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Um volume nas mãos

Romance de ambientação chinesa antiga sobre ofícios e vida social

A chuva passa pela velha valeta

酷无极 · Criação com IA · 10586 caracteres · Cerca de 11 minutos

Na noite do vigésimo dia do segundo mês, a chuva desabou pelas frestas das telhas. Antes de ouvir qualquer trovão, Gu Qing ouviu o baque de uma tábua que a água levantara junto ao poço. Vestiu-se às pressas e saiu. Mal seus sapatos tocaram o piso de pedra, a água gelada já lhe cobria o peito dos pés. A plataforma de madeira onde antes ficava o cesto de papel estava inclinada. As folhas soltas que tinham ficado embaixo estavam encharcadas, presas ao pé do muro por ripas finas de bambu. A água rodopiava ao longo do muro, sem querer seguir para a vala antiga.

Ela acordou a avó, pôs as duas caixas de material da casa em cima dos bancos e foi abrir o portão do pátio. No beco, a água ainda era só uma película brilhante, mas no pátio de casa já estava mais funda. No pátio dos Wen também haviam acendido uma lamparina. Achun veio correndo do sul com um ancinho de madeira, gritando que a boca da vala tinha entupido de novo. A primeira coisa que Gu Qing perguntou foi se eram fiapos de cânhamo que tinham caído na descarga do outro lado. Ainda estava no meio da pergunta quando seu pé bateu num bolo de alguma coisa mole.

O que ela apalpou ao baixar a cabeça foi papel velho de embrulhar flores. Estava encharcado, grudado em varetas finas de bambu que prendiam lama e folhas secas, tudo entalado na abertura estreita ao pé do muro curvo. Um mês antes, ela havia levado o cesto de papéis para dentro, mas não levantara a plataforma para limpar os papéis soltos e as varetas que tinham caído por baixo. Quando a água baixou, só sondou a boca da vala, sem olhar sob a plataforma. Agora o papel inchara de tanto ficar de molho, as varetas o prendiam cada vez mais, e a água fazia força junto à sua mão, como se uma mão invisível insistisse em voltar para dentro de casa.

Xu Tan veio dando a volta pelo outro lado, com as barras das calças arregaçadas até os joelhos e uma pá curta na mão. Sem perguntar de quem era aquilo, chamou Achun para aparar o entulho mais abaixo na valeta, para que o bolo inteiro não fosse levado até a saída mais estreita. Ao ouvir que essa saída ficava fora do próprio portão, na curva para o sul, Gu Qing enfim ligou os pontos com o trajeto que He Fengqiu já tinha desenhado com o dedo. Agachou-se, a água entrou direto pela barra da roupa, e ela foi puxando a tira de bambu pelo tato, polegada por polegada.

O papel molhado se desfazia com facilidade, mas era difícil retirá-lo por completo. Bastava enganchar um dedo para trazer apenas um pequeno tufo; o restante continuava enroscado na fresta junto às raízes da árvore. Ela quis pegar um gancho de ferro, mas Xu Tan a deteve: “Não vá forçar as raízes de qualquer jeito. Primeiro levante a tábua.” Gu Qing acrescentara aquela tábua depois, para apoiar mais um cesto, pregando-a na travessa da mesa baixa de materiais. Era preciso mover a mesa para expor por inteiro o bolo submerso.

Gu Qing se levantou e tentou erguer uma das pontas. As bandejas de flores que secavam sobre a mesa se inclinaram junto. Ela correu para segurá-las, e a água tornou a avançar. A avó, de lamparina na mão à porta, disse que levasse as flores para dentro. Gu Qing olhou para as quarenta flores novas que acabara de pôr para secar, sentiu a garganta apertar e levou duas bandejas para dentro, empilhando-as sobre um banco. As pétalas se tocaram, mas já não dava para cuidar disso. Tia Chen ouviu o alvoroço e veio de guarda-chuva. Ao ver a água diante da porta, fechou o guarda-chuva e ajudou Gu Qing a carregar a terceira bandeja.

