Romance de ambientação chinesa antiga sobre ofícios e vida social
Quem olha as flores
酷无极 · Criação com IA · 10407 caracteres · Cerca de 11 minutos
Quando a senhora Ji veio ajudar a examinar as sedas antigas, reconheceu de imediato o pedaço cinzento sob o lilás esfumaçado. Segurou-o pela borda, levou-o até a janela e disse que a cor se chamava água de lua. O tingimento tinha ficado uniforme demais. Hoje os clientes achavam a cor sem graça, embora com vermelho escuro ficasse boa. Shen Su estava sentada ao lado, debulhando vagens. Ao ouvir o nome, parou os dedos por um instante e voltou a deixar os grãos cair na tigela.
Gu Qing perguntou se as duas já conheciam aquele tecido. A senhora Ji disse que sim. Anos atrás, ela e Shen Su tinham comprado um pedaço cada uma, com a ideia de fazer um conjunto de flores de primavera. Depois, o pedaço dos Gu ficou no fundo do baú, e o dela foi vendido. Gu Qing perguntou à avó por que não vendera o seu naquela época. Shen Su disse que não tinham conseguido fazer. A senhora Ji ergueu os olhos e, em vez de deixar o assunto passar como de costume, deu uma risadinha: “O que não deu certo foram as flores ou foi o acordo sobre a linha com os nomes?”
O quarto ficou em silêncio, e o último feijão da tigela rolou até a beira da mesa. Gu Qing o deteve com o dedo. De repente, reconheceu ali a frase que não tinha ouvido quando, no décimo primeiro mês, levara o molde antigo para perguntar à senhora Ji. Não procurou um rosto disposto a dizer algo em favor da avó. Ficou olhando para ela, à espera de que respondesse por si. O vento bateu na esteira de bambu da janela com um ruído leve. A velha estendeu a mão para segurá-la e tornou a recolhê-la.
“Nós duas testamos o modelo”, disse Shen Su. “Ela afinou primeiro a borda e eu depois mudei o jeito de enrolar. Naquela época, as pessoas conheciam o meu nome. Eu disse que, assim que as vendas engrenassem, ia incluir o nome dela. Depois as vendas engrenaram, e eu continuei sem pressa.”
A senhora Ji baixou a cabeça para tirar um fio solto da seda. Disse que na época tinha pouco mais de vinte anos, e Shen Su andava pelos quarenta. O nome na peça era só uma parte do que ela esperava. Ia constituir família e queria fazer parte das flores em casa. Algumas vezes levou amostras pela metade, e Shen Su, muito exigente, dizia que ficava com elas se fossem retocadas. Mais tarde, uma cliente saiu usando um galho que não tinha sido retocado. A primeira a se irritar foi Shen Su, com medo de que pensassem que ela não sabia dirigir quem trabalhava para ela.
A senhora Ji disse que também demorara a se acertar no comércio de materiais. Logo de início, avaliou mal um lote de seda e perdeu o que juntara em metade do inverno. Na época, Shen Su levou-lhe um cesto de provisões secas, com dinheiro suficiente para a urgência escondido no fundo, mas ainda lhe disse que não devia ter se apressado a escolher mercadoria por conta própria. A senhora Ji aceitou o dinheiro e mais tarde devolveu tudo, mas passou muito tempo sem vontade de contar o que tinha aprendido desde então. Gu Qing imaginou aquele cesto e quase ouviu o tom com que a avó hoje lhe dava conselhos. As mãos de fato ajudavam, e as palavras de fato faziam a gente encolher os ombros.
“Se eu tivesse cortado relações naquela época, não estaria aqui sentada depois de tantos anos”, disse a senhora Ji. “Mas o fato de eu estar aqui não torna certo o que você disse.” Shen Su ouviu e assentiu, sem trazer à tona o dinheiro que também lhe dera naquela época para compensar aquelas palavras. Tentou pinçar um feijão que tinha caído na fresta da mesa. Tentou duas vezes sem conseguir tirá-lo. A senhora Ji o empurrou com a ponta do dedo até a palma de Shen Su, e as duas o descascaram como de costume. Gu Qing viu que elas não tinham se abraçado em prantos nem passado uma borracha no passado, mas já conseguiam continuar juntas a preparar uma tigela de feijão. Engoliu o que ia dizer para reconciliá-las e foi à cozinha pôr mais água.
Gu Qing sentiu as orelhas esquentarem enquanto ouvia. Ergueu a mão como se tocasse naquela pétala que tinha corrigido no trabalho de Xiaoman. Quis dizer, em defesa da avó, que naquela época a família passava por dificuldades. Lembrou então que, mesmo que a avó fosse à loja de Yao dizer em sua defesa que a vida era difícil para uma moça, os trinta e seis ramos continuariam rachados. Alisou o pedaço de seda cor de água ao luar e deixou a outra falar.
