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Um volume nas mãos

Romance longo de aventura no transporte fluvial numa China antiga imaginária

A mão fria na régua de sonda

酷无极 · Criação com IA · 11001 caracteres · Cerca de 11 minutos

No terceiro dia do décimo mês, A-Shuan parou no nono lugar.

O vento vinha de través da foz inferior e quebrava a água em cacos; a pedra baixa aparecia e desaparecia a cada rajada. Ele desceu pelo lugar de onde sempre media; o sapato chegou ao segundo degrau e não ousou mais avançar. O bambu novo, mais grosso e mais comprido que o antigo, esticado ainda assim não alcançava aquele ponto de sempre; mudou para o lado, e o vento logo empurrou a ponta da vara, que raspou na pedra com um estalo seco.

Ele recuou um degrau e tirou o papel de dentro da roupa.

Os dez lugares ele escolhera sozinho: cinco medidos de manhã, cinco depois do trabalho, guardando cada dia, tanto quanto possível, horas parecidas. Já acrescentara no papel muitas notas à margem — chuva, um barco carregado de passagem, um banco de lodo novo junto à estaca —, nunca apenas uma coluna de números. Só este lugar, desde o começo, nunca estivera vazio.

O número de ontem estava logo na linha de cima, nítido como quem esperava ser tomado emprestado.

Ele alisou a vara de bambu: o calo na raiz do polegar tinha crescido de volta, e o cotovelo direito agora só doía ao dobrar no frio. Se descesse mesmo, não necessariamente escorregaria; medido o ponto, ninguém saberia de todo que essa folha um dia o envergonhara tanto. Mas a beira da pedra fora coberta uma vez pela onda e, ao descobrir-se, um pedaço de pano podre trazido pela água viera enroscar embaixo, apagando por completo o lugar onde ele ia pôr o pé.

Nesse dia, A-Shuan escreveu 'falta'.

A letra saiu enorme; pronta, ofendia os olhos. Ele quis acrescentar 'foi o vento', a ponta da pena tombou e a tinta gotejou ao lado. Acabou cercando a gota num circulozinho e escrevendo por fora: vento forte, não deu para chegar. Ao erguer-se, viu na vara uma lasquinha de casca alvejada pela pedra; passou a unha devagar, mas não conseguiu devolver-lhe a cor.

De volta ao cais, alguns estivadores tomavam sopa quente.

Ao vê-lo com o bambu nos braços, alguém chamou: mestre Yu, veio medir de novo a cintura do rio? Ashuan sorriu de leve, sem dizer nada. O outro achou aquele sorriso brando e perguntou quantos quilos de água ele medira e se podia fiar meia concha para lavar o suor do corpo. Ele estava cheio de irritação, mas a palavra suor o fez lembrar de repente dos sapatos molhados de Qian Liu. Acabou respondendo que não a misturassem à sopa por enquanto: o rio tinha lama.

Todos riram, e ele também bebeu um gole da sopa comprada ao lado.

Perdido o posto novo, a banca da mãe, porém, não ganhou com isso uma ração da qual ele pudesse comer de graça para sempre. De manhã carregava linho na cordoaria; depois do meio-dia lavava tábuas para outros barcos e recolhia velas velhas; serviço não havia todos os dias — o que lhe saísse, nisso ganhava. Terminadas as cinco medições da manhã, o dia em geral já clareara; não podia mais, como no barco, quando havia comida, esconder-se no porão para repor sono, e só ao apalpar os feixes de linho o cansaço nos braços subia de verdade.

Meng Liuqing não trabalhava todos os dias no mesmo lugar que ele.

Nesses dias ela assumira a troca completa do cordame de um barco de passageiros, acompanhando tudo, do preparo do material até a verificação final dos nós. A-Shuan quis ir junto, mas o barco contratava uma só pessoa para registrar as emendas, e os próprios tripulantes a ajudavam a levar o material pesado. Parado diante da porta, perguntou se podiam levá-lo de carona; mal acabou a frase e já se envergonhou da humildade baixa — antes que Meng respondesse, disse ele mesmo que esquecesse, que depois de amanhã tinha outro serviço.

Na verdade, não tinha.