Os três afastaram a mesa. Embaixo, além de papel, tinham se acumulado fibras de cânhamo vindas da casa dos Wen, areia do muro antigo e gravetos caídos da árvore. Gu Qing tirou primeiro as próprias ripas de bambu e arranhou o dorso da mão. Suportou a dor sem recolher a mão. Ah Chun aparava o que vinha na ponta de baixo e retirava tudo, balde após balde. A pá curta raspou no fundo duro, e enfim a primeira corrente de água foi sugada junto aos pés deles, com um ruído muito baixo.

Xu Tan se virou de lado, e o punho da roupa caiu na água suja, molhando a manga inteira. Gu Qing disse: “Fui eu que deixei cair o material de papel.”

Xu Tan fez um “hum” e continuou raspando. Gu Qing acrescentou: “Da outra vez, só tirei o cesto. Não limpei embaixo.”

“Então desta vez tire tudo.” Xu Tan lhe entregou o cabo da pá e se virou para ver se A Chun não deixara a água suja correr em direção à porta da senhora Liu.

Ninguém deixou de fazer o trabalho que tinha em mãos só porque ela havia falado. Gu Qing pegou a pá, abriu uma passagem da largura de uma mão e apalpou cada curva da vala. Só com metade do corpo encostada no muro úmido e os joelhos contra a pedra dura entendeu que, ao dizer no décimo primeiro mês que queria conservar a vala, conservara um caminho junto ao qual alguém sempre teria de se agachar.

Na segunda metade da noite, a chuva abrandou. A água baixou até as frestas das pedras, e a avó trouxe água quente e panos secos para que todos enxugassem primeiro as mãos. A tia Chen viu a lama nos panos secos que tinha trazido e resmungou que um dia lavando roupa rendia menos que meia noite na casa delas. Gu Qing quis rir, mas o riso não saiu. Disse que ela mesma lavaria aqueles panos. A tia Chen torceu o pano que tinha na mão e o pôs no ombro de Gu Qing: “Primeiro troque de roupa. Se você começar a tossir, quem vai lavar?”

Na manhã seguinte, Gu Qing levou a mesa de volta ao pátio. Mudou-a três vezes de posição, mas em todas ela continuava sobre a linha por onde a água precisava escoar. Quando ergueram o muro curvo no inverno, ela só tinha recuado a mesa até debaixo do beiral. Em dia de sol, ainda dava para deixá-la atravessada. Quando vinha a chuva, porém, dois pés da mesa fechavam justamente a curva da vala. Para manter a passagem livre de vez, teria de desmontar a metade da armação de materiais que corria junto ao muro. Mediu o espaço com a mão. Na parte que sobraria só caberiam duas bandejas rasas, onde antes estendia quatro.

Ela foi pedir uma serra emprestada a Zhou Jiping, sem lhe pedir que decidisse como desmontar a estrutura. Ele veio dar uma mão, firmou a metade do suporte e perguntou se ela queria guardar a madeira velha. Gu Qing disse que junto ao muro não ficaria nada. O que ainda servisse iria para a cozinha, e o resto secaria para virar lenha, sem voltar a se apoiar naquele muro. Ele pôs um tijolo debaixo do ponto de corte e uma bacia para recolher a serragem. Parou quando faltava o último dedo de madeira, para que ela segurasse a metade que ia sair. O corte mostrou uma madeira quase branca, e a mesa velha pareceu de repente ter perdido um braço conhecido.

A avó arrastou o banquinho para mais junto da janela, querendo lhe dar mais um pé de espaço. Gu Qing o pôs de volta onde estava e pregou lá no alto duas prateleiras estreitas com a madeira que sobrara. Assim, as bandejas rasas podiam ficar umas acima das outras. Em dias nublados, teria de fazer menos, e, para secá-las ao sol, teria de revezar as bandejas uma por uma. A perda não virou um jeito engenhoso de produzir mais flores. Era cansativo alcançar as prateleiras altas, e embaixo havia menos luz. Para entregar os quarenta ramos que anotara para a loja de Yao, só lhe restava começar mais cedo.