Shen Su admitiu que chegara a procurar a cliente para dizer que aquele ramo não era do modelo aprovado, obrigando a senhora Ji a ir e vir com sorrisos constrangidos. Ao chegar a essa parte, passou a falar bem devagar, como se tornasse a andar por aquela rua de outros tempos. A senhora Ji disse que a cliente continuou gostando do ramo e se recusou a devolvê-lo. Só tinha medo de que as duas voltassem a discutir se se encontrassem e, quando usava a flor, dava a volta por outro caminho. Ela foi a primeira a rir. Shen Su riu também, mas, quando parou, as rugas em torno da boca estavam um pouco mais fundas.
A amizade delas continuou depois daquele dia. Mais tarde, a senhora Ji passou a vender materiais, escolhendo as cores e avaliando a seda por conta própria. Por um tempo, esse sustento foi mais seguro que o das flores, e ela continuou a conviver com Shen Su. Ajudou a velha quando ela precisou, e a família Gu também deu uma mão quando os Ji mudaram de loja. Só aquele velho molde de bordas recurvadas continuava a ser chamado por Shen Su, por hábito, de modelo dela, e a senhora Ji não queria disputar a autoria toda vez. Passaram-se anos, e o pequeno recorte ficou no papel. Gu Qing sempre pensara que fosse só um rasgo de tanto uso.
“E em que parte do corte você errou para ficar aquele entalhe?” perguntou ela.
A senhora Ji disse que, de início, o entalhe tinha sido um erro de corte dela. Depois de muitas tentativas, percebeu que, com aquela folguinha, a borda ficava menos rígida ao enrolar, e então deixou o entalhe como estava. Shen Su assentiu. A senhora Ji tirou da bolsa de pano o molde original que Gu Qing lhe devolvera antes e o estendeu diante das duas. Shen Su apontou para a outra curva, que acrescentara depois: “Aqui fui eu que mudei.” Ela guardou para si sua parte do crédito, e a senhora Ji tampouco pediu que lhe atribuísse tudo. As duas pousaram por um instante as pontas dos dedos sobre o papel. Só então Gu Qing viu com clareza que as duas marcas de corte tinham sido feitas por mãos diferentes.
Ela pôs uma folha nova por cima e pediu ao velho Ding que, outro dia, escrevesse ali os nomes das duas. Shen Su disse que sabia escrever 沈, e a senhora Ji disse que também sabia escrever 纪. Por uma coisinha dessas, ele nem precisava vir de novo. Cada uma pegou um lápis de carvão e escreveu num canto. O último traço do 沈 da velha ficou comprido demais, e o 纪 da senhora Ji saiu todo espremido. Gu Qing não achou feio. Ao dobrar o papel, fez questão de deixar aquele canto por cima.
O almoço atrasou, e os feijões ainda nem tinham ido para a panela. Dona Ji disse que ia voltar para tomar conta da loja, mas já que estava ali esperaria por uma tigela. Se perdesse algum negócio, cobraria de Shen Su. A velha resmungou que nunca tinha visto amiga que só pensava em cobrar, mas contou umas moedas da própria bolsa e mandou Gu Qing comprar um pouco de carne. Gu Qing pegou o dinheiro sem dizer que o almoço devia ser por conta dela. Viu dona Ji sentada junto à porta, de pernas esticadas, escolhendo sedas, como se desde sempre houvesse ali um banquinho que lhe cabia ocupar.
Depois do almoço, a senhora Ji lembrou que, quando jovem, Shen Su falava em ir para o sul ver as flores de lótus. Perguntou se a viagem já estava mesmo acertada. A velha respondeu que seria no dia doze do quinto mês e que faltava fazer o último pagamento do barco. A senhora Ji contou que, naquela época, as duas tinham até combinado ir juntas. Depois, ela própria foi primeiro a uma vila próxima, cortada por canais. Na volta, passou um tempão contando como fora, e Shen Su só perguntou o que havia de bonito em tanta água. Gu Qing virou a cabeça, espantada. Shen Su enfim perdeu a compostura. “Ela voltou e falava disso todo dia. Eu nem tinha ido, já estava cansada de ouvir.”
“Você não disse que tinha medo de eu me gabar?” perguntou a senhora Ji, rindo.
Shen Su resmungou, mas havia certo acanhamento no seu sorriso. Gu Qing se lembrou de como a avó fingira conhecer bem Heze no jantar de Ano-Novo da família Wen, e da própria irritação ao ver a flor azul no chapéu cinzento. Antes, imaginava os desejos que a avó deixara por realizar como puro sofrimento, fruto de sempre ceder pelos outros. Agora via também a teimosia de quem se recusava a baixar a cabeça e admitir que nunca tinha visto, e o mau humor de quem diminuía um pouco a alegria da amiga para sentir menos dor.