Na manhã do dia quatro, foi à loja carregar o linho que restava e ouviu o dono dizer ao ajudante que Liuqing ia passar mais uma noite no alto do rio. A-Shuan ergueu o feixe ao ombro; quis perguntar por quê, mas a corda na mão apertou antes o pescoço. Ajustou a posição e, no fim, não perguntou — apenas levou o linho para dentro do armazém.

Depois do meio-dia, Qian Liu voltou a Linjiang buscar as peças restantes do material do barco.

A rachadura do antigo barco militar já fora reparada, mas o carpinteiro ainda examinava os danos por atrito ao redor e não aceitava carregá-lo até o limite só porque a abertura estava vedada. Xun vigiava o barco. Ma Jie ajudara a substituir dois trechos de cabos velhos; falava de sapatos todos os dias, mas ainda precisava pisar nos apoios molhados. Dessa vez, porém, Qian Liu realmente usava sapatos secos. Ao chegar à barraca, primeiro estendeu um pé diante dos olhos de A-Shuan, mandando que olhasse bem, para não perguntar de novo, no próximo encontro, quantos dias tinham passado de molho.

A Vovó Yu pôs um bolo junto à tigela de Qian Liu; por terem passado juntos pelo perigo, não deixou por isso de cobrar.

Qian Liu pagou e perguntou qual era o que não levava tanta cebolinha, que ainda tinha de acertar contas com o encarregado do material. A-Shuan apontou para ele e, de repente, perguntou como iam os homens daquela casa. Qian Liu contou que Tao Wuniang chegara; a carta de Duan chegara a Liuwan, ela mandara primeiro os vizinhos erguerem o varal de linho e viera a Weishi com roupa e um pote de legumes em conserva; vendo que Duan, deitado, ainda mantinha na mão o utensílio de madeira mofando, levou-o para lavar e secar, mandando-o, com as mãos livres, sossegar e tratar a perna como devia.

— Então ainda não pode andar? — perguntou A-Shuan.

“Não pode. É só querer pegar as muletas que ela já me põe no lugar com uma bronca.”

Qian Liu riu e contou depois que Shi Jing já consertava com a mão esquerda a própria caixinha — da última vez, ele próprio fora escalado para prender a madeira para ele, e segurou quase meio dia. Tian Jiu reconhecia agora o balde de água quente, embora, ao ouvir de vez em quando a panela estalar, ainda se encolhesse para o muro; o médico pediu aos outros que não o assustassem por trás. Nada passava de uma vez, como na saída do banco de areia; mas, por sorte, à noite alguns dormiam mais tranquilos, e Duan já não erguia a cabeça a cada passo para contar a gente.

A-Shuan quis dizer que podia ir visitá-los; da boca, porém, saiu perguntando se levava alguma coisa.

Qian Liu disse que, se houvesse intenção, que encomendasse um pacote de pano limpo, e não comprasse mais bebida, que aquela gente não usava agora. O jovem assentiu; depois do trabalho, tirou primeiro uma cordinha do dinheiro de presente que lhe fora devolvido, comprou pano velho limpo, mais macio, lavou-o e secou-o, e o embrulhou para Qian Liu na manhã da volta. A Vovó Yu viu e não perguntou quanto custaria; só mandou que, se não estivesse seco, não enrolasse apertado demais, senão chegaria a Weishi com aquele bafo de mofo igual à roupa daquela noite.

Ao entardecer, no nono lugar, nesse dia já dava para descer; a profundidade diferia um pouco da de anteontem.

Em que estado o vento da última noite deixara a superfície, que pouco de lodo entrara nesse dia nas fendas da pedra — a ponta do bambu descendo, era sempre uma coisa nova. Olhando para aquele 'falta', ele sentiu de repente que o espaço vazio ao lado também não era bem o nada. Se ontem tivesse copiado à força, essa pequena diferença de hoje seria como aquela mancha branca na casca do bambu, muito bem encoberta por uma camada de tinta nova.

Ele se agachou para desprendar o capim enrolado na vara; o capim já dera meia volta, era preciso ir puxando devagar.

Naquela noite, Meng ainda não tinha voltado.

