de comida. O dia vinte e quatro era o prazo para responder. Ela ainda não recebera dinheiro e perguntou primeiro como estava a vaga no barco. Ele disse que a quantidade e a data de entrega já tinham sido encaminhadas, que a firma conhecia gente nas duas pontas e que não valia fazer o cliente perder a viagem só por esperar uma resposta. Ele daria um jeito no barco do dia vinte e oito. Yao Jia olhou o pó do cais na manga dele e depois a mão que ele abriu diante dela. Era mesmo uma mão marcada por anos recebendo carga. Seu coração se aquietou um pouco.
“Se não der, ainda pode dizer hoje”, disse ela.
Ele respondeu que sabia. Ao ouvir isso, ela lhe entregou a folha em branco que estava ao lado e pediu que anotasse também o valor do frete e a data de chegada, para que ela pudesse dar satisfação ao comprador. Ele escreveu setenta e duas moedas e dia trinta do quarto mês. Não deixou junto àquela linha nenhuma indicação de que faltava conferir. Ao guardar o papel, Yao Jia sentiu os cantos da boca se erguerem um pouco. Depois de ter devolvido dias antes o dinheiro a mais que ele trouxera para a dívida antiga, parecia que os dois finalmente tinham algo para fazer juntos dali em diante e já não precisavam que um devesse algo ao outro para poderem se ver.
Naquela noite, o agente de compras Sun trouxe o adiantamento das duas casas, quatrocentas e vinte moedas de cada uma, oitocentas e quarenta ao todo. Ela embrulhou e registrou o dinheiro à parte, sem contá-lo como ganho líquido. A caução dos potes teria de ser devolvida quando voltassem vazios. O transporte e o envasamento ainda estavam por fazer, e o restante do pagamento pelo vinagre dependia da entrega no prazo. Ela anotou tudo com cuidado, mas, quando terminou, tornou a pegar o bilhete de Lu Yan. A tinta era bem recente, e a data se firmava junto à letra dele, como se todos os dias que ainda estavam por vir já estivessem garantidos. Guardou o bilhete no começo da página nova. Antes de fechar o livro de contas, lembrou-se do pratinho de sabor mais suave que continuava escondido à sombra, trouxe-o para fora e provou mais um pouco.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《长干行二首》 (Dois cantos de Changgan), de Li Bai, e o conto original deste site 《青梅旧账》 (Velhas contas das ameixas verdes). Os personagens, as casas comerciais, os preços, a geografia e a cronologia são imaginários; foram preservados os elementos centrais da obra original: acertar antigas dívidas, voltar a reconhecer o valor dos ofícios e do trabalho e estabelecer, já na vida adulta, novos termos para a convivência. Não se trata de uma biografia do poeta.
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