Ela podia ter dito que a avó, na época, era igual a ela. As palavras chegaram à ponta da língua, mas, ao ver Shen Su perguntando à senhora Ji qual caminho era mais curto para a região dos canais, deixou a avó seguir com a conversa sem puxá-la para si. Dessa vez, a velha escutava com toda a atenção. Ao ouvir que era só um lago raso, quis saber se havia sombras de árvores junto à água e se, quando ventava, as flores se voltavam todas para o mesmo lado. A senhora Ji disse que não se lembrava. Só lembrava que havia tanta lama nas solas dos sapatos que passou metade da noite lavando.
Gu Qing soltou uma risada, e Shen Su também riu, dizendo que então valia a pena ir conhecer um lugar que deixasse tanta lama nas solas. A senhora Ji guardou a avaliação que fizera da seda velha e, antes de sair, olhou para a amiga e perguntou se queria que trouxesse um pouco de linha de cor nova. A velha disse que queria verde-acinzentado claro, nada vivo; mesmo que não conseguisse ver as folhas de lótus, podia primeiro enrolar alguns talos sem folhas, e não era para voltar e zombar dela por achar de novo que havia água demais.
Na noite do dia dezoito, Shen Su pegou a tesourinha e recortou uma pétala de lótus. Como a vista já não ajudava, o contorno largo que traçou primeiro saiu um pouco torto. Pediu então a Gu Qing que reforçasse a linha. Gu Qing ia acrescentar três camadas, como fazia antes para imitar flores de verdade nos mínimos detalhes, mas a velha a deteve. Disse que queria fazer só a forma geral, pois os detalhes eram finos demais para seus olhos. Gu Qing pegou duas pétalas para comparar. A mais simples tinha uma firmeza própria, como se, sendo claramente de seda, não precisasse esconder de onde vinha.
Elas não partiram da ideia de que o lótus seria um modelo novo com venda garantida. Shen Su recortou só cinco pétalas e as sobrepôs para ver como ficavam, usando um nó de linha velha para o miolo. Gu Qing achou a curva da ponta ainda rígida demais e disse que fariam a alteração depois de ver uma flor de verdade. A avó concordou e deixou aquele lótus junto à própria cama, separado das flores de caixa que seriam entregues. Enrolou na haste uma tira que sobrara do corte da seda cor de água ao luar, um cinza com um leve toque de azul.
No dia vinte, quando a senhora Ji voltou, Gu Qing fez questão de lhe mostrar os três bolinhos azuis, para a avó não ficar com a piada só para si. A senhora Ji apertou um por um e disse que o terceiro dava para passar por fruta e que o primeiro parecia ter sido amarrado com muita raiva. Shen Su se dobrou de rir. Gu Qing já não sentia só vergonha. Pegou o primeiro para olhar também e achou que, naquela hora, de fato estava com muita raiva. A flor malfeita continuava sem conserto. Guardada com ela, servia mais do que se a tivesse simplesmente destruído.
Ela perguntou à avó se ainda ia chamar os moldes de seu próprio conjunto. Shen Su não prometeu que nunca mais faria isso. Disse apenas que Gu Qing a corrigisse se ela falasse errado, pois sua boca já tinha se acostumado a falar assim e ela teria de mudar aos poucos. Gu Qing ficou um pouco decepcionada, mas logo viu a avó pôr por cima os moldes de papel que as duas tinham acabado de identificar e deixar os antigos embaixo, com o canto onde estavam os nomes virado para fora. A mão avançara meio cun antes das palavras.
Ao entardecer do dia vinte e um, Gu Qing terminou o primeiro lote de flores cor de damasco para prender à faixa da roupa. Conferiu os fechos e as bordas e fechou tudo numa caixinha de dez compartimentos. Shen Su, sentada ao lado, enrolava a linha no seu próprio caule grosso quando de repente perguntou se devia usar o lótus cinza em Heze. Gu Qing disse que era melhor esperar. E se as flores de verdade rissem delas? A avó pensou com toda a seriedade e disse que, ainda assim, tinham de mostrar a elas do que eram capazes. Gu Qing prometeu embalar para a avó uma caixa rasa. Se desse para tirar a flor, tirariam. Se houvesse risco de amassar, ficaria na hospedaria. Assim, não decidiu de antemão que aquele lótus cinza, que nunca tinha visto uma flor de verdade, não tinha direito de sair de casa.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《梅花》 (Flores de ameixeira), de Wang Anshi, e o conto original deste site 《不卖春风》 (Não vendo a brisa da primavera). Os personagens, os negócios, a geografia e a cronologia são imaginários; não se trata de uma biografia do poeta. Foram preservadas as escolhas centrais da obra original: proteger a árvore, as flores de seda sem perfume e a contemplação dos lótus por avô e neto.
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