Romance de rotas comerciais e reencontros em ambientação chinesa antiga
Na margem dele
酷无极 · Criação com IA · 11578 caracteres · Cerca de 13 minutos
No quarto dia do mês, por volta das nove da manhã, Lu Yan esperava do lado de fora da hospedaria Donghuai. Nunca, nem quando esperava um barco atrasado, ficara tão sem saber onde pôr as mãos.
Ele tinha ido cedo à casa comercial conferir duas páginas de registros antigos que cabiam àquele dia e avisara a Fei Shao que voltaria à tarde. Só então lavou as mãos e foi trocar de roupa. No meio da troca, achou que estava ficando arrumado demais, como se fosse à casa de alguém inspecionar um lote de mercadoria nova. No fim, só alisou a gola. Agora, parado à porta, viu o estalajadeiro Qiu olhar para sua gola e depois sorrir para o andar de cima. Qiu não disse nada, o que só fez Lu Yan desconfiar ainda mais de que tinha virado do avesso alguma ponta da roupa.
Quando Yao Jia desceu, trazia o cabelo preso mais frouxo. A fita cor de damasco ainda estava ali, mas já não dava a volta do mesmo jeito que em Changgan. Ela chamou Lu Yan pelo nome, com um pouco daquela leveza de quem dormira bem na noite anterior. Ele levantou a cabeça e sorriu de imediato, e o embaraço de não saber onde pôr as mãos cedeu junto. Perguntou se ela tinha dormido bem. Ela disse que, com as pernas esticadas, passara a noite sem querer encolhê-las. O senhor Qiu ouviu lá de trás e riu, dizendo que pelo menos não fossem transformar a cama em barco.
Ela queria comprar alguma coisa antes de ir ver a mãe dele. Lu Yan pretendia levá-la à loja de bolinhos que conhecia, mas Yao Jia parou em outra, na esquina. Viu uma travessa de bolinhos com as bordas ligeiramente tostadas, em que ainda dava para distinguir os grãozinhos de feijão, e perguntou o que ele achava daqueles. Ao ouvi-la, ele não se conteve e disse que a mãe adorava daquele jeito. Yao Jia se virou para ele e disse, sorrindo, que então tinha acertado em perguntar. Que ele agora não fosse trocar por algo de que ele mesmo gostava.
Ela comprou um pacotinho de nove moedas e foi levando-o nos braços até Lu Yan estender a mão. Então deixou que ele carregasse, sem discutir o dinheiro no meio da rua. Percorreu os dois li mais depressa do que no dia anterior. Parou à porta de uma loja para olhar os pacotinhos de temperos pendurados lá dentro. Antes de perguntar o preço, quis saber se podia voltar à tarde. Lu Yan disse que sim, que ficava bem perto do armazém da firma e que antes precisava terminar de conferir os recipientes vazios que estavam com ele. Ela assentiu, guardou na memória a bandeirinha junto à porta e seguiu com ele.
Lin Qian separava verduras sob o beiral. Ao ouvir o filho, logo mandou que viesse pela direita, pois a bacia estava de novo à esquerda. Yao Jia riu assim que ouviu. Lu Yan ainda ia responder quando a mãe ergueu a cabeça, viu Yao Jia, limpou as mãos duas vezes no avental e veio recebê-la. Chamou-a pelo nome, sem tratá-la por dona da Casa Yao, e deixou passar o sorrisinho que o filho escondia atrás dela. Só disse que a viagem devia ter sido cansativa e que viesse se sentar.
Lu Zai estava junto à janela e se endireitou assim que ouviu. Yao Jia deixou o pacote de bolinhos sobre a mesa e o cumprimentou. O pai assentiu, olhou para ela por um instante e disse que ela se parecia muito com Xin ao redor dos olhos, embora sorrisse de um jeito um pouco diferente. Ela respondeu que a mãe sempre soltava primeiro uma bronca antes de rir. Lin Qian concordou na hora. Uma vez, tinha dito a Xin para não levantar um pote. Xin foi lá e o levantou para todo mundo ver, e no fim ainda disse que a culpa era de Lin Qian, que ficara olhando tanto que ela ficou sem graça de não levantar.