No dia vinte e dois, a chuva parou, e tia Chen trouxe duas capas grossas de colchão para lavar. Gu Qing carregou água para ela, lavou os panos que tinham se sujado com a ajuda daquela noite e terminou de lavar o tecido que prometera. Tia Chen esfregava outro pedaço ao lado e perguntou se agora ela já sabia que conter a água dava mais trabalho do que conter gente. Gu Qing disse que gente ainda escuta uma palavra, água não. As duas riram um bom tempo, cada qual ainda esfregando com força, sem decidir qual delas tinha mais razão.

Os Wen chamaram He Fengqiu para ver a vala. O pedreiro raspou a areia acumulada na saída e confirmou que o muro novo não havia cedido nem deixava a água vazar. Pôs duas pedras finas onde a lama caía com mais facilidade, sem vedar de vez, para que pudessem removê-las e conferir depois. Como a obra e os materiais serviam ao escoamento de várias casas, os Wen adiantaram o dinheiro, e Gu Qing e os Chen pagaram cada qual pelo seu pequeno trecho. Gu Qing desembolsou doze wen. Isso não comprava o direito de nunca mais tocar em água suja. He Fengqiu pediu que ela tentasse levantar uma das pedras ali mesmo. Ela se abaixou, ergueu a pedra e viu que ainda cabia uma mão por baixo.

Só na segunda noite depois de desmontar a armação Gu Qing percebeu que ainda não tinha onde pôr um fardo inteiro de seda de borda larga que antes tinha pena de cortar. Pensou em enfiá-lo debaixo da cama, mas ali já estavam as cobertas de inverno e os sapatos que a avó usava para sair. Deu uma volta com o fardo nos braços e, no fim, teve de abri-lo. Separou uma parte para levar à senhora Ji, que abateria de futuras compras o valor correspondente ao de tiras prontas para acabamento. Enrolou de novo, bem apertadas, as tiras mais estreitas que sobraram e guardou-as na prateleira alta. Perdeu a facilidade de estender o tecido a qualquer hora para escolher a cor, e perdeu também aquela pequena sensação de fartura que tinha ao ver um fardo inteiro de seda boa.

Shen Su amarrou para ela o último rolo e perguntou se não queria guardar aquele pedaço dourado-claro. Gu Qing o apalpou, reteve uma amostra da largura de um palmo para testar a cor e entregou o restante. Depois que levaram o embrulho de papel, era como se um canto do cômodo tivesse ficado vazio. Ela se sentou diante da mesa, agora reduzida à metade, e ficou um longo tempo sem dar um corte sequer. Só quando os pingos no pátio foram ficando mais espaçados ela virou uma flor já seca para conferir se a camada de baixo também tinha secado. No estreito espaço que deixara livre, a luz batia nas pedras molhadas, e dava para ver a água escoando para fora.

O jardineiro Qiu Shen veio por acaso à casa dos Wen cobrar pelos vasos e pediram que ficasse para examinar a ameixeira. A árvore não tinha flores; os brotos começavam a inchar, e uma roda de terra junto às raízes úmidas estava compactada pelas pisadas. Ele disse a Gu Qing que parasse de pisar sempre no mesmo lugar, soltasse um pouco a terra da superfície e deixasse a água escoar pela vala; não precisava cavar junto às raízes todos os dias por medo de encharcamento. Gu Qing perguntou se a árvore sofreria danos naquele ano. Ele ergueu os olhos para a copa e disse que era preciso esperar as folhas nascerem; por ora, ninguém podia responder por ela.

Ela já tinha ouvido uma resposta assim e, desta vez, não insistiu em obter uma certeza. Tirou de dentro de casa o velho cesto de papel estragado pela água e o desmanchou. As talas de bambu que tinham salvação foram secar do lado de fora da porta. Do resto, livrou-se no mesmo dia. Havia fragmentos de pétalas velhas misturados à lama. Os vermelhos já tinham ficado castanhos. Gu Qing os desprendeu com a ponta do dedo e os recolheu, pedacinho por pedacinho, numa tigela vazia. A avó, sentada à janela, ficou olhando, sem lhe estender a meada de linha grossa que tinha na mão para apressá-la de volta ao trabalho.

