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Um volume nas mãos

Romance longo de aventura no transporte fluvial numa China antiga imaginária

O som do bronze sob a lama

酷无极 · Criação com IA · 10652 caracteres · Cerca de 11 minutos

A primeira olhada do Mestre Xu em A-Shuan não foi para o colete vermelho, foi para a mão dele enrolada em pano.

Aquela mão pousava na borda do cabo da barcaça curta, a raiz do polegar inchada, os dedos desviando de lado sem querer quando se fechavam. O Mestre Xu mandou que hoje ele não pegasse no cabo-mestre e fosse guardar a vara de gancho. Ao ouvir, A-Shuan aquiesceu primeiro e ainda assim não se conteve, explicando que era só pele rompida. Xu virou-lhe a própria palma: umas cicatrizes velhas, brancas e fundas, atravessadas como fendas preenchidas na madeira, e disse que pele rompida também é assunto da mão, que não se põe os dentes no lugar dela.

A-Shuan não discutiu mais e tomou a vara comprida.

O dia já estava claro quando a barcaça saiu de Weishi. A lenha espaçada na véspera ficara no barracão do acampamento; o carpinteiro, de noite inteira, fixara os pés da travessa às vigas grossas dentro do barco, com guinchos dos dois lados, e o ponto de içar não esmagava só a amurada fina de um bordo. A armação foi posta ao centro do barco; nenhuma carga alta demais, e o bronze resgatado só precisava sair da lama — bastava pousar firme no lugar baixo e forrado —, nada de içar por cima da cabeça da gente.

Tio He seguia no barquinho de Lu Qi; esta manhã, quem o impelia era um auxiliar de Xu.

Lu Qi veio junto, sentado na outra ponta com as mangas fechadas, resmungando que o seu barquinho, de sal a armamento, ia agora virar olho debaixo d'água. Tio He quis discutir quem sentava mais para dentro e, mal moveu o corpo, a cintura doeu de cansaço e parou. Lu olhou de relance, abriu espaço ao lado e disse: hoje escute-me por uma vez, e assim o sal não azeda nem a cintura quebra antes no barco alheio.

Cen estava na barcaça de carga, ajudando Xun e Qian Liu a transportar os calços de madeira. Ma Jie ficara no mercado de juncos acompanhando o conserto do barco original. Os vinte e quatro estavam na casa do médico do acampamento; nenhum viera. Naquela noite, o barco teria ficado muito mais leve sem os soldados feridos. Agora que de fato estava vazio, Ashuan olhava para o meio da ampla barcaça e sentia, ao contrário, que o vazio que menos deveria existir estava bem diante de seus olhos.

De dia, Luokou parecia muito pequeno.

A água corria mais mansa, as duas margens de lama amarela, os ramos baixos arrastando na água, e a pedra de espinha de peixe mostrava só um ponto de negro molhado. As árvores da margem que, naquela noite, pareciam capazes de esmagar um homem vivo tinham copas espraiadas ao longe em folhas miúdas; havia pássaros nelas, que, ao ouvir o barco, saltaram dois galhos sem voar embora. A A-Shuan pareceu estranho como um lugar assim pôde crescer dentro dele maior que o rio inteiro.

A madeira boiando já não estava na linha onde primeiro a viram.

Qian Liu gritou primeiro, mas He Bo olhou para as raízes e depois para a pedra pontuda rio abaixo. Mandou parar o barquinho, sem sair perseguindo aquela sombra de madeira. A corda curta de marcação presa à madeira flutuante fora inclinada pela água; o objeto submerso não necessariamente se movera junto. Lu firmou o barco com o remo, enquanto outro ajudante o conduzia devagar pelo lado de fora. Primeiro chegaram às raízes, à procura das pontas de corda que Ma Jie amarrara no alto naquela noite.

Os dois feixes das oito caixas estavam cada um no lugar, e o que sustentava o canhão também continuava lá.