Todos riram. Lu Yan viu algo estremecer de leve nos olhos de Yao Jia, mas ela continuou rindo e disse que, pelo que ouvia, se parecia bem mais com a mãe. Lin Qian apertou a mão dela e depois foi buscar um prato. Quando abriram o embrulho, Lu Zai partiu um canto do bolinho com a mão esquerda. Viu que o pedaço tinha ficado grande e quebrou mais um pouco. Caíram farelos sobre a mesa, e ele mesmo os juntou com o dedo, sem pedir que o filho se adiantasse a limpar.
Yao Jia olhou para as meias mangas de tecido com desenhos claros que Lin Qian usava e elogiou a cor. Os olhos da mãe brilharam na hora. Disse que ela mesma tinha escolhido. O tio Lu só sabia dizer que pano escuro disfarçava a sujeira. Se fosse por ele, ela passaria todos os anos vestida de pano velho de embrulhar carga. O pai soltou um resmungo e perguntou quem a tinha impedido de vestir aquilo. Ela respondeu que impedir, ninguém impediu, mas que ele falara um bocado. Então pediu a Yao Jia que tocasse a borda do pano e disse que, cortado em meias mangas, também era rápido de lavar.
Sentado ao lado, Lu Yan pensou pela primeira vez que aquelas discussões de casa, tão familiares a ele, talvez soassem novas aos ouvidos dela. Yao Jia tocou mesmo o tecido e contou também da fita de cabelo de Changgan, de como a tia achava que ela a prendia longe demais, lá atrás. A mãe olhou para o lado do cabelo dela e disse que assim estava ótimo, que não deixasse um bando de gente pentear seu cabelo ora para um lado, ora para o outro, sem que ela pudesse decidir. Atrás da janela, Lu Zai ouviu. O canto da boca se mexeu, mas ele acabou deixando a frase com ela.
No almoço, Lin Qian acrescentou à refeição de sempre um prato de legumes macios. Sem encher a mesa, perguntou a Yao Jia se tinha se acostumado à comida da viagem. Ela disse que o macarrão da noite anterior estava gostoso e que tinha provado da tigela de Lu Yan. A mãe logo perguntou ao filho se mais uma vez tinha feito alguém acompanhá-lo no que ele gostava de comer. Lu Yan ia se defender, mas Yao Jia sorriu primeiro e disse que ela mesma quisera provar. Lin Qian lançou um olhar para o filho e disse que dessa vez ele tivera sorte de encontrar quem falasse por ele.
O pai perguntou até que dia ela ficaria. Yao Jia disse que a última noite seria a do dia cinco, que subiria o rio no dia seis e voltaria a Changgan na noite do dia oito. Achando pouco, ele deixou escapar que ela mal chegara e já ia embora. Lu Yan sentiu um aperto ao ouvi-lo, mas viu que ela ainda sorria ao explicar que a loja só fecharia por sete dias e que precisava voltar para abrir a porta. O pai assentiu e deixou o assunto por ali. Só sugeriu que pusesse algo macio na cama da hospedaria da senhora Qiu se fosse dura. Quando era moço, ele tinha morado naquela rua e sempre ouvia gente puxando carroças de madeira à noite.
Ela disse que verificaria. A mãe pôs um pouco de verdura em sua tigela e mandou que não ficasse só respondendo. Lu Yan olhou para aquela mesa: as mãos do pai, o bolo de que a mãe gostava, aquele pouquinho de cebolinha junto à borda da tigela de Yao Jia, tudo reunido no mesmo lugar. Era tão comum, mas por um momento ele quase não conseguiu mover os hashis. A mãe percebeu e perguntou por que só ele não comia. Ele logo baixou a cabeça. Do outro lado, Yao Jia o olhava com um pequeno sorriso nos olhos, como se soubesse que ele novamente fora longe por algum lugar não dito.