A-Shuan lavou a tigela vazia e foi buscar, nos fundos da loja, a folha molhada já seca ao ar. O papel velho endurecera, parte dos caracteres esmaecera além de qualquer leitura; a loja não podia reservar para sempre, diante da janela, uma tábua por causa dele. Ele trouxe a folha para casa, deitada, junto com a tábua; a mãe, ao vê-la, perguntou primeiro se ali havia bicho. Ele disse que não vira; ela mandou então pôr em lugar seco, longe do pote de arroz — ela não sustentava uma casa inteira de hóspedes que comem papel.

Ele achou uma caixa velha, forrou-a com papel de palha seco e guardou dentro a folha mutilada.

Aquela faixa antiga das folhas ainda existia, o escuro gasto nela igual ao da sua palma. Enrolou até a metade; não apertou o papel roto em rolo, trocou por um amarro chato e o prendeu por fora da tampa da caixa. A folha do mestre, dali por diante, só podia ficar assim: o lugar que quisesse ver, era preciso abrir devagar, não mais pegar e sair. Ele olhou a caixa, e no peito veio de repente um vazio como o de ter perdido o teto de outrora, chegando até mais quieto que o dia em que perdera o posto.

No entardecer do dia cinco, Meng Liuqing o chamou da beira.

Ela voltara carona num barco de carga que descia com a corrente; trazia às costas as cordas curtas que sobraram e uma manga enegrecida de óleo. A-Shuan fincou a vara de bambu e estendeu a mão para aquele rolo; ela, no primeiro instante, não soltou, ergueu o rosto para olhá-lo. Ele disse que primeiro terminava de medir ali, que restavam dois lugares rumo à foz inferior e que, se ela voltasse à loja, era o mesmo trecho.

Só então ela o deixou tomar o rolo.

Andaram os dois pela margem; a água sob a luz do entardecer tinha uma cor mais funda. A-Shuan lembrou que dali se via justamente aquele barco de passageiros do alto do rio e perguntou como fora o trabalho. Meng disse que terminara direito; o dono do barco, ao vê-la tão jovem, exigira que o pai viesse, mas, quando uma corda velha foi trocada e se viu o miolo gasto de dentro, passou a escutá-la, em vez de perguntar só se a casca externa era nova. Ela contava com um certo orgulho; no trecho mais claro do caminho, os olhos brilhavam.

A-Shuan ouvia, e o coração azedou num instante.

No barco de outros também havia quem a escutasse; ela não precisava sempre dele em pé ao lado, apresentando-a primeiro como filha de fulano, futuro de sicrano. Antigamente ele costumava arrancar essa frase antes dela, achando que era amor; agora, reduzido a carregar cordas, temia de modo especial que até este trecho de caminho juntos se tornasse dispensável.

Meng parou de repente e apontou o ombro dele: a corda não devia pender toda desse lado, o óleo ia sujar a roupa.

Ele quis responder que não fazia mal, mas, pensando melhor, disse que de roupa também só tinha duas. Ela riu, abriu para ele o pano de amortecer, a mão roçando até o pescoço dele. Ele não resistiu e abaixou um pouco a cabeça, o hálito perto do ouvido dela, e os dois pararam um instante. Outro homem vinha pela margem com madeira ao ombro; ele recuou primeiro para dentro com as cordas, Meng encostou-se ao lado dele e, passada a gente, não se afastou logo.

Chegando à foz inferior, foram primeiro medir a água.

Meng ficou no degrau mais alto, esperou que ele anotasse os números e só então perguntou se o que faltava fora esquecimento ou impossibilidade de chegar. Ele respondeu que o vento estava forte, que não desceu; a resposta saiu ainda meio dura, como quem se prepara para aguentar a censura seguinte. Ela leu o escrito, assentiu, perguntou se, chovendo ali naquele dia, ele também não viria; A-Shuan então lhe mostrou os degraus de pedra e a água de retorno, explicando devagar, sem entregar só a palavra 'posso'.

Ela ouviu até o fim e perguntou se o mestre sabia.

O jovem disse que ainda não escrevera; seus papéis estavam muito desorganizados, e queria copiá-los direito antes. Meng mandou que primeiro pegasse a corda na bolsa, pois seu ombro estava quase se partindo de dor; depois de voltarem à loja para comer, ele mesmo veria se os papéis estavam bagunçados ou não. Ela se recusava a ficar ali explicando como ele deveria escrever a próxima carta. Ashuan pegou aquele rolo nos braços e, sentindo-se até mais leve, finalmente perguntou se sobrara comida para ele.