A-Shuan desceu para o barquinho e sentou-se justamente no lugar de Qian Liu naquela noite. Sem precisar que o mestre abrisse a boca, recolheu os pés para baixo e, com o barquinho firme, foi sondando com a vara comprida pela corda afundada. Na primeira, tocou só uma borda de madeira; na segunda, a vara escorregou de lado; Xu, da barcaça, gritou para não apressar em anunciar o canhão — a vela também enrolava a carreta de madeira, era preciso distinguir onde tocava. Ele seguiu a direção daquela corda descendo, deslocou a vara mais uma mão e tocou num redondo duro que não cedia; a ponta escorregou por ele com um som curto.

O bronze estava lá.

Ao ouvir, Qian Liu, de tão contente, agachou-se rindo no lugar e, logo achando-se bobo, levantou-se e disse que aquilo não ia, numa noite só, nadar até o condado vizinho. Cen não riu; mandou primeiro A-Shuan sair da linha que sofreria a força e, quando a barcaça larga deslizou devagar ao ponto exato, as amarras foram postas separadas — a corda da raiz que sustentava o canhão não viraria também uma corda qualquer de amarrar barco.

As duas polias tiveram de ser revistas.

As roldanas de madeira deixadas na forquilha da margem beberam o sereno da noite e giravam a custo; Xu mandou auxiliares subirem na plataforma de pedra para apalpar, uma a uma, casco, eixo e garganta, e a manta de vela que antes sofria o atrito foi trocada por outra mais larga. Na barcaça, a travessa recebeu outra corda que repartia o peso; o canhão ainda jazia no fundo de lama, e primeiro se pôs cada corda no seu rumo, para não erguer de chofre um lado e virar uma boca de bronze para o outro.

A-Shuan observava devagar, e Xu não supôs, por ele ter dito que guiara águas por tantos anos, que devesse entender cada ponto da armação.

— Você avisa o que se passa embaixo. O que se passa em cima, aviso eu — disse ele.

Na primeira recolhida de cabo, nada se moveu debaixo d'água.

A corda retesou até dar um som grave; os pés da travessa dos dois lados seguiam firmes, mas Xu mandou parar. A-Shuan, os olhos cravados na corda afundada, pensava: faltou tão pouco, naquela noite, para que alguns homens pudessem descansar; de dia, com tanta gente assim, não haveria de levantar? Os lábios já se abriam; Xu olhou para ele, e ele engoliu a frase com mais uma força e relatou apenas que a vara ainda tocava o lugar de antes.

Xu mandou recuar metade do percurso, para ver que lado sofria primeiro.

Um pé da carreta afundara na lama mais que o outro; se os dois lados puxassem juntos, o raso subiria primeiro, o fundo seguiria mordendo, e o corpo de bronze tombava com a carreta. Xu mandou trocar um pouco a direção da tração da barcaça, ainda sem erguer: primeiro balançar de leve a cabeça funda e, quando entrasse água de verdade entre a lama e a carreta, levantar tudo junto. Os auxiliares da margem, com varas compridas, apartaram as faixas de abraço; a mão não ia para dentro da corda submersa, e o rabo do bambu remexeu na lama um tufinho amarelo.

Essa espera foi longa.

Lu Qi pôs o barquinho por fora, onde não atrapalhava o guincho; o pé de A-Shuan enrijecera, ele quis levantar-se e, ao ver, Xu mandou trocar o homem primeiro. Xun desceu ao barquinho para tomar a vara; ele recusou, dizendo que ainda podia avisar. Lá na frente, Tio He não falou por ele nem o censurou; apenas estendeu a própria régua fina, apontando um travessão fácil de pisar, para que ele, ao erguer-se, pusesse o pé ali primeiro e não escorasse a borda do barquinho com a mão ferida.

Ashuan olhou para o velho e, por fim, entregou a vara.

Ele subiu na barcaça, sentou-se ao lado e percebeu de repente que viera, todo o tempo, rivalizando em silêncio com Xu. Como o outro não o deixava pegar o cabo, ele quis fazer o aviso de baixo tão bem que ninguém pudesse substituí-lo — até a dor tinha de sair primeiro da sua própria boca, para que não contasse como mais uma vez o terem tirado do lugar onde devia estar. Xu, ocupado com a armação, não o ficou encarando; só Tio He mandara por Lu uma garrafa de água morna e, com a água na mão, ele soube que os lábios já estavam secos e descascados.