À tarde, voltaram ao entreposto. Wen Yusheng estava à porta, examinando um engradado de madeira que acabara de chegar. Reconheceu Yao Jia e chamou-a para ficar à sombra, fora do sol direto. Ela o cumprimentou e, em vez de logo tirar uma nova folha de mercadorias para Lu Yan organizar, só ergueu os olhos para ver a gente que ia e vinha no pátio. De repente, Lu Yan achou estreito até aquele trecho que percorria todo dia. Receou que ela visse algum canto em desordem ou ouvisse um ruído desagradável, e que o lugar perdesse a claridade que ele havia descrito nas cartas.
Fei Shao saiu lá de dentro, olhou primeiro para ela e depois sorriu para Lu Yan. Perguntou se ela tinha trazido a flauta nova, pois ouvira dele que ela ia aprender a tirar três notas. Yao Jia respondeu que sim. Quando Lu Yan desenhasse a borda azul em azul, em vez de só puxar um traço e escrever duas palavras, ela tocaria para ele ouvir. Fei Shao ficou um instante sem reação, bateu na coxa e caiu na risada, exclamando que Lu Yan tinha até mostrado a ela os dois travesseiros. Fingiu no rosto uma grande ofensa, mas seus olhos brilhavam.
Lu Yan foi conferir os recipientes antigos que ainda faltavam naquele dia. Yao Jia se sentou de lado e ficou olhando os suportes e as caixas de madeira no pátio. Ao chegar a um balde vazio cuja corda de identificação tinha sido trocada, ele não soube de que casa era e o levou a Fei Shao para perguntar. Fei Shao folheou o caderno e mostrou o cantinho coberto pelo nó. O sobrenome original estava embaixo. Lu Yan abaixou a cabeça e de fato achou a marca ao apalpar. Registrou com clareza que o balde havia voltado. Mesmo com Yao Jia olhando, perguntou e conferiu tudo sem fingir que já sabia.
A meio caminho da anotação, ele a ouviu rir. Ergueu a cabeça e viu que Yao Jia olhava para junto de sua orelha. Lu Yan pensou que fosse poeira de novo e passou a mão. Ela riu ainda mais e disse baixinho que era um fiapo de capim. Ele acabara de varrer capim de meio chão, mas pelo visto um fiapo ainda queria ficar com ele mais um pouco. O capim estava mesmo preso junto ao cabelo. Ele o tirou, entre sem graça e divertido, e nem teve coragem de jogá-lo fora de imediato. Acabou deixando-o na beirada do cesto de aparas e voltou a conferir as últimas peças.
Por fim, Lu Yan teve tempo de mostrar a ela o quarto lateral. Abriu a porta esperando a claridade refletida pelo muro branco, mas naquele dia haviam pendurado no pátio vizinho um pano azul-escuro enorme, que barrava metade da luz. O quarto estava mais escuro que de costume. Parado à porta, ele sentiu o rosto esquentar um pouco. Yao Jia entrou, olhou primeiro para o pano, depois para ele, e riu sem conseguir se conter. Então a sua parede branca também sabia trocar de roupa.
Lu Yan disse que no dia anterior o pano não estava ali. Ao ouvir a própria voz, pareceu-lhe que estava defendendo uma parede, e ele também riu. Ela foi à janela e a abriu um pouco. Pela borda de baixo do pano azul entrava um fio de vento, e no canto do muro subia uma trepadeira fina, com folhas de brilho bem novo. Ela ficou ali por um tempo e disse que, amanhã, quando o pano secasse, talvez a parede voltasse a ser branca. Hoje podiam ver aquilo primeiro. Falou baixinho. Lu Yan se aproximou e viu os dedos dela percorrerem devagar o trecho de madeira que ele mesmo polira sob a janela. De repente, sentiu no peito o mesmo calor que sentira junto ao dique.
No quarto havia uma cama e uma mesa estreita. A velha camisa dele pendia de um pino de madeira, e numa bolsa à cabeceira ainda estavam enfiadas as sobras de papel. Ela se sentou na beira da cama, experimentou se conseguia apoiar os pés por inteiro e ergueu o rosto, rindo, para dizer que finalmente não parecia um barco, como na noite anterior. Ele estava perto. Do lado de fora, o pano azul se agitava na janela, e a luz ora clareava, ora escurecia. Yao Jia estendeu a mão, ajeitou primeiro a dobra do punho da manga dele e depois lhe segurou de leve o pulso.