No dia vinte e quatro, o primeiro período de sol durou o suficiente para revezar as bandejas de flores quatro vezes. Ao levantar a última bandeja, Gu Qing ralou um pouco a pele do dedo mínimo na prateleira e bateu o pé de raiva. Zhou Jiping ia passando à porta. Ouviu-a xingar a armação e se virou para perguntar se ela queria acrescentar uma borda de apoio articulada. Ela disse que sim e pediu primeiro o preço. Ele deu o valor do material e da mão de obra e disse que ela podia economizar metade se colocasse os pregos, e ele cortaria a madeira fina. Gu Qing pensou um pouco e disse que ela mesma pregaria. Naquele momento, precisava mesmo economizar aquelas poucas moedas. Não estava tentando provar que conseguia fazer tudo sozinha.

Os quarenta ramos do dia vinte e cinco foram entregues no prazo. Na frente dela, o pessoal da loja de Yao dobrou as pétalas e balançou as hastes. Aceitou trinta e nove e devolveu um cuja costura na base estava frouxa. Gu Qing reforçou a costura e tornou a entregar o ramo no mesmo dia. Ao cair da tarde, recebeu duzentos e quarenta wen. No caminho de casa comprou dois pedaços de tofu. Ainda não ousava dizer que dali em diante tudo correria bem, com o corte na mesa feito depois da chuva ainda à vista perto da porta. Deslizou de leve o tofu para dentro da sopa e perguntou se a avó queria rabanete picante no jantar.

No dia vinte e seis, choveu de novo. Gu Qing cobriu bem as bandejas de flores com papel fino, pegou a pá curta e saiu. Tia Chen já estava na parte baixa da vala e Xu Tan segurava a lamparina do outro lado. As três não voltaram a discutir quem tinha primeiro atrapalhado a passagem de quem da outra vez. A água correu por baixo das pedras finas. Cada uma conferiu seu trecho e voltou aos afazeres de casa. Já do lado de dentro do portão, Gu Qing lavou a lama da pá e a pendurou num prego de onde fosse fácil tirá-la, sem escondê-la atrás do armário.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《梅花》 (Flores de ameixeira), de Wang Anshi, e o conto original deste site 《不卖春风》 (Não vendo a brisa da primavera). Os personagens, os negócios, a geografia e a cronologia são imaginários; não se trata de uma biografia do poeta. Foram preservadas as escolhas centrais da obra original: proteger a árvore, as flores de seda sem perfume e a contemplação dos lótus por avô e neto.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. O perfume frio não está na seda
  2. O lugar cercado de cal branca
  3. A tesoura sob a lua
  4. Flores de ameixeira de seda sobre a mesa
  5. O portão voltado para o outro lado
  6. Dois pequenos cordões de moedas
  7. A curva que abriu espaço
  8. Uma placa sem perfume
  9. Meio dia de pagamento
  10. A flor que não é flor
  11. Encaixotando depois da neve
  12. Quanto custa um ramo
  13. A véspera de Ano-Novo na casa dos outros
  14. Depois da floração
  15. Imprimir o nome no papel
  16. Uma tigela de comida fria
  17. Da primeira vez, não se pode refazer
  18. As caixas devolvidas
  19. Um pátio para duas pessoas
  20. A chuva passa pela velha valeta
  21. As contas de Xiaoman
  22. Um espaço ao lado do guarda-chuva
  23. A primavera que os fregueses querem
  24. As flores deixadas sobre a mesa
  25. O caminho de uma pessoa
  26. Não reservar o quinto mês para os negócios
  27. Quem olha as flores
  28. A terceira bolsa de moedas
  29. O que fazer com a árvore no verão
  30. Antes de embarcar
  31. O primeiro trecho por água
  32. As folhas de lótus ainda não se abriram
  33. Aquela flor no meio das águas
  34. Na volta, sem correr atrás da floração
  35. A sombra de verão da ameixeira
  36. Fazer mais um ramo novo

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