Xun avisou que estava solto.

O eixo do guincho tornou a girar; sob a lama subiu primeiro uma coroa de turvo, o canto de vela apareceu um pouco fora da água, afundou de novo, reapareceu. A carreta não saltou inteira; os dois pontos de força ergueram-se devagar até a mesma altura e, quando os pés de madeira deixaram o fundo, veio um borbulhar grosso, como se no fundo houvesse outra vasilha tapada que finalmente soltava o ar.

Xu mandou não erguer mais por ora.

Conferiu que os cabos dos dois lados não se esmagavam e que a travessa não pendia para um bordo; só então mandou erguer um pouco, até alcançar as pranchas lisas e grossas preparadas ao lado. A gente empurrava de fora da armação, os barrotes de madeira apoiados na viga forrada que sofria o peso, e o corpo de bronze, ainda embrulhado nas faixas, foi passando, trecho por trecho, para dentro da barcaça. A água escorria da vela velha, pingando no fundo do barco; a boca do canhão apareceu atulhada de lama fina, e a borda que fora polida até brilhar já não brilhava havia tempo.

Cen estendeu a mão querendo limpar, e Xu o conteve.

Só quando o canhão pousou de verdade no apoio de madeira do lugar baixo, cunhas travadas e o cabo do guincho já não carregando sozinho, o comandante agachou-se. Tomou um pano e passou; o pano mal chegou à boca, e a lama espremeu-se para fora junto com a água. Qian Liu, atrás, disse para não tampar de volta: depois de um dia e tanto bebendo, que ao menos cuspisse um pouco. Cen assentiu, até, e trocou o pano para limpar a marca gravada junto à carreta de abraço, para que quem viesse receber ainda distinguisse qual boca era aquela.

Tio He não subiu na barcaça para apalpar o canhão.

Sentado no barquinho, viu aquele trecho de bronze assentar-se em segurança, as mãos pousadas nos joelhos. A-Shuan julgara que o mestre havia de chegar perto para ver, pois fora ele o primeiro a falar em descarregar naquela noite; agora, quando Xu perguntou se era aquele, o velho apenas correu os olhos pelos munhões originais e pela fenda velha do pé da carreta, respondeu que sim, e o olhar já descia para o feixe seguinte de corda afundada.

Em seguida ergueram as oito caixas, e a lentidão não foi menor que a do canhão.

As caixas estavam encharcadas, lama escondida nas frestas dos cantos; se a corda de alguma puxasse torta, a madeira molhada rasgava, e não se ia arrastá-las nos dois feixes originais de uma vez. Xu mandou recebê-las de fora, uma a uma, numa rede de corda de sustentação: primeiro o fundo amparado, depois o deslocamento. Nas tampas, os carimbos do lacre estavam borrados; numa caixa, a borda de cima erguia-se, as peças de ferro afundadas dentro, e ao lado um feixe de cordas de arco reservas viera todo amolecido de molha — ao levantá-lo, pingou uma fileira comprida de água.

Cen mandou que não se dissesse, antes de secar ao sol, que não estava molhado, e que o pusessem à parte.

A-Shuan levantou-se para ajudar o escrivão atolado de serviço a reconhecer os cantos das caixas. Os pingos de carvão daquela noite tinham desbotado de molha; ele só se atreveu a apontar as duas que ainda distinguia, e das outras não adivinhou. O escrivão então fez etiquetas pequenas pela ordem de resgate, amarradas às cordas, sem exigir que o jovem recitasse de cabeça, até o último número, a conta de uma noite inteira, para que as coisas já embarcadas voltassem a ter nome.

Quando as oito caixas chegaram à barcaça, o sol já pendia para o poente.