Lu Yan se inclinou. Ela sustentou o olhar, mas aquele sorriso no canto dos lábios foi se suavizando, e as pontas dos dedos foram relaxando pouco a pouco junto ao punho da manga dele. Ele a beijou. Com as testas bem próximas, ouviu a respiração dela falhar por um instante e também não conseguiu se afastar logo. Alguém passou do lado de fora carregando um balde, e os dois pararam ao mesmo tempo. Yao Jia foi a primeira a rir. Com a mão apoiada de leve no ombro dele, disse que aquela parede branca, se visse os dois, era bem capaz de ficar ainda mais clara que de costume.
Lu Yan sorriu e segurou sua mão, soltando-a só depois de um tempo. Ela se levantou para olhar os papéis soltos na bolsa, sem remexer em tudo; pegou apenas uma folha de anotações sobre mercadorias antigas que já estava aparecendo. Ele liberou uma parte seca da mesa, mas ela própria guardou a folha de volta. De repente, chamou-o pelo nome e disse que daquela vez era mesmo melhor do que apenas esperar uma carta de resposta. Ele a olhou, querendo muito que ficasse mais uma noite, mas no fim só perguntou aonde ainda gostaria de ir no dia seguinte.
Ela indicou a loja de materiais pela qual tinham passado de dia e disse que queria olhar tudo com calma, por conta própria. Havia também uma rua curta onde vendiam sopas e outras comidas quentes. Lu Yan explicou que ela devia sair da hospedaria para leste, passar pela segunda pontezinha e então virar, sem fazer a volta pela via larga dos armazéns que ele tomara naquele dia. Ele arranjou um papel e desenhou as duas pontes, convencido de que estava claríssimo. Yao Jia olhou e perguntou qual dos lados do desenho era o leste. Só então ele se deu conta de que desenhara na direção de quem olha de dentro pela janela. Girou depressa o papel, e os dois riram de novo.
À noite ele a convidou para comer, e pediram duas tigelas pequenas de arroz. Havia poucos acompanhamentos. Ainda assim, ela tirou um bocado da própria tigela para ele provar e logo depois pegou um bocado da dele com os pauzinhos. A Lu Yan pareceu que disputavam bolinhos como na infância, mas era também inteiramente diferente. Ela estendia a mão com naturalidade e deixava o olhar repousar no rosto dele com a mesma naturalidade. Cada vez que os olhos dos dois se encontravam, ele sentia que o dia seguinte ainda estava longe e que podia comer mais devagar daquela tigela diante dele.
Bem cedo no quinto dia, ele passou primeiro pela empresa e depois foi até a entrada da hospedaria. Yao Jia já calçara os sapatos macios com que gostava de caminhar e segurava o mapa da ponte do dia anterior. Sorriu assim que o viu e disse que dessa vez sabia onde ficava o leste; que não começasse de novo a indicar pelo outro lado. Lu Yan concordou e de fato a deixou seguir sozinha. Ficou onde estava, vendo-a virar ao atravessar a ponte e, entre os passantes, olhar mais uma vez para trás.
Ele ergueu a mão, ela também, e logo seguiu para a rua aonde queria ir. Lu Yan ficou um tempo à porta; o caminho de volta ao armazém da firma de repente pareceu mais vazio que no dia anterior. Tocou a parte da manga cuja borda ela dobrara para ele; estava um pouco torta, mas não a endireitou. Pelas vielas de Yuepu que já conhecia a ponto de percorrê-las de olhos fechados, voltou devagar para junto daqueles utensílios antigos de que ainda precisava cuidar naquele dia.
· Fim do capítulo ·
Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《长干行二首》 (Dois cantos de Changgan), de Li Bai, e o conto original deste site 《青梅旧账》 (Velhas contas das ameixas verdes). Os personagens, as casas comerciais, os preços, a geografia e a cronologia são imaginários; foram preservados os elementos centrais da obra original: acertar antigas dívidas, voltar a reconhecer o valor dos ofícios e do trabalho e estabelecer, já na vida adulta, novos termos para a convivência. Não se trata de uma biografia do poeta.
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