— Tem dos frios — disse ela.

O pai dela já tinha comido. Na panela restava uma tigela de arroz, e havia um pires de feijão. Os dois esquentaram o arroz e o dividiram em duas tigelas. A-Shuan tinha carregado cânhamo durante o dia, estava com fome e comeu depressa, até se engasgar com um feijão. Meng lhe passou água, rindo e sem querer lhe bater nas costas. Disse que ele já tinha medido os bambus novos todos, mas aquela boca ainda não sabia contar quantos grãos cabiam nela. A-Shuan estava com água na boca e não pôde retrucar. Olhou feio para ela, que riu mais alto ainda, enquanto os hashis tocavam de leve a borda do pires.

Comido, os dois empilharam as tigelas vazias.

Meng foi fechar a porta; A-Shuan sentou-se junto à lâmpada, tirou aquela folha bagunçada e, sem copiar de novo o mês inteiro, escreveu apenas num canto: o mestre está bem. Perguntou a ela como se escreviam direito os dois caracteres de Fang Jin — o 'Fang' ele lembrava, mas do lado esquerdo do 'Jin' sempre temia errar. Meng foi buscar papel emprestado no armário, escreveu uma vez e mandou que ele copiasse, sem terminar a carta por ele.

A-Shuan, copiando, acrescentou as saudações, escreveu que no dia três faltara um lugar, que no dia quatro medira, que o trabalho de Liuqing dessa vez saíra, que a mãe andava vendendo bem os bolos. Escrito isso, ergueu os olhos para a porta: as águas dos dez lugares corriam ainda cada qual em seu ponto; as duas últimas daquela noite já estavam no papel, e amanhã de manhã tocava sair de novo. Encostou o bambu novo num canto que não fizesse tropeço, voltou, assoprou a folha para secar, dobrou-a — pela primeira vez sem esperar que alguém dissesse qual frase bastava para poder enviá-la.

· Fim do capítulo ·

Este livro é uma obra original escrita com auxílio de IA, ampliando 《江汉》 (Yangtzé e Han), de Du Fu, e o conto original deste site 《老马识暗滩》 (O velho cavalo reconhece os bancos submersos). Os personagens, a cronologia, os trechos fluviais, os modelos de embarcações e os regulamentos militares são imaginários; não se trata de uma tradução ou adaptação do poema original, nem de uma biografia do poeta.

Sumário deste livro · 36 capítulos
  1. A mão que não queria parar
  2. O canal que o barco de sal viu primeiro
  3. A frase que ficou fora da carta
  4. A bandeira vermelha subiu ao mastro
  5. Os que esperam o barco
  6. O cavalo comeu uma fileira de horta
  7. Mais um traço branco nas velhas ondulações
  8. O banco que não se podia guardar
  9. O último prego do rio
  10. A casa a uma lâmina d'água
  11. No baú não vai a lama antiga
  12. O dia a mais do desvio
  13. Sem som de água ao travesseiro
  14. O colete vermelho está todo coberto de lama
  15. O nó que ninguém queria soltar primeiro
  16. Quatro tiras de pano
  17. A noite em que quatro não puderam atravessar
  18. Ele não aceitou aquele desenho
  19. Aquela velha ferida na árvore
  20. A faca já não pesa sobre o canhão
  21. A raiz agarra um cabo
  22. A metade que ainda tinha de descer
  23. Diante do leme, o lugar de outro homem
  24. A canção junto à pedra de espinha de peixe
  25. Uma tigela de água antes do amanhecer
  26. O armamento que não se entrega inteiro
  27. O som do bronze sob a lama
  28. Aquele pouco de lama velha sob a margem
  29. O soldo de um mês que não se pode receber
  30. Dez profundidades de água
  31. Dentro da porta, coisas já tinham sido postas
  32. Um cavalo que não conhece os limites da roça
  33. A mão fria na régua de sonda
  34. A luz que se derrama do telhado
  35. Uma folha não preenchida por completo
  36. Deixar um caminho para o velho cavalo

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