Todos comeram primeiro a comida trazida de casa. O embrulho de Lu Qi levara água pela borda; ele escolheu um canto seco, partiu-o para Tio He e ficou com a outra metade na boca, olhando as árvores da margem, e disse: se figueira de alguém cobrasse aluguel, naquela noite teria ganho mais do que eu. Qian Liu, na barcaça, ouviu e mandou-o não doutrinar as árvores — a árvore já cobrara dele uma tira de roupa.

Os auxiliares da margem, descendo a polia pela forquilha grossa, acharam aquele pedaço de linha de roupa raspado e chegaram a gritar, de verdade, perguntando a Qian Liu se queria. Qian Liu apertava o canto da própria roupa, respondendo com a boca que não; quando o pedaço chegou à mão, porém, ele o recebeu e guardou no bolso. A-Shuan, com a mão parada no ar com a comida, olhou aquela lasca entre os dedos, a borda esfiapada miuda como a abertura do seu colete.

Tio He mandou-o comer: não comer era pôr frio sobre frio.

Na saída, A-Shuan desceu de novo ao barquinho para recolher a vara fincada solitária. Os quatro anéis de pano estavam agora todos fora da água, parecendo ainda mais que naquela noite uns nós pequenos e inúteis. Ele soltou primeiro a ponta de baixo, presa na fresta da pedra, depois desfez a volta atada à raiz, sem arrastar nenhuma outra corda ao lado. Quando o bambu deixou a água, percorreu a vara com os olhos; não cortou aqueles panos molhados, apenas os deitou planos dentro do barquinho, no canto interno onde ninguém pisaria.

Na volta para Weishi, a barca de carga tinha de seguir pelas águas já sondadas.

A-Shuan sentou-se na proa com uma tabuinha de madeira nova na mão e anotou, conforme o visto naquele dia, primeiro o baixo raso, a crista de pedra, o ponto de parada da barcaça larga, sem acrescentar, da velha memória, aquele trecho de margem adiante que não se enxergava bem. Xu passou por trás dele, estendeu o dedo para um ponto e disse que hoje a água ali ainda baixava: escrevesse a data. A-Shuan acrescentou dia dezessete, raspou depois um trecho da linha de lama que viera por demais carregada e deixou vazio o espaço que há pouco não dera para sondar.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《江汉》 (Yangtzé e Han), de Du Fu, e o conto original deste site 《老马识暗滩》 (O velho cavalo reconhece os bancos submersos). Os personagens, a cronologia, os trechos fluviais, os modelos de embarcações e os regulamentos militares são imaginários; não se trata de uma tradução ou adaptação do poema original, nem de uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. A mão que não queria parar
  2. O canal que o barco de sal viu primeiro
  3. A frase que ficou fora da carta
  4. A bandeira vermelha subiu ao mastro
  5. Os que esperam o barco
  6. O cavalo comeu uma fileira de horta
  7. Mais um traço branco nas velhas ondulações
  8. O banco que não se podia guardar
  9. O último prego do rio
  10. A casa a uma lâmina d'água
  11. No baú não vai a lama antiga
  12. O dia a mais do desvio
  13. Sem som de água ao travesseiro
  14. O colete vermelho está todo coberto de lama
  15. O nó que ninguém queria soltar primeiro
  16. Quatro tiras de pano
  17. A noite em que quatro não puderam atravessar
  18. Ele não aceitou aquele desenho
  19. Aquela velha ferida na árvore
  20. A faca já não pesa sobre o canhão
  21. A raiz agarra um cabo
  22. A metade que ainda tinha de descer
  23. Diante do leme, o lugar de outro homem
  24. A canção junto à pedra de espinha de peixe
  25. Uma tigela de água antes do amanhecer
  26. O armamento que não se entrega inteiro
  27. O som do bronze sob a lama
  28. Aquele pouco de lama velha sob a margem
  29. O soldo de um mês que não se pode receber
  30. Dez profundidades de água
  31. Dentro da porta, coisas já tinham sido postas
  32. Um cavalo que não conhece os limites da roça
  33. A mão fria na régua de sonda
  34. A luz que se derrama do telhado
  35. Uma folha não preenchida por completo
  36. Deixar um caminho para o velho cavalo

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